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A lógica do Estado muquirana- por Giorgio Forgiarini

“Assim, fica óbvio que a questão fiscal não é um problema. É um mero pretexto”

Lula se encaminha para o fim do terceiro ano de seu terceiro mandato e é recorrentemente alvo de críticas do mercado financeiro. A bolsa de valores está quebrando recordes sucessivos, o Real foi a terceira moeda que mais se valorizou em relação ao Dólar no mundo, a inflação não dá nenhum sinal de descontrole, o PIB vem alcançando avanços tímidos, porém muito superiores aos projetados pelo próprio mercado e o desemprego recentemente alcançou mínimas históricas. Qual o motivo das críticas, então? A questão fiscal. Sempre ela. A eterna busca pelo superávit.

Uma cantilena ilógica, que normalmente vem acompanhada de uma comparação igualmente ilógica: “Como numa casa de família, os comprometimentos de um país não podem ser maiores do que sua renda”. Essa comparação normalmente vem acompanhada de jargões igualmente tolos, levianamente jogados ao léu, como “não existe almoço grátis” e “dinheiro público é dinheiro do cidadão”. Quanto à comparação, ela é pueril por duas razões:

Primeira, porque um país não é uma família. Quando se trata de um país com as dimensões do Brasil, a diminuição ou mesmo a interrupção de investimentos em saúde, educação, fiscalização ou infraestrutura podem resultar logo na sequência em prejuízos muito maiores do que a economia supostamente obtida. A cessação do custeio de políticas de vacinação, a interrupção da manutenção da infraestrutura de transportes ou mesmo a precarização de órgãos de fiscalização podem comprometer ganhos futuros e multiplicar em muito os gastos nos períodos subsequentes, comprometendo a viabilidade econômica futura.

Costumeiramente a frouxidão da fiscalização sanitária resulta em entraves à exportação de proteína animal. A degradação das malhas de transportes leva a aumento dos custos de produção e comércio e a precarização de políticas de saúde preventiva conduzem a aumentos significativos em gastos terapêuticos posteriores. São estes apenas alguns exemplos. Neste contexto, ser muquirana hoje é ser perdulário no futuro.

Segunda, porque déficit não é necessariamente prejuízo. Mesmo num ambiente micro, como o familiar, é muitas vezes comum e até recomendável contrair compromissos superiores à própria renda da família, com o objetivo de auferir um ganho muito maior a longo prazo. É para isso que existem os financiamentos. Uma dívida muito superior à renda ou receita é assumida com o objetivo de auferir um benefício muito superior a médio ou longo prazo. É assim que empresas se alavancam. Endividado não é sinônimo de falido.

Dito isto, vamos ao ponto. Os Estados Unidos da América, meca do liberalismo econômico, só apresentaram 5 anos de superávit fiscal entre 1969 e 2022, e nem por isso foram à bancarrota. Aliás, pelo contrário. É um país cuja economia se alimenta de déficit, cresce com investimento público. Com a China, a regra é a mesma. Acumula déficits consecutivos desde pelo menos 1996, sem que sua economia dê sinais de exaustão (embora alguns proclamem a proximidade da bancarrota chinesa desde os anos 1990). Não vou nem falar do Japão, que tem dívida duas vezes superior à do Brasil em proporção.

Assim, fica óbvio que a questão fiscal não é um problema. É um mero pretexto. O tal “mercado” pouco se lixou quando Jair (o ex) deu calote nos precatórios e no dinheiro do ICMS dos Estados, muito menos quando estourou o antigo teto de gastos em R$ 800 bilhões em quatro anos (sendo R$ 54 bi só em 2019, antes da pandemia).

Então, se a questão fiscal não é exatamente um problema, por que o “mercado financeiro” tem tanto interesse no tal de superavit? Ora, porque austeridade significa diminuição da ação do Estado. Significa ensejar que entes privados tomem para si tarefas que o Poder Público não venha a ser mais capaz de desempenhar. E pior. Possibilita que atores privados ajam sem medo de regulações, fiscalizações, etc. Lucram escolas privadas, planos de saúde particulares e empresas que falsificam bebidas alcoólicas com metanol, por exemplo.

