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Dia das Bruxas. A bruxaria e a feminilidade – por Elen Biguelini

“A bruxaria foi definição da alta idade média, que alia a feitiçaria à heresia”

A atual representação de bruxas como mulheres velhas, com verrugas, com grandes caldeirões e vassouras já começa a ser defasada após uma insurreição de representações do mágico como magnífico e não horrendo. Tanto a febre que foi e é Harry Potter como as três bruxinhas fofas que apareceram em televisão e livros na década de 90 trouxeram uma ideia de alegria e novidade a magia.

Mas a imagem da velha anciã com um caldeirão, uma vassoura, cabelos brancos compridos e verruga no grande nariz ainda permanece entre nós. Ela foi perpetuada pelos contos de fadas, mas por trás se relaciona a uma figura feminina comum durante largos períodos da história: a velha curandeira, que conhecia ervas medicinais e que auxiliava nos partos e nas doenças das pequenas vilas.

A deturpação da imagem da bruxa tem relação com sua feminilidade. É aquela mulher que sabia mais do que os homens. É aquela que fugia aos padrões. Não é a toa, então, que a outra representação relacionada à bruxaria é a de mulheres jovens e belas, nuas, dançando sob a lua cheia.

A sexualidade feminina foi ao longo da história um dos grandes temores masculinos. As mulheres, desde a antiguidade, foram vistas tanto como figuras positivas (deusas da fecundidade – Antiguidade – e da sabedoria – Atena) quanto homens incompletos (Aristóteles). Para o historiador Jen Delumeau, “essa veneração do homem pela mulher foi contrabalançada ao longo das eras pelo medo que ele sentiu do outro sexo, particularmente nas sociedades de estruturas patriarcais” (DELUMEAU, 311).

A mulher é frequentemente relacionada à natureza, ao elemento materno (a mãe natureza), enquanto o elemento paterno é relacionado à história e à razão. Sendo, então, relacionada à natureza, a mulher é dita poder prever o futuro, ter o poder da cura, ela é instintiva. Assim, acabava sendo “um constante enigma” (DELUMEAU, 311) para os homens.

Elas são uma eterna contradição. Dão a vida através da maternidade, repelem o homem através de seus odores e secreções. A mulher é vida e é morte. É a deusa-mãe – a terra que dá a vida e na qual acaba a vida. E é devido a isso que em muitas civilizações são as mulheres que têm a função do trato dos idosos e dos doentes, elas têm relação com o ciclo da vida, criam ao mesmo tempo que destroem. As mulheres dão a vida, mas ao mesmo tempo cometem abortos e infanticídios.

Na idade media, este medo do feminino tornou-se ainda mais forte e constante, em especial devido à Igreja Católica e o temor do pecado sentido pelos próprios párocos. A sexualidade é o pecado por excelência” (DELUMEAU, 316). O desejo é “turvo”, insaciável, ruim.

A separação entre corpo e espírito, que Santo Agostinho descreve, impõe um obstáculo para que a mulher alcance o paraíso, já que a mulher é corpo, enquanto nos homens o corpo reflete a alma. Logo, a mulher é inferior e por isso, deve ser submissa. São Tomas de Aquino, por sua vez, via as mulheres como mais imperfeitas que os homens.

Assim, a mulher é um “macho deficiente” (DELUMEAU, 317) que precisa da tutela/ ajuda masculina já que é incapaz. Apenas o homem tem um papel na geração, sendo que a mulher é apenas um receptáculo, logo, existe apenas um sexo, e a mulher é um macho deficiente, um macho incompleto. Vem das opiniões dele quanto ao “sangue impuro” (o resíduo do sangue produzido em último lugar pela digestão) a proibição da participação das mulheres na missa.

Desta forma, tudo que a Idade Média fez foi aumentar aquilo que já existia. A imagem da mulher continuou a ser dividida na imagem pura de Maria, contrastada com a imagem de Eva enlaçada por uma serpente. Delumeau cita o culto mariano e a literatura dos trovadores como contributos a longo prazo para a promoção da mulher, mas grifa que isso aconteceu apenas a longo prazo, pois “a exaltação da Virgem Maria teve como contrapartida a desvalorização da sexualidade” (DELUMEAU, 319). Ao invés de ser uma forma de exaltar a mulher é uma forma de exaltar a virgindade e de rebaixar a sexualidade feminina.

O corpo de Maria, coberto em mantas, com os olhos baixos e uma figura do pequeno Jesus em seu colo, era denegrido pela imagens das mulheres nuas. Maria não tem sexualidade. Maria é mãe. E somente mãe. Não é a toa que a imagem de Nossa Senhora do Ô (a Nossa Senhora grávida) tenha vagarosamente desaparecido. Grávida, nossa senhora lembra a sexualidade. Com o bebê no colo lembra a maternidade. Até mesmo o seio de Maria passou a ser coberto, ainda que existam representações de seu seio nu, próximo ao bebê prestes a ser amamentado.

A sexualização do ato de amamentar seu filho já é muito antiga, e não foi criada na contemporaneidade com pessoas que acham que as mulheres devem alimentar suas crianças em banheiros, ao invés de em lugares saldáveis e abertos.

Mas a bruxaria foi uma definição nova, da alta idade média, que alia aquilo que já existia até então, a feitiçaria, à heresia. Eram mulheres que não seguiam os preceitos católicos, eram a própria representação do mal. A bruxa se encontra com outras mulheres e tem relações com o Diabo, o maior medo da Igreja católica no período.

Não é surpreendente, então, que a “Caça às Bruxas” tenha sido tão forte e tão constante ao longo deste período e que tenha se perpetuado também pela Idade Moderna. Queimar uma bruxa era colocar fogo na sexualidade feminina, era destruir toda e qualquer possibilidade de rebelião perante aos ideais de virgindade e castidade que a Igreja Católica perpetuava. O corpo feminino era a tentação masculina, o corpo feminino era o mal. Na Idade Moderna, este medo tornou-se tão exacerbado, que mesmo reis e o próprio Papa aprovavam esta perseguição extrema.

E de tudo isso, surgiu uma figura má, uma vilã ligada a todo o mal, uma figura de tudo que há de ruim no mundo. O oposto da religião. Assim, a sexualidade feminina tornou-se vilã da sociedade durante muitos séculos e apenas recentemente a imagem da bruxaria e da feitiçaria tem sido relacionada com o bem, com salvar o mundo, com Harry Potter e com a Feiticeira Escarlate.

Referências:

DELUMEAU, Jean. A história do medo no ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Alguns autores para leituras sobre o assunto: O calibã e a Bruxa, de Silvia Federeci. A feiticeira, de Jules Michelet, Histórias Noturnas: decifrando o sabá, de Carlos Ginburg. E muitos outros!

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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