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Brizola: 100 anos da Razão Indignada – por Leonardo da Rocha Botega

“A Razão Indignada” é o título de um importante livro organizado pelos professores Américo Freire e Jorge Ferreira, lançado em 2016 pela Civilização Brasileira. Tendo como subtítulo “Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004)”, a obra reúne um conjunto de dez artigos que refletem sobre a trajetória deste personagem que marcou a política brasileira e que, se estivesse vivo, completaria 100 anos no próximo dia 22 de janeiro de 2022.

Nascido na localidade de Cruzinha, em Carazinho, na época Distrito de Passo Fundo (RS), filho dos pequenos agricultores, Brizola ainda criança, rejeitou o nome Itagiba, cuja sonoridade indígena tanto encantava a mãe, Dona Oniva. Em lugar do nome que “combinava” com o dos outros irmãos mais velhos, Irani e Paraguassu, preferiu ser chamado de Leonel. Uma homenagem ao líder maragato Leonel Rocha, uma das principais figuras da Revolução de 1923.

Fui naquele 1923, em 11 de outubro, que Leonel Itagiba de Moura Brizola viveu a primeira grande tragédia de sua vida. Um grupo de capangas, comandado por um certo Pedro Ivo dos Santos, a mando de um coronel chimango de alcunha Tutucha, assassinou o seu pai, José Brizola, nas margens do rio Jacuizinho. Se não bastasse a orfandade, sua família ainda perdeu as terras e teve que se mudar para a região de São Bento, também localizada em Carazinho.

As dificuldades da infância pobre o levou a morar no sótão de um hotel, onde trabalhada lavando pratos e ajudando os transeuntes com as malas. Sua situação comoveu a família de um Pastor Metodista que o auxiliou a terminar os estudos primários como bolsista no Colégio da Igreja. Em 1936, o jovem Leonel mudou-se para Porto Alegre. Na capital do Estado, trabalhou com engraxate e ascensorista, e fez o curso técnico agrícola no Ginásio Senador Pinheiro Machado.

Após um breve período trabalhando em Passo Fundo, retornou para a capital e terminou o curso cientifico no Colégio Júlio de Castilhos, onde foi um dos fundadores do Grêmio Estudantil. Ingressou no Curso de Engenharia na UFRGS em 1945, mesmo ano em que se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro, partido que foi criado para ser o braço de Getúlio Vargas junto aos trabalhadores.

Brizola ingressou na política no momento em que o Brasil inaugurava a sua primeira grande experiência de democracia de massas. Foi deputado estadual (1947-1955), deputado federal (1955-1956) e prefeito de Porto Alegre (1956 e 1958). Mas foi como governador que construiu uma de suas principais marcas: um nacionalismo-reformista, típico de um jacobino, um Robespierre de bombacha e chimarrão.

Em plena Guerra Fria, enfrentou a arrogância do governo estadunidense e a ganancia das multinacionais. Diante dos péssimos serviços prestados pelas empresas Bond & Share e International Telephone and Telegraph não vacilou. Desapropriou e criou duas empresas que teriam papel fundamental no desenvolvimento dos setores de energia e comunicação no Rio Grande do Sul nas próximas décadas: a CEE e a CRT. Ambas desmontadas e entregues por governos que preferem o fracassado modelo de Fetiche anti-Estado à uma perspectiva de desenvolvimento nacional.

Como governador, Brizola também proporcionou um dos momentos mais marcantes na luta da cidadania brasileira: a Campanha da Legalidade em 1961. Diante da ameaça de um Golpe de Estado, não teve dúvidas em montar uma verdadeira “cidadela pelos direitos humanos, pela pátria e pela democracia”. Venceu! Uma vitória momentânea e amarga diante das negociações que criaram o verdadeiro “parlamentarismo à facão” que limitou por dois anos o governo João Goulart e que não evitou o Golpe que com toda força foi dado em 1964.

Brizola se tornou o inimigo número 1 do revanchismo civil-militar. Diante da impossibilidade de uma resistência popular e de massas, partiu para o exílio. Retornou somente com a Anistia em 1979. Com o roubo da legenda histórica do PTB arquitetado pelo General Golbery do Couto e Silva em conchavo com a insignificante Ivete Vargas, fundou o Partido Democrático Trabalhista. Lutou pela Diretas Já e foi governador do Rio de Janeiro em duas ocasiões (1983-1987 e 1991-1994).

Como governador do Rio de Janeiro, Brizola deixou uma de suas grandes marcas: o investimento em educação. Através dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPS, milhares de crianças e adolescentes tiveram seu primeiro contado com uma escola pública cidadã que garantia merenda, livros e um orgulhoso uniforme. Esse foi o último legado deixado pelo “administrador” Brizola.

Leonel Brizola, assim como o outro Leonel, seu ídolo de infância, amargou duras derrotas. Tentou ser presidente por duas vezes: 1989 e 1994. Foi candidato à vice-presidência em 1998, na chapa encabeçada por Luís Inácio Lula da Silva. Na ocasião, mesmo derrotado, deu um exemplo de dignidade: colocou os seus interesses particulares abaixo dos interesses do campo popular. Unificou a tradição da esquerda trabalhista com a tradição da nova esquerda.

Brizola faleceu em 21 de junho de 2004. Ao longo de quase seis décadas de vida pública, passando por diferentes momentos da História Republicana do Brasil, deixou profundas marcas. Deixou, sobretudo, um legado que pode ser resumido no título de seu último artigo escrito nos chamados “Tijolaços” (textos de opinião pagos que publicou nos jornais entre 1980 e 1998): Independência é desenvolvimento! Um slogan que deve ser resgatado em tempos onde canalhas fazem negociatas enrolados na bandeira do Brasil. Como faz falta a razão indignada do Seu Leonel!

*Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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Um Comentário

  1. Só dando risada. Guerrilha do Caparaó sumiu, Kuakuakuakua! Para isto tem que perguntar a quem manje de história! Kuakuakuakua! A lista de quem seria enviado ao paredão feita no Uruguai sumiu também, vide Flavio Tavares. Desenvolvimentismo no Brasil sempre deu m. Com JK, com os milicos e com o PT. Se tentarem de novo, qual será o resultado?

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