Mas, salientemos: criticar essa ideia de austeridade a qualquer custa não significa ser irresponsável. O gasto público pode (e deve) ser consciente, principalmente na destinação desses recursos. Aliás, uma curiosidadezinha bacana: na história recente do Brasil, só um Presidente cumpriu oito anos de governo sem um sequer de déficit fiscal. E é justamente aquele que ainda hoje tira o sono do tal “mercado”. E durmamos nós com um barulho desses!

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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28 Comentários

  1. Resumo da opera III. Mercado financeiro sabe como se proteger. Da mesma maneira que os ‘ricos’ que irão pagar a conta da isenção do Imposto de Renda. Aquela conta não vai fechar.

  2. Resumo da opera. Papo eleitoreiro. Ainda não descambou muito para o anedótico. Deputado Chico Alencar do PSOL arrumou uma audiencia publica para debater Objetos Voadores Não Identificados. Congresso aprovou urgencia para tornar adulteração de bebidas crime hediondo.

  3. ‘E durmamos nós com um barulho desses!’ É bom conseguir dormir, porque depois vai ter que acordar. Com o resultado do estelionato eleitoral que se aproxima. Pior do que o de Dilma, a humilde e capaz.

  4. ‘Aliás, uma curiosidadezinha bacana: na história recente do Brasil, só um Presidente cumpriu oito anos de governo sem um sequer de déficit fiscal.’ Curiosamente é o unico presidente que viveu o boom das commodities e o ‘milagre’ chines. Foi sorte, não capacidade. Mais uma oportunidade perdida, só é possivel sonhar com o que aconteceria se tivessemos um governo mais capaz na epoca.

  5. ‘ O gasto público pode (e deve) ser consciente, principalmente na destinação desses recursos. ‘ Não é faz tempo.

  6. ‘Significa ensejar que entes privados tomem para si tarefas que o Poder Público não venha a ser mais capaz de desempenhar.’ Quem sancionou a lei das parcerias publico-privadas foi o Rato Rouco. Alguém acha que foi um ‘reconhecimento de competencia do Estadp’?

  7. ‘Ora, porque austeridade significa diminuição da ação do Estado.’ Que no Brasil é altamente ineficiente e incompetente. Dinheiro vai para o ralo. A divida fica e os juros também.

  8. ‘[…] muito menos quando estourou o antigo teto de gastos em R$ 800 bilhões em quatro anos (sendo R$ 54 bi só em 2019, antes da pandemia).’ Pois então, pandemia. Alas, 54 é 7% de 800. No mais se eu tivesse duas rodas e um guidão seria uma bicicleta. Alas, não tem pandemia e estão gastando os tubos.

  9. ‘[…] quando Jair (o ex) deu calote nos precatórios e no dinheiro do ICMS dos Estados, […]’. Precatorios é problema de quem tem para receber. ICMS dos estados é problema dos governadores. Simples assim.

  10. ‘Assim, fica óbvio que a questão fiscal não é um problema. É um mero pretexto.’ Unica coisa obvia é que desconhece o assunto sobre o qual está falando. Que nem o imbecil da fala mansa (conforme versões que circulam): conspiração do Reagan com a Thatcher.

  11. PIB da França. Obviamente o que não interessa fica de fora porque objetivo é ‘convencer’ e não informar. Algo como 3.1 trilhão de dolares. Divida publica algo como 3.4 trilhão de dolares. Mesmo amarrada na CE já está causando instabilidade politica. Dinheiro está saindo, necessidade de cortes no orçamento, etc.

  12. ‘Os Estados Unidos da América, meca do liberalismo econômico, só apresentaram 5 anos de superávit fiscal entre 1969 e 2022, e nem por isso foram à bancarrota.’ Estados Unidos devem algo como 37 trilhões de dolares. PIB de 29 trilhões. Orçamento publico 6,6 trilhões. 2,6 bilhões por dia de juros da divida. Muita gente já cantou a pedra por lá. Se o dolar não fosse a moeda mundial já tinham quebrado.

  13. ‘Neste contexto, ser muquirana hoje é ser perdulário no futuro.’ Nesta conversinha mole o gasto ruim hoje é o não recebimento do beneficio ‘vendido’ e uma parte do orçamento gasta em juros no futuro. Qualquer imbecil sabe que pouca coisa retorna dos tributos pagos. O resto é historia da Carochinha.

