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O capitalismo de cassino – por Leonardo da Rocha Botega

Bolhas estouradas e a solução – para quem as causou - que chega do ‘Leviatã’

Em 19 de novembro de 2000, em entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza (CE), o filósofo alemão Robert Kurz, chamou atenção para os problemas que vinham sendo gerados pelo que ele definiu como “o capitalismo de cassino”.

Na ocasião o autor do brilhante “O colapso da modernização”, alertou para as bolhas de especulação que vinham sendo criadas ao longo dos últimos anos, desde que “as condições da economia real” passaram a ser “cada vez menores às condições do capital fictício, da especulação”.

Alguns meses antes, a chamada “bolha da internet” ou “bolha ponto com” havia acabado de estourar. Desde 1994, o crescimento de ativos das empresas de tecnologia na Nasdaq (bolsa americana com foco em tecnologia e inovação) dava a impressão de que se estava vivenciando uma espécie de “anos dourados” dos investimentos financeiros.

Paradoxalmente, apesar das grandes vendas de suas ações, tais empresas tinham dificuldades em garantir lucro para os seus acionistas. A hipervalorização do setor não gerava mais lucro. O motivo: a hipervalorização era sustentada na especulação e não na economia real.

O resultado do estouro da bolha foi assustador. A Nasdaq, que em 10 de março de 2000 havia atingido a marca histórica de 5.048.62 pontos, sofreu uma queda de quase 77% em apenas dois anos. Nesse mesmo período, a estimativa de perda do mercado foi de mais de 5 trilhões de dólares.

Empresas como Webvan (delivery), Pets.com (pet shop), eToys (brinquedos) e theGlobe.com (redes sociais) acabaram falindo. A realidade batia à porta, sobretudo, dos novos e pequenos investidores que aprenderam na prática que valor de mercado não significa propriamente geração de caixa.

Porém, apesar do impacto gerado pelo estouro da bolha da internet, o capitalismo de cassino seguiu seu rumo. Naquele contexto, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, que meses antes do estouro alertava para a “exuberância irracional” que estava havendo na Nasdaq, proferiu uma frase que se levarmos em conta esse alerta inicial podemos considerar hipócrita: “É fácil identificar uma bolha, basta esperar ela estourar”. Diferentemente de Greenspan, Kurz não somente identificou várias bolhas como também caracterizou aquele estouro como “um episódio dentro de um processo de crises que vai durar por muito mais tempo”.

Ponto para Kurz! Em 2008, outra dessas grandes bolhas estourou. Diante das perdas com a crise da bolha da internet, o capitalismo de cassino resolveu incrementar seus ganhos. Os bancos estadunidenses passaram a conceder créditos imobiliários com altos juros para pessoas que não tinham capacidade econômica para assumir dívidas.

As chamadas “hipotecas podres” (subprimes) fizeram a festa do financismo. Agrupadas em produtos financeiros sem muita definição e pouco transparentes, os derivativos eram passados de mão em mão no mercado financeiro.

A bolha imobiliária estourou por conta de milhares de pessoas que não puderam cumprir com as obrigações de suas dívidas. Milhares de subempregados, gestores da sobrevivência vendidos como empreendedores, perderam suas casas e suas ocupações diante do conto do crédito fácil de um mercado desregulamentado.

Após a quebra do banco Lehman Brothers (o mesmo que insistia em dizer aos governos dos países da periferia o que deveriam fazer), o socorro veio daquele que era considerado o demônio da economia: o Estado.

Em nome da garantia de solvência do mercado, governos do mundo todo injetaram trilhões de dólares no mercado financeiro para salvar empresas e bancos, muitos mergulhados em grandes esquemas de ganho fácil e corrupção. O Leviatã salvou o “Deus Mercado”, como já fizera em 1929.

Enquanto isso, milhares de pessoas seguiram perdendo seus empregos e suas casas. Muitos automóveis e trailers passaram a ser locais de moradia. Eram os perdedores de um cassino onde nunca jogaram.

Mesmo assim, custearam as fichas dos que ainda hoje seguem proclamando receitas baseadas em dogmas falidos, pois sabem que, se preciso for, o mesmo Estado (que segundo eles não serve para garantir direitos sociais) lhe estenderá a mão para que não precisem vender uma de suas mansões.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Nota do Editor. A foto (sem autoria determinada) que ilustra este artigo, é uma reprodução obtida na internet.

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