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ESTADO. “Estamos perdendo biodiversidade antes mesmo de conhecê-la”. É o fim do Pampa gaúcho?

Professor do Instituto de Biociências da UFRGS e a forte crítica às autoridades

Só 33,6% do território do bioma está preservado. Entre 2000 e 2015, área com soja cresceu 188,5% (Foto Arquivo Pessoal/Valerio Pillar)

Reproduzido do jornal eletrônico SUL21 / Entrevista e texto de Luciano Velleda

Logo nas primeiras páginas do livro Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro, obra célebre do movimento ambientalista no País, José Lutzenberger critica a falta de limites para o “desenvolvimento” e o “crescimento econômico”. O agrônomo argumenta que o pensamento econômico que permitiu o surgimento da sociedade industrial e de seu auge, a sociedade de consumo, parte de um modelo que chamou de “divorciado da realidade”.

“Encara-se a economia como se ela existisse em um plano que transcende a natureza e que com ela não tem contato, a não ser naqueles pontos em que ela é explorada como fonte gratuita de matéria-prima”, disse Lutzenberger.

No livro, publicado em 1980, o ambientalista gaúcho afirma que tal modelo ignora o funcionamento da ecosfera – porção do planeta que abrange a biosfera e todos os elementos com influência sobre os organismos vivos, incluindo solos e rochas (litosfera), mares e rios (hidrosfera) e a atmosfera. “A visão da economia como algo que transcende a natureza leva à cegueira ambiental por um lado e a contas fictícias e ilusórias por outro. É porque a natureza não entra em nossas cogitações econômicas que não nos damos conta da gravidade de nossas agressões, não vemos que nos encontramos em pleno processo de desmantelamento da ecosfera, cujo fim significará o fim também da economia humana”, sentenciou um dos maiores ambientalistas brasileiros.

Lutzenberger certamente ficaria desapontado com o que acontece atualmente no Pampa, o bioma característico do Rio Grande do Sul e que tem sofrido a maior remoção da vegetação nativa dentre todos os biomas do Brasil. A área total mapeada no Pampa pelo IBGE, em 2019, foi de 19,3 milhões de hectares. Deste total, os remanescentes de vegetação nativa campestre ocupavam, em 2018, 6,5 milhões de hectares, representando 33,6% do território do bioma.

A agricultura já é o tipo de uso do solo predominante no Pampa, ocupando 38,3% do seu território. As florestas nativas cobrem 13,2% do bioma e a silvicultura 2,4%, sobretudo com eucalipto e pinus, enquanto que os corpos d’água representam 9,6%. A soja tem sido o principal cultivo a ocupar as áreas originalmente constituídas de vegetação nativa campestre. Entre os anos 2000 e 2015, a área plantada com soja no Pampa cresceu 188,5%.

Nessa entrevista ao Sul21, o professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Valério Pillar, aborda o que tem acontecido no bioma típico do RS e quais as consequências da perda anual de cerca de 125 mil hectares de campos nativos transformados em lavoura ou silvicultura. Efeitos inclusive na produção pecuária, que tem perdido cada vez mais espaço.

“A economia, dizem, se beneficia, dependendo de como se mede esse ganho econômico, mas se perde também nos serviços ecossistêmicos, que são os benefícios que a natureza oferece e que vão além da produção de alimentos. Então se produz mais grãos, mas se diminui a produção pecuária e de lã. Se produz mais grãos, mas se aumenta a perda de solo por erosão, esse solo acaba nos cursos d’água, assoreando e contaminando os cursos d’água, não só pelos sedimentos, mas também pelos adubos e agrotóxicos, e isso acaba afetando a vida aquática. Então nós perdemos biodiversidade aquática, perdemos biodiversidade que talvez nunca venhamos a conhecer”, explica Pillar.

O professor da UFRGS critica fortemente a omissão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), órgão responsável por fiscalizar a preservação do Pampa. A Lei 12.651/2012, conhecida como Lei de Proteção da Vegetação Nativa, estabelece que 20% de cada propriedade deve ser preservada como “reserva legal”. A lei, entretanto, está longe de ser cumprida no RS. Em agosto, o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) encaminhou ao Ministério Público Estadual (MPE) denúncia de omissão da Sema na proteção dos campos nativos do bioma Pampa.