  14. Como tem causidicos imbecis comparando Brasil e China é bom ir além da politica. Taxa de poupança do Brasil, recursos que não vão para o consumo, em 2024 foi algo como 14,5% do PIB. A taxa da China gira em torno de 44%.

  15. China viu estourar a bolha imobiliaria. Cidades fantasmas. Agora falam no estouro das produtoras de carros eletricos. Excesso de capacidade de produção. Guerra de preços.

  16. No discurso genérico tudo é ‘bonito’. China financiou uma ferrovia no Kenia. Mombasa-Nairobi Standard Gauge Railway. Ia ser expandida até Uganda. Algo como 3.8 bilhões de dolares. Tudo muito bonito. Gerou empregos enquanto construiram e tudo o mais. Veio inauguração. A utilização dos trens não saiu como a planejada. Existem rodovias que fazem o mesmo trajeto. Diminuiram os fretes, gerou protesto de caminhoneiros e instabilidade politica. Como não utilizam não tem fluxo de caixa. E a divida tem que ser paga. Expansão foi para a gaveta. Dois Estados e uma grande c@g@d@.

  17. ‘[…] mesmo a interrupção de investimentos em saúde, educação, fiscalização ou infraestrutura […]’. ‘[…] A cessação do custeio de políticas de vacinação, a interrupção da manutenção da infraestrutura de transportes ou mesmo a precarização de órgãos de fiscalização podem comprometer ganhos futuros […]’. Se alguém perguntar a um causidico que manje de direito financeiro vai ficar sabendo que investimento é o que vai para patrimonio e gasto é funcionamento. Gasto é para ser o que se é, manutenção. Investimento é para se tornar outra coisa.

  18. ‘Uma cantilena ilógica,[…]’. ‘Essa comparação normalmente vem acompanhada de jargões igualmente tolos,[…]’. ‘[…] ela é pueril por duas razões: […]’. Obviamente, como diz o cronista esportivo, não dá para dizer para uma ovelha voar e esperar que ela voe. Desqualificação não é argumento. Simples assim.

  19. ‘ A questão fiscal. Sempre ela. A eterna busca pelo superávit.’ Vermelhos não acreditam em pagar contas. Por isto a Argentina está como está. Pagar contas é ‘coisa de capitalista’.

  20. ‘[…] e o desemprego recentemente alcançou mínimas históricas.[…]’. Falacia. Noutras epocas não havia uberização e nem pejotização.

  21. ‘[…] o PIB vem alcançando avanços tímidos, porém muito superiores aos projetados pelo próprio mercado […]’. No futuro vamos saber se o cumpanhero Pochmann não colocou o dedo na balança.

  22. ‘[…] a inflação não dá nenhum sinal de descontrole […]’. Descontrolada está a divida publica. Juros na casa do chapéu. Haverá pressão para baixar os juros para melhorar crescimento no ano eleitoral.

  23. ‘[…] o Real foi a terceira moeda que mais se valorizou em relação ao Dólar no mundo,’. Juros ianques baixaram. Para quem o Real perdeu? Rublo russo e Coroa Sueca.

  24. ‘A bolsa de valores está quebrando recordes sucessivos, […]’. Não é verdade. Está no ponto mais alto no nivel de pontos é verdade. Mas existe inflação. E o crescimento está inflado pela gastança do governo. E voo de galinha.

  25. ‘[…] é recorrentemente alvo de críticas do mercado financeiro.’ Porque sabem que uma hora a conta chega. Repete-se por outros meios o que aconteceu na tentativa de reeleição de Dilma, a humilde e capaz. Arma-se um estelionato eleitoral.

  26. ‘A lógica do Estado muquirana’. O Estado não produz nada. Simplesmente arrecada. É assim aqui e é assim na China. Onde até alguns vermelhos reconhecem que juntou-se o pior do comunismo com o pior do capitalismo.

  27. Debate economia com causidicos é o mesmo que debater metodos de churrasco com veganos. Quando o discurso é orquestrado então nem se fala.

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