
Estava olhando o seu Rui e a dona Ana e pensando que há casais assim./ Gente que vive de um jeito que ninguém decifra./ Deixam escapar sorrisos, gestos, pedaços de alegria – mas não tudo./ Não é segredo – é pacto./ É compromisso que jaz embuçado./ Um acordo antigo entre o riso e o desejo, entre o que se mostra e o que se guarda.
Têm o conforto que escolheram e a liberdade de não precisar provar nada./ Mas quem passa por perto sente: há ali um magnetismo que não se explica, uma espécie de poder silencioso que mistura presença, lealdade e um tanto de pecado.
Casamento bom não se abre pra palpite./ Basta um comentário enviesado, um zelo fingido – e o que era abrigo vira vitrine./ O amor de verdade até sobrevive, mas não pode ficar sujeito à curiosidade alheia.
E também pede sensibilidade./ Porque ninguém é santo – e os olhos, às vezes, se distraem./ Mas há uma diferença entre perceber a beleza do mundo e se abrir pra ela./ Entre notar um sorriso alheio e deixar que ele entre./ Os Embuçados sabem disso: o amor vive de confiança, mas morre de descuido.
O que há entre eles não pede plateia./ Vive nos gestos, no café, no riso cúmplice, no corpo que se reconhece mesmo em silêncio./ Tem humor, tem carne, tem aquele mistério bom que o outro sente – e o mundo tenta adivinhar.
Casais assim são raros./ Nascem do tesão, mas sobrevivem do respeito./ Sabem que o segredo do amor não é esconder – é preservar o que o tempo não deve tocar.
E, se alguém perguntar, direi apenas que conheço um casal assim -/ desses que ainda se olham por cima da xícara, rindo de alguma bobagem antiga./ Embuçado – não explica. Está. E, se alguém duvida, é porque nunca foi bem embuçado.
(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.





Arigony acha que é o Carpinejar da aldeia. Pensando bem são até parecidos.