A química – por Orlando Fonseca

Declarações do presidente americano sempre causam espécie. Mas semana passada, Trump se superou, ao menos para repórteres, galera das redes sociais, políticos e não políticos brasileiros. Ele interrompeu seu discurso em plena assembleia da ONU para fazer uma inconfidência. Havia se encontrado com o presidente Lula, pouco antes de adentrar o plenário: “Nós nos vimos, eu o vi. Ele me viu e nos abraçamos (…) Na verdade, combinamos de nos encontrar na semana que vem”. E então emendou, como se estivesse falando de parceiros de golfe, ou uma rodada em Las Vegas: “Ele parece um cara muito legal, ele gosta de mim e eu gostei dele. E eu só faço negócio com gente de quem eu gosto. Quando não gosto deles, eu não faço. Quando eu não gosto, eu não gosto. Por 39 segundos, nós tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal.”
Por 39 segundos, abriu-se uma um brecha nas complicadas relações comerciais entre Brasil e EUA, estremecidas desde que o filho do ex-presidente em prisão domiciliar e um neto de ex-ditador brasileiro começaram a fazer intrigas, com informações falsas junto aos assessores de Trump (simpatizantes da extrema-direita americana). Já o Itamaraty vê todo o mise-en-scène com cautela, pois não consta nos protocolos da diplomacia uma expressão como “rolou uma química”. Mas eu, se fosse o presidente Lula, não iria achar inconveniente a inconfidência trumpiana, muito pelo contrário: diante do impasse gerado com o tarifaço, alguma saída pode se desenhar.
Trump não tinha necessidade de interromper o seu discurso e dizer o que disse. Embora ele creia que pode tudo, nada o impelia a tomar a atitude que tomou, a não ser a possível verdade de sua manifestação. Ainda que o seu discurso ao plenário da ONU fosse de manutenção das medidas radicais contra o Brasil e de duras críticas, ele fez um parêntese no mínimo instigante. E o fez deliberadamente. Se disso resultará algo positivo, ninguém pode afirmar, pois é reconhecida a inconstância do presidente americano e da beligerância da sua entourage. Pode, inclusive, dar em nada, porém seria um desperdício de oportunidade não apostar em uma quebra de gelo nas relações. Chamou atenção o fato de Trump não ter mencionado Bolsonaro, usado meses antes como pretexto para as maiores tarifas contra o Brasil. Isso foi anotado por diplomatas que enxergam, no gesto, um “ponto de inflexão” em relação ao tom adotado por Trump nos últimos meses.
Cautela diplomática à parte, não se pode deixar de lado o reconhecido carisma de Lula e o respeito que goza no cenário internacional. Houve também o que jornalistas da cobertura na Casa Branca consideram como uma ponte: empresários da Embraer (da qual o governo brasileiro é acionista) e da JBS, controlada pelos irmãos Wesley e Joesley Batista, tiveram contato com membros da administração Trump. Nesse grupo estão os que defendem uma relação bilateral voltada ao comércio, em vez de pressões políticas. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, também manifestou preocupação com os impactos que sanções contra bancos brasileiros poderiam causar ao sistema financeiro. Na semana de 11 de setembro, uma comitiva de peso esteve em Washington para tratar das tarifas. Eles se contrapõem à linha dura de integrantes do Departamento de Estado que defende condicionar a relação bilateral ao julgamento de Jair Bolsonaro. O principal deles foi que sobretaxas sobre produtos brasileiros, como café e carne, encareceriam a vida dos consumidores americanos. Também ressaltaram que medidas punitivas poderiam, paradoxalmente, fortalecer politicamente Lula (aliás, o que está acontecendo).
Algo se desenha em perspectiva, e mesmo diante do comportamento errático de Trump, é uma oportunidade para não ser desperdiçada. O governo Lula avalia que ‘tudo está sobre a mesa’, exceto pressões sobre o Judiciário para favorecer Bolsonaro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacou que os dois presidentes deverão retomar debates sobre integração econômica e investimentos mútuos. Tem-se falado que podem entrar nas negociações os minerais críticos e a regulação de Big Techs. Ainda que comentaristas simpáticos ao ex-presidente em prisão domiciliar critiquem os simpatizantes de Lula, pelas comemorações do fato, só quem aposta no caos é que pode querer ver na fala do presidente americano uma armadilha, uma pegadinha. Em relações internacionais, como se sabe, a química é muito mais complexa: se não explodir com tudo, a reação até pode produzir algo considerável.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera. Mais uma coluna bola de porco. Assunto da outra semana. Tosa de porco, muito grito pouca lã.
‘Em relações internacionais, como se sabe, a química é muito mais complexa: se não explodir com tudo, a reação até pode produzir algo considerável.’ O que o professor de portugues quis dizer com isto? Pode produzir algo considerado veneno. Ou corrosivo. Ou radioativo. Esta é daquela, metaforas em areas nas quais não se tem conhecimento.
