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Quando o tempo passado se entrelaça com o presente – por Michael Almeida Di Giacomo

A questão do Afeganistão, a migração, os muros e uma história em círculos

O povo afegão há séculos é refém da sua própria história, da necessidade que Oriente e Ocidente sempre tiveram de ocupar a região para viabilizar o comércio entre si. Por isso, sempre pareceu conveniente aos grandes impérios tentar conquistar a espaço que conhecemos como Afeganistão. Foi assim com os persas, os mongóis e os soviéticos.

Interessante é que na referida região, o tempo, pelo viés da sua história, não é linear e sim circular. Com a devida licença poética, lembra Gabriel Garcia Márquez e seu realismo mágico, no qual o tempo passado se entrelaça com o presente.

Eu sei, a realidade é muito mais dura.

É o caso vivido pela da escritora e ativista política Malalai Joya.

A ativista, em 2006, eleita a um assento no Parlamento do Afeganistão, ao ter denunciando que alguns dos seus ex-colegas eram “Senhores da Guerra” e inadequados para servir ao novo governo, foi duramente ameaçada por alguns de seus pares, inclusive de que merecia ser estuprada.

Malalai pedia que os “Senhores da Guerra” e os Talibãs fossem punidos por terem cometidos violações contra direitos humanos do povo afegão, com o aval das autoridades internacionais. Ela foi expulsa do Parlamento.

A partir de então teve início uma intensa jornada de clandestinidade e medo. Na defesa de suas ideias, a ex-parlamentar sempre foi enfática ao afirmar que, após a ocupação norte-americana, nunca se teve sequer uma “caricatura de democracia” no país.

A ocupação chegou ao seu final. E o povo afegão novamente está sob o comando do grupo Talibã.

É realmente uma história circular.

Embora a decisão de se retirar da região não fosse unicamente responsabilidade de um só governante norte-americano, no caso Joe Biden, o fato é que a comunidade internacional teceu fortes críticas pela forma e o tempo da desocupação, e os efeitos causados à população afegã.

A resposta do democrata, a fim de tentar dirimir o prejuízo à imagem do seu governo, foi requisitar 18 aviões de diferentes companhias áreas comerciais para retirar os cidadãos americanos e os afegãos que trabalharam com os EUA durante os anos de ocupação.

Hoje o que se prevê é um grande êxodo dos afegãos em busca de terras aonde possam estar seguros, sem serem subjugados pelo fundamentalismo do Talibã.

Na última sexta-feira, o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados apelou aos países vizinhos para que mantenham suas fronteiras abertas e preservem o direito de asilo aos afegãos que chegarem por meios regulares ou espontâneos. E deixou bem claro que não devem ser confundidos com reassentamento de refugiados, mas considerados como programas de evacuação bilateral.

A preocupação com o êxodo do povo afegão, uma possível migração descontrolada e seus efeitos no continente europeu motivou o governo da Grécia a erguer um muro de 40 km na fronteira com a Turquia. 

A Grécia já tem expertise em receber migrantes.

Em 2015, mais de um milhão de pessoas oriundas do Oriente Médio cruzaram a sua fronteira com a Turquia. Perto de 60 mil pessoas permaneceram no país. O que parece atualmente não ser a intenção do governo grego.

O muro grego lembrou-me de outra região, na fronteira entre a Espanha e o Marrocos, ao norte do continente africano. Lá são dois muros. Os muros de Ceuta e Merilla.

A cidade de Ceuta fica separada da Espanha pelo “Estreito de Gilbraltar” e, mais a leste, tem-se a cidade de Merilla. As duas cidades, embora no continente africano, são tidas como territórios da Espanha, que afirma sua propriedade ainda antes da constituição do Marrocos.

A Espanha, com respaldo da União Europeia, na ideia de reforçar suas fronteiras, devido à localização estratégica na proximidade com o continente europeu e ao Mar Mediterrâneo, construiu os muros a fim de conter as tentativas de imigrações ilegais na região e, claro, de garantir a soberania do território.

A construção de muros para proteger as cidades ou determinadas regiões não é uma “primazia” do nosso tempo. Na Era antes de Cristo essa prática era muito comum.

Na Ásia Central, por exemplo, existem inúmeras cidadelas muradas. Paredões são erguidos e formam grandes fortalezas, o que denota uma cultura voltada para a guerra. Na Europa e na América Latina, também há outros tantos registros de cidades muradas, algumas em ótimo estado de conservação.

Como sê nota, ainda hoje muros são erguidos. E a história permanece cíclica.

(*) Michael Almeida Di Giacomo é advogado, especialista em Direito Constitucional e Mestre em Direito na Fundação Escola Superior do Ministério Público. O autor também está no twitter: @giacomo15.

Nota do Editor: a foto (sem autoria determinada) que ilustra este artigo, o muro de contenção erguido pelos gregos, é uma reprodução obtida na internet. Você pode encontra-la, por exemplo, AQUI.

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2 Comentários

  1. Saida americana era inevitavel. Povo quer viver no século VI. Militares distribuiam japonas com capuz para o frio (mandadas pelo andar de cima), botas de inverno, etc. Enquanto estavam lá os habitantes vestiam as doações. Americanos viravam as costas e as doações eram colocadas num caminhão que levava as mercadorias para serem vendidas no Paquistão. As sandalias substituiam as botas mesmo no frio.
    Biden não esta sendo criticado pela saida, esta sendo criticado pelo modo que ocorreu. Deixou muita gente para trás, confiou em quem não devia, pressupos e deixou pontas soltas. No minimo uma falta de informações/inteligencia.
    Interessante é a mudança de narrativa, no começo era construção de uma Nação Estado. Agora voltou a ser ‘negar uma base para os terroristas’. Porque é dificil justificar para um soldado que se alistou após o 11 de setembro que perdeu duas pernas e um braço que tudo foi a troco de nada.
    Não existe vacuo. Talibã mostra um nivel de sofisticação que não tinha no primeiro governo. Montou um escritorio em Doha no Qatar. Negociou com russos, chineses e sabe la mais quem. China, não de hoje, já fala na Nova Rota da Seda.

  2. Para quem gosta de estudar gestão as Forças Armadas americanas são um prato cheio. Recrutamento (eles são semi-profissionais, muitos trabalham na base de contrato, como na França; um problema porque tem que competir no mercado de trabalho como qualquer outra empresa), treinamento (parte psicologica), cargos e salarios e fluxo de informações na organização.
    A diferença entre o nivel estrategico e o operacional é gritante. Por fora ainda tem a imprensa que até com as melhores intenções cria mais problemas e a classe politica ianque.
    Capitão Dan Quinn, Boina Verde. Amontoo a pau um comandante afegão que mantinha um menino acorrentado na cama e era utilizado como escravo sexual. Primeiro Sargento Charles Martland, outro Boina Verde, deu uma surra de criar bicho num comandante de policia afegão que era contumaz estuprador de crianças. Uma mãe procurou o sargento para salvar o filho e ele foi la e resolveu. O Capitão perdeu a carreira, o sargento foi expulso, mas o Congresso interviu e ele acabou voltando para o exercito. Nesta parte os civilizados falam que não é assim, há que seguir os canais competentes. Cabo Fuzileiro Naval Gregoru Buckley Jr. reclamou de um comandante afegão que mantinha um harém de meninos. Acabou assassinado por uma das vitimas junto com dois colegas que não tinham nada a ver com a história. Fonte NYT.

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