O mundo explicado às crianças – por Amarildo Luiz Trevisan
“Parece apenas esquerda contra direita e vice-versa. Mas... a disputa é outra”

Certa vez, em uma aula do meu doutorado na UFRGS, a professora tentava explicar um fenômeno cultural que surgia com força naquela época: o pós-modernismo. A ideia parecia complicada, mas pode ser resumida assim: o mundo, que antes se via em preto e branco, começava a descobrir que existiam muitas cores, muitas vozes, muitas identidades. Já não bastava dizer que as pessoas eram apenas “homens ou mulheres”, “bons ou maus”, “pretos ou brancos”. Descobriu-se que somos múltiplos, que a diferença não destrói a identidade, mas a reinventa.
Esse pensamento começou na cultura, espalhou-se para a política e acabou desmontando também o velho jogo de apenas dois lados: esquerda e direita. Um filme famoso, Cinquenta Tons de Cinza, ajudou a traduzir essa ideia para o grande público: entre o preto e o branco, há uma infinidade de matizes que antes eram simplesmente ignorados.
Naquele fim dos anos 1990, a globalização prometia abolir fronteiras. Parecia que, após a queda do muro de Berlim, o mundo construiria uma nova forma de viver. Mas a aula, embora fascinante no tema, estava ficando arrastada. Uma colega interrompia a professora a cada conceito, pedindo explicações. Alguns colegas sugeriram leituras. Eu, meio impaciente, acabei soltando: “Tem o livro O pós-modernismo explicado às crianças, do Lyotard”. A classe caiu na risada. Só depois percebi que havia sido indelicado.
Por isso, ao escrever esta crônica, tomo cuidado para não cometer o mesmo erro. Quero falar às crianças, mas também à criança que cada um de nós carrega dentro de si, aquela que pergunta sem medo e que precisa entender por que o mundo anda tão conflituoso.
Hoje vivemos uma guerra de narrativas que parece apenas esquerda contra direita e vice-versa. Mas, no fundo, a disputa é outra. Os Estados Unidos, que dominaram o Ocidente por tanto tempo, perceberam que perderam a batalha da globalização para a China. Passaram então a levantar muros, expulsar imigrantes e interferir em governos estrangeiros. O Brasil, o Equador, a Bolívia e a Ucrânia sentiram de perto essa mão invisível.
Do outro lado, a Rússia descobriu que a queda do muro de Berlim não foi apenas o fim de uma era, mas também uma armadilha. Viu seu império fragmentado em pequenas repúblicas e tentou recuperá-las à força, em guerras sangrentas e anexações como a da Chechênia, depois a Crimeia e, mais recentemente, na guerra da Ucrânia.
Assim, Estados Unidos e Rússia voltaram ao velho jogo da Guerra Fria, ignorando que o mundo já não é bipolar. Com a globalização surgiram novos atores – China, Índia, Brasil, México, Canadá, União Europeia. Em vez de aceitar a diversidade, os dois gigantes preferiram reavivar a lógica da força.
E como fazem isso? Com as redes sociais. Não é por acaso que os magnatas da tecnologia – Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Jeff Bezos (Amazon), Shou Zi Chew (TikTok) Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (X) – compareceram ao evento na posse de Donald Trump. A presença deles foi um sinal claro de que a política mundial não se decide apenas em parlamentos ou palácios presidenciais, mas também nos algoritmos que controlam nossas telas. Os novos donos do poder não carregam tanques nem fardas, mas códigos, plataformas e dados que moldam a forma como pensamos, consumimos e nos relacionamos.

Essas plataformas, embora pareçam modernas, funcionam com a lógica mais antiga de todas: o pensamento binário. Elas nos obrigam a escolher um lado e a odiar o outro. Quem não está comigo está contra mim. É uma nova forma de cruzada, agora em versão digital. Se a Inquisição julgava os que não seguiam a fé cristã, hoje se julga quem não se ajoelha diante do Santo Neoliberalismo, cuja catedral é o shopping center e cujo Deus é o dinheiro.
Eu mesmo percebi isso quando notei que quatro amigos, vivendo em lugares diferentes do Brasil, me enviavam as mesmas notícias falsas pelo WhatsApp. Eles não se conheciam entre si, mas repetiam as mesmas mensagens como se fosse um coro afinado. Ali percebi que era preciso escrever esta crônica.
Queria explicar a eles – e às crianças dentro deles – que a guerra não é mais entre esquerda e direita. A verdadeira disputa é entre dois modos de ver o mundo: o bipolar, que insiste em dividir tudo em apenas dois blocos, e o multipolar, que reconhece a diversidade de forças e vozes no planeta. Apoiar a bipolaridade é, no fundo, defender o atraso, é voltar ao tempo da Guerra Fria, quando o mundo era refém de dois gigantes que se enfrentavam.
O que está em jogo hoje é mais profundo: trata-se de aceitar ou negar a política das diferenças, o espírito da pós-modernidade. Como dizia um velho professor de filosofia que tive: “Onde passa a filosofia, depois passam os canhões”. Talvez o contrário também seja verdadeiro. Se os canhões semeiam cinzas, que a filosofia devolva à infância em nós o olhar colorido.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Os donos do poder do Brasil estão em BSB e muito bem obrigado. Devem continuar um bom tempo.
Resumo da opera. Mais do mesmo. É só cruzar os braços e esperar. Vide Bolivia, depois de 20 anos de vermelhos no poder, a culpa do fracasso eleitoral foi das ‘redes sociais’? Dos ‘algoritmos’?
‘[…] os magnatas da tecnologia – Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Jeff Bezos (Amazon), Shou Zi Chew (TikTok) Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (X) […]’. Teoria da conspiração. TikTok tem o dedo do governo chines. Os outros, ao menos momentaneamente, pularam o muro, antes apoiavam os democratas. Jeff Bezos só trabalha com logistica e area espacial. Também é dono do Washington Post. Apple foi a principal empresa a transferir manufatura para a Asia, treinou boa parte da mão de obra chinesa. Elon Musk comprou o Twitter depois que ficou constatado que era infestado de vermelhos que não deixavam os conservadores a direita se manifestar. Não ‘se pecha’ muito com Sam Altman que tem problemas com sua empresa, já não consegue surpreender como há pouco tempo.
‘O que está em jogo hoje é mais profundo: trata-se de aceitar ou negar a política das diferenças, o espírito da pós-modernidade.’ Não somos um ‘coletivo’. Não é a Coréia do Sul. Cada um que procures sua turma, sua tribo. Simples assim.
‘Eu mesmo percebi isso quando notei que quatro amigos, vivendo em lugares diferentes do Brasil, me enviavam as mesmas notícias falsas pelo WhatsApp.’ Truque da experiencia pessoal ficticia.
‘Elas nos obrigam a escolher um lado e a odiar o outro.’ Sim, os hipossuficientes são todos vitimas.
‘E como fazem isso? Com as redes sociais.’ Propaganda inutil. Vermelhos não tem futuro politico muito longo porque não se adaptaram as redes sociais. Um bando de ignorantes anacronicos. Por isto tentam acabar com as redes no Brasil. Querem ‘criar caso’ para ver se elas abandonam o pais. Depois irão dizer ‘não fizemos nada’, ‘a culpa é de a, b, ou c’. Ou alguma asneira do tipo ‘precisamos “proteger” a população este amontoado de ignorantes hipossuficientes’. Caso contrario não tem púdêr e nem beiradas.
‘Com a globalização surgiram novos atores – China, Índia, Brasil, México, Canadá, União Europeia.’ Sonho de uma noite de verão. China, India e União Europeia (esta por enquanto) são atores importantes. O resto é figuração. Basta imaginar um cenario onde ianques e chinesese imponham sanções simultaneamente ao Brasil. Quebra em um mes. Se Brasil impor sanções a ianques e chineses não acontece nada.
‘Do outro lado, a Rússia descobriu que a queda do muro de Berlim não foi apenas o fim de uma era, mas também uma armadilha.’ Depois da queda a Russia vivenciou uma experiencia ‘democratica’ desastrada. Putin inclusive pediu, no inicio do seu governo, a Clinton para a Russia entrar na Otan.
‘ Passaram então a levantar muros, expulsar imigrantes e interferir em governos estrangeiros.’ Obama deportou mais de 3 milhões de imigrantes ilegais. Ianques interferem em governos estrangeiros desde sempre.
‘Os Estados Unidos, que dominaram o Ocidente por tanto tempo, perceberam que perderam a batalha da globalização para a China.’ Ianques entraram em decadencia, é verdade. Parte do problema é segurar os projetos nos Estados Unidos e transferir a manufatura para a China. Que não é este monolito indestrutivel que os vermelhos vendem. Globalização revelou seus problemas na pandemia, certos produtos não podem depender da situação no pais asiatico. Entrou em lockdown e faltou muita coisa em muito lugar.
‘Hoje vivemos uma guerra de narrativas que parece apenas esquerda contra direita e vice-versa.’ Na Ianquelandia desde muito tempo existem os democratas, os republicanos e os eleitores independentes. Os estados pendulo. Não confundir o barulho com a realidade.
Lyotard. Academia trata seus autores escolhidos a dedo como se fossem o Oraculo de Delfos.
‘Um filme famoso, Cinquenta Tons de Cinza,[…]’. Soft porn para mulheres. O titulo é um trocadilho o nome do protagonista é Christian Grey, o nome do filme diz respeito as ambiguidades do sujeito. Pela sinopse entrou na lista de filmes que não verei nunca.
‘Já não bastava dizer que as pessoas eram apenas “homens ou mulheres”, “bons ou maus”, “pretos ou brancos”. Descobriu-se que somos múltiplos, que a diferença não destrói a identidade, mas a reinventa.’ Para alguns. E dentre estes uma parcela tentou enfiar goela abaixo das diversas sociedades sua ideologia. Tolerancia repressiva de Marcuse. Vermelhos e grandes empresas ianques. O que gerou uma reação e deu no que deu.
‘[…] fenômeno cultural que surgia com força naquela época: o pós-modernismo […]’. Antes. Diferenças entre pós-modernismo e pós-modernidade. Pós-modernismo, intelectual e cultural, com enfase na subjetividade e relativismo, dentre outras coisas. Pós-modernidade como periodo historico que sucede a modernidade. Fim das grandes narrativas, desconfiança da razão, pluralismo, etc.
‘Certa vez, em uma aula do meu doutorado na UFRGS, […]’. Carteiraço. Apelo a propria autoridade. Não deixa de ser engraçado! Kuakuakuakuakuakuakua!
Quando você divide as concepções políticas em “dois modos de ver o mundo: o bipolar […] e o multipolar”, você está sendo binário – ou “bipolar” – também. E então, vamos conciliar com todo mundo?