“Se a Secretaria se mexesse pra aplicar a lei, essas propriedades deveriam se regularizar e atender aquilo que a lei obriga, que é ou restaurar a reserva legal da propriedade ou compensá-la em outra propriedade”, explica.

Sul21: Qual a realidade da preservação do Pampa?

Valério Pillar: Essa negligência geral em relação à conservação dos campos nativos no Sul do Brasil vem já de muito tempo. Ela tem origem numa visão generalizada na sociedade de que áreas onde não há floresta seriam áreas necessariamente degradadas, porque ali deveria haver uma floresta e não há. Essa visão se criou até na educação ambiental, de que a árvore representa a natureza, e não que não represente, mas há outros ecossistemas que também são importantes conservá-los e valorizá-los. E entre eles, os campos nativos têm uma riqueza excepcional de espécies.

Aqui no Rio Grande do Sul, quando os pecuaristas, representados pela Farsul, orientam a preencher o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e declarar campos nativos não como remanescentes de vegetação nativa, mas como área rural consolidada, porque estão sendo usadas na atividade pecuária há tempos, tem esse viés.

Por que não fizeram o mesmo com as florestas, que há séculos são utilizadas de maneira sustentável pra extração de lenha ou moirões pra cerca? As florestas estão no Cadastro Ambiental Rural demarcadas como áreas remanescentes de vegetação nativa. Aqueles poucos que declararam floresta legal o fizeram, mas os campos não, praticamente não há reserva legal em campo nativo no Rio Grande do Sul.

Isso está relacionado com a perda de 125 mil hectares por ano só no bioma Pampa, que no Brasil só existe no Rio Grande do Sul. São 125 mil hectares de campos nativos que são transformados em lavoura ou silvicultura por ano. Imagina se fossem 125 mil hectares de florestas, será que já não teriam autoridades e a população com campanha “salvem as florestas do Pampa”?

Sul21: E por que não temos campanha pra salvar os campos nativos do Pampa?

Valério Pillar: Não temos esse movimento, ninguém se importa. As autoridades não se importam, a começar pelos pecuaristas que não se importam. A base da pecuária de cria são os campos nativos. É um serviço ambiental oferecido pela natureza que permite a produção de carne de alta qualidade, desde que seja possível o manejo adequado dessas áreas. Bem ou mal, a pecuária em campo nativo tem preservado a biodiversidade. Esses mesmos pecuaristas que têm esse benefício, acham que esses campos produzem pouco, então há uma pressão para que essas áreas sejam transformadas em lavouras e silvicultura. É uma pressão econômica pra melhoria de renda, enquanto há opções de melhoria de renda simplesmente com o manejo dos campos nativos, preservando a biodiversidade. Nem os 20% que a lei obriga de reserva legal tem sido atendido.

Sul21: Por que a soja tem sido a grande responsável pela transformação dos campos nativos em lavouras?

Valério Pillar: A soja tem sido há algumas décadas o motor dessas transformações. Teve um período, em 2005 e 2006, que a silvicultura teve grande expansão, mas hoje já não é mais tão interessante para os proprietários. O arroz foi há muito mais tempo, mas o arroz tem uma grande limitação que são as várzeas, e as várzeas praticamente já se esgotaram no Rio Grande do Sul, então não há tantas possibilidades para expansão da lavoura de arroz como havia antes. Agora pra soja ainda há áreas de campos nativos, em algumas regiões com solos adequados e que logo serão convertidos a continuar a inação do poder público…”

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2 Comentários

  1. CAR é baseado no Codigo Florestal aprovado no Congresso. As areas consolidadas são utilizadas há decadas, não é ‘invenção’. Já não é facil ver por ai avestruz (ema), veado mateiro (o pardo), etc. Querem cercar 20% das propriedades e deixar o capim crescer? Reserva de carrapatos e cruzeiras? Prejudicando a viabilidade financeira de muitas propriedades (é ciclico, fase boa acaba)? Um monte de reservas picotadas pelo estado? E os mil hectares da reserva do Pampa? Resumo da ópera é simples: um monte de ‘genios’ (‘especialistas’) tentando forçar uma intervenção na vida de terceiros realizada pelo ‘Estado’ sem sofrer as consequencias da mesma (porque estão protegidos num aquario do serviço publico).

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