Artigos

Educação especial, trabalho pedagógico e trabalho de saúde – por Demetrio Cherobini

O que cabe aos professores, diante de um aluno com necessidades especiais?

Uma colega professora me chamou a atenção dias atrás para um comentário nas redes sobre os dilemas da inclusão escolar. Era a postagem de um pai que matriculara o filho autista (nível 2 de suporte) “numa sala com 35 alunos, sem ar condicionado, sem professor auxiliar e sem preparação”.

Nas palavras do pai, “o resultado foi caótico”. A situação gerou no menino graves crises de descontrole – agitação, gritos, agressividade – e mal-estar generalizado entre todos. Ao fim ele pergunta se de fato a “inclusão é isso”, destacando os problemas de como essa prática é feita no Brasil atualmente.

Não é um caso isolado. Reina, hoje, infelizmente, uma confusão entre as necessidades de saúde e as necessidades de escolarização das crianças incluídas. Por causa desse mal-entendido, quer-se muitas vezes que a escola resolva, com trabalho pedagógico, tarefas que requerem antes trabalho de saúde, como as crises de descontrole emocionalque vemos no autismo. O que são essas crises?

As crises não são manifestação de birra, mas uma reação involuntária dos sistemas psíquico e nervoso dessas crianças. Elas ocorrem quando as crianças autistas passam por situações de sobrecarga emocional e sensorial, o que as faz se desregular diante dos estímulos estressores do meio.

Para essas crianças, por conta de sua condição frágil de saúde, o contexto comum da sala de aula, com seus deveres próprios do dia-a-dia e seu nível médio de estresse correspondente, pode ser potencialmente insalubre.

Por esse motivo, é razoável defender que a inclusão das pessoas com necessidades especiais, com as características acima, não deve começar com a escolarização propriamente dita, mas sim antes da escolarização,com trabalhos terapêuticos adequados, a fim de evitar que as crises ocorram na escola e a criança possa aí se inserir de fato para adquirir conhecimento – isto, sim, tarefa própria do trabalho pedagógico.

Isso evitaria muitos dos percalços que com frequência assistimos. Os trabalhos e cuidados de saúde são condição primordial e necessária para a escolarização, no sentido de possibilitar ao estudante: 1) dar conta das exigências próprias ao convívio social da escola; 2) internalizar as regras aí vigentes; e 3) assumir as responsabilidades escolares que lhe cabem. Ora, o fato de alunos entrarem em crise de descontrole na escola indica que as condições de saúde básicas para sua frequência nesse local não estão dadas.

É claro que, enquanto a criança faz o tratamento de saúde, algumas atividades educativas (princípios de alfabetização, expressão artística etc.) podem ser inseridas na sua rotina – mas como coadjuvantes, ou seja, lateralmente, como complemento e suporte.

Só num segundo momento, quando a saúde emocional e orgânica estiver fortalecida, aí então as atividades educativas curriculares mais elaboradas e lógicas (leitura e interpretação de textos, matemática, ciências etc.) devem ocupar o primeiro plano – sem dispensar, por óbvio, o acompanhamento paralelo dos trabalhos terapêuticos.

A escolarização depende, portanto, que o estudante esteja com um nível de saúde adequado para tal, o que nem sempre se verifica em algumas crianças que vemos hoje “incluídas”. Querer que os professores façam o trabalho pedagógico sem que a criança tenha já fortalecido, por meio de trabalhos terapêuticos e de saúde, o seu aparato orgânico e emocional é algo que prejudica e não contribui para a escolarização dessa criança.

Quando não são cumpridas tais condições, a escolarização pode ser fonte de grandes embaraços, como os relatados pelo pai acima. Que fique claro, então: o trabalho dos professores na escola – inclua-se aí a educação especial – não é um trabalho de saúde, e sim um trabalho pedagógico, de ensino e gestão do percurso formativo escolar, voltado à mediação entre o estudante e a apropriação dos conhecimentos necessários para a sua formação. Não se deve normalizar crises na escola, assim como não se deve exigir que professores se responsabilizem por tratamento terapêutico e de saúde dos estudantes.

(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSC e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo