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Patrões, patronas e o Patrono – por Orlando Fonseca

A data máxima dos gaúchos e o patrono do movimento, um santa-mariense

Talvez poucas pessoas em Santa Maria saibam quem foi João Cezimbra Jacques. Algumas sabem que ele é o patrono do Movimento Gaúcho, mas um número pequeno dentre essas se dá conta de que se trata de um santa-mariense. A ponto de se orgulharem de terem um conterrâneo – natural, ou de coração – com tão significativa honraria.

No momento em que o nosso Estado comemora o Dia do gaúcho e a Semana Farroupilha, quero lembrar dessa personalidade nascida em nossa cidade, mas tão pouco lembrada como figura pública.

Cezimbra Jacques foi escolhido pelo MTG para ser o seu Patrono, em vista de ele ter sido o precursor desse movimento, cujo caráter conhecemos a partir da criação do 35 CTG, em 1947, por um grupo de jovens, sob a liderança de Paixão Cortes.

Os princípios de tal entidade, os Centros de Tradição Gaúcha, tiveram como base o primeiro Grêmio Gaúcho, criado por Jacques, em 1898, na capital do Rio Grande do Sul, com a intenção de celebrar a vida rural e seus costumes, bem como glorificar os heróis farroupilhas.

Esta parte histórica ele, com certeza, se inspirou nos intelectuais que formaram o Parthenon Literário, nos anos 70 do século XIX, lá mesmo em Porto Alegre. Essa entidade reunia poetas, jornalistas e profissionais de diversas áreas.

Eram republicanos e abolicionistas e, através de seu ativismo, tiveram uma participação importante no fim da monarquia e da escravidão em nosso país. Criaram o mito do gaúcho – resgataram os feitos da guerra dos Farrapos em vista de seus ideais libertários.

Mas por que o Patrono é importante para a memória do Coração do Rio Grande? Porque se trata do primeiro escritor de nossa cidade, tendo publicado o primeiro livro de um santa-mariense (que se tem notícia), nos idos de 1883. Foi um militar que participou da Guerra do Paraguai, como Voluntário da Pátria, seguiu carreira como instrutor da Escola Militar e deixou 14 obras sobre temas variados, de folclore (avant la lettre) a sociologia e ecologia.

Para mim, o mais importante é que ele legou um símbolo para nossa cidade: Imembuy. Sim, não se trata de uma lenda que ele tenha recolhido da tradição oral. A lenda inexiste na cultura rio-grandense.

A personagem e seu drama ao lado de Morotin é uma criação literária de Cezimbra Jacques, registrada em seu livro Assuntos do Rio Grande, publicado em 1912. Por sua atividade intelectual, foi um dos fundadores da Academia Rio-Grandense, patrono da cadeira 19.

Em vista de que uma grande maioria prefere reconhecer que Imembuy é uma lenda, o seu autor vai desaparecendo. Ocorre o mesmo com o que tradicionalmente o povo identifica como “gaúcho”, um tipo humano livre que teria habitado esta região meridional do Brasil. Teria sido um habitante da “pampa”, espaço rústico e selvagem entre nosso Estado, o Uruguai e a Argentina.

No entanto, este mito foi construído ao longo das décadas finais do século XIX e início do século passado, na intenção de construir uma identidade originária. Atividade que envolveu artistas e intelectuais nacionalistas, influenciados pela revolução farroupilha e ideais iluministas franceses, em favor de um pensamento liberal, antimonárquico e pelo regime republicano.

O que conhecemos hoje como Rio Grande do Sul foi uma das últimas regiões do planeta a ser colonizada. Disputa entre as coroas espanhola e portuguesa, foi sendo ocupada primeiro pelas missões jesuíticas, depois pelos casais açorianos, e levas de europeus, principalmente, alemães e italianos.

Antes disso, não existiu o tal gaúcho mitificado pela literatura, como o centauro dos pampas, ou monarca das coxilhas. Assim como o estudo da história nos tem mostrado que os heróis farrapos, a par dos ideais de liberdade e progresso, não são exatamente as figuras glorificadas que a tradição nos legou.

Não estou a dizer com isso que o cultivo das artes e a celebração dos costumes que nos emocionam e encantam deva ser deixada de lado. Mesmo inventada, a tradição se impõe como identidade: somos todos gaúchos.