‘[…] só quem aposta no caos é que pode querer ver na fala do presidente americano uma armadilha, uma pegadinha.’ No mundo do discurso tudo é possivel. Muda nada no mundo real ao contrario do que os mesozoicos acreditam.
‘Ainda que comentaristas simpáticos ao ex-presidente em prisão domiciliar critiquem os simpatizantes de Lula,[…]’. Se merecem. Problema é que estão pautando o noticiario, uma grande cortina de fumaça que muda a vida de ninguém.
‘Tem-se falado que podem entrar nas negociações os minerais críticos e a regulação de Big Techs.’ Problema não é regular Big Techs, sempre a falacia do espantalho, Europa já faz isto. Problema é quem regula e com qual finalidade. Vermelhos e classe politica não são confiaveis. Minerais criticos? Agente Laranja começou a tomar medidas para facilitar a mineração do solo oceanico. China reclamour que ‘viola a lei internacional’. Kuakuakuakuakuakua!
Para não deixar as flores de lado. Divida publica francesa superou 115% do PIB. Cortes no orçamento. Instabilidade politica. No UK o PM tem os menores niveis de popularidade da historia e fez reforma ministerial. Quem falar mal do governo é extrema-direita e quem desobedecer o politcamente correto vai para a cadeia. Sistema de saude pela boa. Alas, em Paris uma mulher andar sozinha na rua esta ficando perigoso. Não é possivel falar mal da imigração ilegal, é xenofobia.
‘[…] medidas punitivas poderiam, paradoxalmente, fortalecer politicamente Lula (aliás, o que está acontecendo).’ Conforme a imprensa divulgou não na intensidade que esperavam. Alas, Canada e Mexico foram pura ‘narrativa’. Olhando na perspectiva ianque governos de esquerda só fazem a situação piorar, não têm gestão, logo elegerem-se não tem problema. Mexico continua com boa parte do territorio controlado pelos carteis. Canada andou copiando a Europa e alienou o oeste do pais. Energias renovaveis bateu em quem trabalhava na industria do carvão e do petroleo. Controle de emissões bateu no agronegocio.
‘[…] encareceriam a vida dos consumidores americanos.’ Momentaneo, até as cadeias de suprimento se ajustarem. Problema é que daqui 3 anos quando o Agente Laranja sair (e possivelmente as tarifas) os produtores tupiniquins vão ter trabalho e custo para recuperar mercado. Possivelmente baixando o preço.
Inflação ianque é 3% ao ano. Taxa de juros, a Selic deles, esta na faixa 4 a 4,25% ao ano. Caiu 0,25%.
‘ O secretário do Tesouro, Scott Bessent, também manifestou preocupação com os impactos que sanções contra bancos brasileiros poderiam causar ao sistema financeiro.’ Outro assunto separado, lei Magiclick e Xandão.
‘[…] e da JBS, controlada pelos irmãos Wesley e Joesley Batista, tiveram contato com membros da administração Trump.’ O que pode ser verdade ou não. Empresa era um dos ‘campeões nacionais’ de Dilma, a humilde e capaz. Tem muita gente por lá querendo o figado deles por motivo bem simples: ganharam toneladas de dinheiro subsidiado do BNDES. Os concorrentes ianques deles votam lá. Apoiam quem?
‘[…] empresários da Embraer (da qual o governo brasileiro é acionista) […]’. Embraer prometeu um investimento de 500 milhões de dolares e iniciar produção do KC-390 na Ianquelandia.
‘[…] não se pode deixar de lado o reconhecido carisma de Lula e o respeito que goza no cenário internacional.’ Kuakuakuakuakuakua! Estava se c@g@ndo de medo de ligar para o Agente Laranja e ser ‘humilhado’ que nem o Zelensky. Brasil é um anão diplomatico, sempre foi. Soft power é discurso interno para os tabacudos. Como as ‘inovações’ da aldeia.
India também teve suas tarifas aumentadas. Para 50%. Além das alegações usuais a importação de petroleo da Russia também foi motivo. Logo em seguida Agente Laranja alertou Hungria, Eslováquia, França, Espanha e Paises Baixos para deixarem de importar petroleo e gas dos russos. Ainda o fazem. Como não existe vácuo, quem seria o fornecedor? Ianques óbvio.
Corre no Congresso Ianque o ‘The Sanctioning Russia Act of 2025’. Esforço bipartidario. Aplica 500% de tarifas aos paises que negociam com os Russos. Brasil compra diesel e adubo.
‘Trump não tinha necessidade de interromper o seu discurso e dizer o que disse.’ Foi sabotado pelo menos tres vezes. Escada rolante parou bem na hora que o Agente Laranja iria utilizar. O telepromter do discurso parou duas vezes. Vai saber.
Esta é daquelas. Pergunta é: por lá a repercussão foi a mesma que aconteceu aqui? Alas, a imprensa vive mentindo, é só comparar com o que por lá é publicado. Antigamente não tinha como saber. Agora é instantâneo. Alas, ‘noticias’ aqui já vem com ‘interpretação’, comentada por ‘especialistas’, temperada com ‘achismos’ e juizo de valor pessoal.