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Não basta ser reciclável, tem que ser reciclado – por Marta Tocchetto

Metade dos municípios do País ainda dispõem os resíduos urbanos em lixões

A reciclagem é uma estratégia importante, porém é preciso encurtar caminhos para que os resíduos de fato cheguem ao reprocessamento.

O índice de reciclagem no Brasil está aquém da quantidade de resíduos que poderia retornar ao ciclo produtivo. Não alcançou 4% em 2020, de acordo com o Índice de Sustentabilidade das Empresas de Limpeza Urbana (ISLU).

Os plásticos compõem a maior fração, porém a reciclagem é, igualmente, insignificante – apenas 1,3%, dado publicado pela WWF, em 2019. Os números mostram claramente que a maioria está sendo destinada incorretamente, seja para aterros, lixões ou permanecendo no meio ambiente comprometendo rios, mares, solo, atmosfera e biodiversidade.

Os fragmentos destes materiais ingressam cada vez mais na cadeia alimentar ocasionando diversos problemas de saúde. A destinação adequada no país não melhorou, apesar da aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010. A mesma legislação previu a extinção dos lixões, prazo que já foi estendido diversas vezes.

Cerca de 50% dos municípios brasileiros ainda dispõem os resíduos urbanos em lixões. Alternativa que se soma ao conjunto de ameaças às mudanças climáticas. Lixões, ao contrário dos aterros, não possuem manejo adequado, tratamento de efluentes líquidos e gasosos, não atendem os requisitos mínimos legais e ambientais para localização, dentre outros descumprimentos. Lixão não é sinônimo de aterro.

O baixo índice de reciclagem afeta a extração de recursos naturais. O retorno ao ciclo prolonga a vida útil de reservas, em especiais as de minerais. A ausência de políticas públicas que incentivem a indústria da reciclagem é um fator limitante para o crescimento dos índices.

A incidência de impostos encarece os produtos, muitas vezes reduzindo a competitividade em relação aos fabricados com matérias primas virgens. Os custos com a logística de transporte é mais um desestímulo, pois muitas vezes o resíduo percorre longas distâncias até encontrar a destinação adequada.

O volume e a densidade do material interferem grandemente nesta conta. O isopor e o vidro são exemplos clássicos desta problemática. Estes fatores afetam também as associações que, muitas vezes, não encontram local próximo para a destinação daquilo que recolhem. Situação que leva a não recolhimento do resíduo, apesar de reciclável.

As características favoráveis não são suficientes para evitar que o reciclável seja destinado como rejeito. A deficiência na coleta seletiva existente em muitos municípios brasileiros – infelizmente, Santa Maria se inclui neste rol – é mais um aspecto que contribui para aumentar a distância entre reciclável e reciclado.

Sou entusiasta da coletiva seletiva solidária. Modelo implantado na UFSM em 2006, quando coordenei a comissão responsável. O gerenciamento vai além da separação correta, busca a dignificação do trabalho das associações e dos catadores que passa pela parceria para a ampliação de alternativas para a comercialização e para o beneficiamento, a fim de agregar valor ao material, essencial para a sobrevivência da atividade, além de oferecer à comunidade melhores opções de destinação.

A reciclagem é uma estratégia importante, porém é preciso encurtar caminhos para que os resíduos de fato cheguem ao reprocessamento. O desenvolvimento de tecnologias incentivando pesquisas na área; a concessão de incentivos para impulsionar tanto a separação quanto para reduzir os custos de logística; a implantação de sistema de coleta seletiva solidária; a aplicação da logística reversa, bem como estímulos à implantação de empresas recicladoras são fatores essenciais para o crescimento dos índices de reciclagem.

Ao lado deste impulso, reduzir a geração de resíduos e repensar o modo de consumo são fundamentais. O planeta não pode ser tratado como uma grande lata de lixo com capacidade ilimitada para absorver nosso modo de vida insustentável.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

Nota do Editor: a imagem do Aterro Sanitário de Brasília/DF, que ilustra este artigo, é de Gabriel Jabur/Agência Brasília.

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