No entanto, uma data cívica, em nome da verdade histórica e a favor da memória cidadã, deve servir para se relativizar alguns fatos e personalidades e lembrar de outros.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Nota do Editor: a imagem (sem autoria determinada) de João Cezimbra Jacques, patrono do Movimento Gaúcho, que ilustra esta crônica, é uma reprodução obtida na internet.

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4 Comentários

  1. Belo texto Professor Orlando, com certeza deveria ser mais CONHECIDO e valorizado principalmente aqui em Santa Maria, sua terra natal. Lembro que nos idos dos anos 2000, teve um Piquete tradicionalista com seu nome em sua homenagem, cujo o lema era “Um povo sem tradição é como uma árvore sem raiz” frase célebre do nosso Major.

  2. Já na cidade o aspecto ideologico é importante. Musica tradicionalista era uma até a epoca dos grandes festivais. Sofreu infiltração vermelhinha, tentativa de recontar a historia com outro vies. Gaucho seria um ‘coitado’, um ‘passivo’, uma ‘vitima’. Não teria aderido a lutas e revoluções por livre vontade (Capitão Rodrigo e Toribio, O Tempo e o Vento, baseados no pai do autor), seria o velho do ‘Sabe Moço’ do comunista Leopoldo Rassier ou na ‘Paisagem Urbana’ de João de Almeida Neto. Historiadores vermelhos levaram adiante a descontrução da figura do gaúcho, simbolo de uma cultura machista, patriarcal, não inglusiva, homofobica, etc. Gaucho seria ‘inventado’ (logo pode ser ‘desinventado’), Eduardo Bueno, o Peninha, vive falando (este tem a boca grande, uma hora encontra o que tanto procura). Valores familiares, respeito aos de maior idade e as mulheres, disciplina no trabalho, cuidado com as crianças, tudo isto é ‘coisa da Globo’. Contrastando com o pessoal citadino, bom não esquecer, são as figuras semelhantes a Mano Lima, mais proximas do verdadeiro pessoal do campo. Cantor é cria, bom lembrar, de Aparício Silva Rillo, figura notavel. Como Barbosa Lessa e tantos outros.

  3. Morotim, Cezimbra Jacques, assuntos com importancia ‘decretada’, significancia é declarada e o assunto é esquecida até alguém (que realmente de imporancia) lembre.
    A glamourização, coisa da cidade onde chamam de ‘invenção do mito’ de fato aconteceu. É um reflexo de algo que existiu. Obvio que se modifica com o tempo, as charqueadas, o ciclo da comitivas de tropa, etc. Esta relacionada a lida com o gado que também existe no Texas e na Colombia por exemplo. Mudanças na indumentaria tem explicação na funcionalidade, bombachas (que tem origem nas estepes da Asia Central) facilitam a montaria, substituidas pelo jeans que tem maior durabilidade. Gostem ou não é algo disseminado, há quem diga que o gaucho é uma raça. Em Nova Iorque, Newark, funciona o CTG Saudade da Minha Terra. Em SC CTG’s muitas vezes são clubes particulares e são de tradições ‘gauchescas’ poque de gaúcho não gostam.

  4. Olhando assim parece que o RS é uma ilha. De novo. No final do século XIX aconteceu um surto de nacionalismo e os elementos da identidade nacional foram moda. José de Alencar, basta perguntar a quem manje de literatura, escreveu ‘O Gaúcho’ sem nunca ter colocado o pé por aqui. Escreveu ‘O sertanejo’ também. Maré virou e em 1937 Getulio, que se matou para não dar o gosto de atirarem nele, ditador, queimou as bandeiras dos estados (RS inclusive, o FDP) para fortalecer o ‘espirito nacional’ (Brasil vive ondas centripetas e centrifugas de poder; atualmente é federação no papel, tirando assuntos pandemicos na pratica esta mais para Estado Unitario).
    Paixão Cortes não tirou nada do bolso, realizou, embora a academia torça o nariz, estudo etnografico. Com todos os problemas e sem quase nenhum recurso. Regiões de fronteira são lugares de misturas de costumes em todo lugar do mundo. A cada mil quilometros (na media) existem diferenças de costumes importantes. Detalhe, 35 CTG é fundado apos o fim da ditadura Vargas.

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