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Lavar ou não lavar? – por Marta Tocchetto

Sobre os resíduos, ‘minha mãe diria: nem tanto ao céu, nem tanto à terra’

O dilema – lavar ou não lavar – é real e faz parte do universo de todos os que se preocupam com o descarte correto de resíduos, mas não dá para trocar 6 por meia dúzia (ou menos)

Dia das mães sempre tem uma encomenda de docinho, de sobremesa, de torta ou de refeição para as comemorações em família. Tudo isso para festejar a existência daquela pessoa que é sinônimo de amor sem limites. Alguém que não mede esforços para dar o melhor de si ao seu filho e a sua filha. Não importa se foram gerados em seu ventre ou no seu coração – amor é amor!

As comemorações festivas deixam um saldo nem tão delicado e terno quanto o seu significado. Deixam também resíduos. Falar sobre eles, em meio ao clima maternal não quebra a magia e o encantamento. Revela cuidado. Mãe é sinônimo de cuidado e proteção, sendo assim se preocupar com o pós festa faz parte da atmosfera de mãe.

O que fazer com a embalagem de torta suja de glacê e com farelos? Descarto como está, afinal de contas plástico é reciclável? Lavo na torneira para descartar limpinha? Minha mãe diria: nem tanto ao céu, nem tanto à terra ou nem 8 nem 80, ou seja, nem um extremo nem outro. Os resíduos recicláveis, sejam plásticos, papéis ou papelões, vidros, metais, perdem o valor quando descartados sujos, seja pela desvalorização econômica, seja pela dificuldade e pelos custos para reciclar.

Diante dessas considerações, fica claro que é preciso limpar, porém é necessário olhar a questão também sob a ótica da água. Sabemos e devemos economizar água, independente da ocorrência de estiagem ou de falta. A água é um bem natural que precisa ser preservado e conservado para que não se esgote. A água é essencial à vida.

As fontes hídricas estão cada vez mais escassas, seja pela redução da qualidade devido à poluição ocasionada, principalmente, pelo despejo sem tratamento de efluentes urbanos, industriais e agropecuários. Seja também pela exploração indevida que acarreta assoreamento dos mananciais.

O desmatamento e o descarte irregular de resíduos também agravam e contribuem para a escassez de água no planeta. O dilema – lavar ou não lavar – é real e faz parte do universo de todos os que se preocupam com o descarte correto de resíduos, mas não dá para trocar 6 por meia dúzia (ou menos).

É preciso agir da forma mais sustentável possível. É preciso olhar de forma circular e holística a questão, de maneira a não gerar mais impactos negativos do que o próprio descarte. Como agir então? O melhor de tudo é não usar embalagens descartáveis. O melhor é levar o seu próprio prato para colocar as comidinhas.

Há empresas que inclusive, incentivam e até concedem descontos aos clientes que dispensam embalagens para o acondicionamento dos produtos. Nem sempre isso acontece. Muitas vezes, por falta de conhecimento e de informação que incentivem comportamentos mais responsáveis, seja o do cliente como o seu próprio.

No caso de haver embalagem a descartar, os restos de alimento podem ser retirados com uso de uma colher ou uma faca para raspar, ou até mesmo guardanapos de papel usados, pois estes, de qualquer forma, serão descartados.

Outra forma para limpar é passar a bucha de lavar a louça para fazer a retirada das sobras. Os restos de alimentos são resíduos orgânicos, portanto podem ser compostados, os quais devem ser acondicionados e armazenados em coletor específico para posterior destinação.

Se a retirada não foi suficiente para deixar a embalagem limpa, ela pode ser lavada com água de enxague da louça, por exemplo. Basta fechar o ralo da pia, deixar a embalagem imersa e com a bucha retirar o excedente.

Essa limpeza e lavagem objetivam tirar o grosso! Todos os resíduos recicláveis ao entrarem no processo de reciclagem serão limpos para atender os parâmetros exigidos, sendo assim, a limpeza que tem como destinação a coleta seletiva não precisa ser primorosa. A lavagem grosseira evita que baratas, ratos e outros vetores sejam atraídos pelas sobras alimentares. O procedimento evita também o mau cheiro decorrente da decomposição da matéria orgânica.

Particularmente, a limpeza e a separação correta são pontos cruciais verificados em contêineres, ecopontos ou ilhas de descarte de resíduos. Em geral, iniciativas coletivas trazem consigo o anonimato, desta forma a responsabilidade individual nem sempre é exercida com cidadania. A responsabilidade acaba se diluindo e um empurra para o outro a sua parcela, em geral para o poder público.

Basta observarmos os contêineres distribuídos pela cidade, assim como lixeiras coletivas, a empatia com a vizinhança e a responsabilidade são praticamente inexistentes. Limpar os resíduos, separar e acondicionar adequadamente para descartar, em um primeiro momento, pode parecer complicado e trabalhoso, mas não é.

Descartar de forma adequada e corretamente representa responsabilidade e cidadania. Responsabilidade com quem se ama, com o coletivo, com a natureza que feito uma mãe amorosa nos da tudo sem cobrar nada em troca. Nada mais justo então, do que retribuir, com amor e responsabilidade, os bens essenciais à vida.        

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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