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O planeta é um só – por Marta Tocchetto

“Se der lucro não importa o grau de destruição. Liberar geral, esta é a ordem”

Não há barreiras físicas para os efeitos ambientais. Mais dia menos dia, a conta vem e com juros. A conta é universal

A capital paulista no dia 22 de agosto sentiu os efeitos das cinzas e da fuligem do incêndio criminoso ocorrido no Parque Estadual do Juquery, apesar de estar cerca de 40 km de distância. O fogo causado por um balão destruiu mais de 80% da vegetação. As consequências vão além do incêndio.

A redução da cobertura vegetal interfere na questão hídrica, pois altera a forma como a água é absorvida no ecossistema. O parque se localiza na bacia hidrográfica que compõe o Cantareira, sistema que abastece a Grande São Paulo. Sem vegetação, a retenção da água pelo solo é menor. O aumento da evaporação torna o solo mais seco, mais suscetível à erosão e ao assoreamento, inclusive das nascentes.

O incêndio do parque é um problema que afeta mais do que uma região específica. Os efeitos são como peças de dominó, uma a uma é derrubada pela seguinte até estarem todas no chão. O Brasil perdeu quase 16% das reservas de água doce nos últimos 91 anos.

Os custos ambientais, sociais e econômicos desfilam feitos fantasmas assombrando nossas vidas. O país tem como principal matriz energética, a água. A redução da vazão dos rios representa não só colapso de energia, mas de água para atividades essenciais e para a sobrevivência de todos os seres vivos.

A economia depende da água para manter os processos produtivos e a produção de alimentos. Água é vital. A falta está afetando o saqueado bolso dos brasileiros, ante as gestões desastrosas das crises hídrica e econômica. Mais um reajuste na conta de luz está previsto para os próximos dias.

Com os reservatórios em volumes críticos, as termoelétricas têm coberto o déficit de produção de energia. Um apagão não está descartado. As termoelétricas movidas a carvão ou a petróleo são altamente poluentes, contribuindo significativamente para o agravamento climático que também interfere na questão hídrica.

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come! Depois de perder o controle da situação, ações paliativas amenizam alguns efeitos negativos, mas não deixam de criar outros. É preciso considerar que, muitas vezes, a complexidade das ações e os custos das medidas inviabilizam a implantação.

Prevenir é melhor (e mais barato) do que remediar! A área de gestão ambiental objetiva a implantação de um conjunto de estratégias capazes de mitigar os efeitos negativos das ações do homem sobre o meio ambiente. O assustador é a impotência ante um Brasil que volta aos tempos anteriores à sustentabilidade – desenvolvimento a qualquer custo.

O atual modelo desconsidera os aspectos sociais e ambientais. Se der lucro não importa o grau de destruição. Liberar geral, esta é a ordem. O marco temporal é mais um destes exemplos gritantes. Afeta não apenas os povos indígenas na demarcação das suas terras, mas a vida de todos nós e o atendimento das nossas necessidades essenciais.

O PL 490 é um retrocesso. É uma violência aos direitos dos povos tradicionais, sobretudo à terra que sofre com a invasão de garimpeiros, grileiros, madeireiros e do agronegócio.

O mais espantoso é que os verdadeiros guardiões das florestas e das riquezas naturais tenham sido transformados em vilões por um governo que deveria protegê-los. Governo que também deveria proteger nossa história e nossa cultura. Há cheiro de veneno e sinais de fogo no ar. Estas são as práticas.

Uma pergunta não quer calar – quando se darão conta que esta destruição fará o feitiço virar contra o feiticeiro? A tristeza é que o rastro de devastação punirá não apenas os culpados, mas os inocentes e os injustiçados. O custo da destruição é de todos e será irreversível. O custo é mais fome, desigualdade e morte.

O planeta é um só. Não há barreiras físicas para os efeitos ambientais. Mais dia menos dia, a conta vem e com juros. A conta é universal. As gerações futuras não perdoarão a herança árida deixada.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

Nota do Editor: A foto (Reprodução/Prefeitura de Franco da Rocha/SP) é do incêndio no Parque Estadual do Juquery, em São Paulo, iniciado na manhã de 22 de agosto passado.

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Um Comentário

  1. Planeta é um só, de fato. Problema é que temos duas La Niña seguida. Fenomeno relacionado com o Dipolo do Oceano Indico dentre outras coisas.
    Falácia vem a seguir, onde o ‘bom selvagem’ tem area demarcada só existe preservação. O que se ve (em muitos lugares, não é generalização) é plantio de soja, desmatamento ilegal para venda de madeira, garimpo feito por indigenas ou com mão de obra indigena (assalariados), etc. Mais, não adianta produzir legislação em BSB que não tem como ser fiscalizada. É muito chão e a sociedade não aguenta mais pagar impostos.
    Agronegocio produz o valor agregado que também paga a aposentadoria dos professores da UFSM. Se somarmos o valor agregado produzido pela ‘produção cientifica’ da instituição, quanto será que dá?

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