Educação Especial: Galeano, Brecht e a crítica do sistema de desvínculos – por Demetrio Cherobini
“Aqui, nada é de graça, todos devem competir, o semelhante é um adversário”

Em O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano faz uma metáfora assombrosa sobre o mundo atual: “Um sistema de desvínculo: Boi sozinho se lambe melhor… O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços”.
O “sistema de desvínculo” é a sociedade contemporânea, que isola as pessoas em suas vidas particulares e as põe em conflito umas com as outras. Aqui, nada é de graça, todos devem competir, o semelhante é um adversário: que cada um se vire por si para enfrentar a escassez criada de recursos e afetos. O “boi sozinho”, personagem comum, são os que vivem somente para trabalhar e pagar contas: entediados, submissos aos papéis ordinários, resignados, apáticos, indiferentes e olhando só para o próprio umbigo.
E o que é mais desconcertante: somos levados a crer que essa realidade é “natural”. “Sempre foi assim”, nos ensinam – o que é rigorosamente mentira. Mas a mentira dá muitos frutos: um deles, o conformismo que nos paralisa. A escola, via de regra, se adapta, formando hábitos e habilidades necessárias ao mundo “ruminante”, onde cada ser vai viver à parte, vendo nos demais “um obstáculo a ser vencido” ou “uma coisa a ser usada”.
Friso: via de regra. As práticas escolares mais importantes têm esse caráter individualista e competitivo: a criança se esforça sozinha para receber sua nota individual maior que as outras– esse número com que é “paga” ao fim da “jornada” é o equivalente simbólico primitivo do salário, que ganhará depois, ao adentrar o mercado de trabalho.
A escola é, pois, entre outras coisas, a preparação para o trabalho: isso consta na Lei de Educação. O estudante rápido, prático e produtivo, bom cumpridor de metas e prazos, é reconhecido pelos pares. Será um ótimo “colaborador”! Salvo exceções, as amizades que constrói se desfazem após a escolarização. Mas e daí? A ética do “cada um por si” se ocupa de romper os laços. Pensemos: com quantos de nossos amigos de escola ainda temos relações – não virtuais, mas reais – hoje? Eles estão pelo mundo afora, também trabalhando, “cada qual no seu quadrado”.
Há um modo de vida global que se encarrega de isolar a todos. As situações são armadas para fomentar a competição geral entre indivíduos e tolher seu precioso tempo e energia vital. Cada sujeito busca apenas satisfazer as próprias necessidades. A impessoalidade do sistema exige obediência e não pensar em ninguém, a não ser em si mesmo. Ser solidário é visto como “fraqueza”. Como a escola, que prepara para viver nessa sociedade, vai negar essas bases? Ela é parte orgânica do todo, não sua antítese.
Os desvínculos assumem hoje a forma de patologias sombrias que se multiplicam: experiências fugazes, contatos passageiros, relações superficiais, insegurança afetiva, produzem angústia, apatia, vícios, solidão, ansiedade, insônia, pânico, depressão. Os laços genuínos ocorrem apesar dessa dinâmica – como exceção -, e não por causa dela.
Uma criança que, devido à sua constituição neuropsicológica, tem dificuldade em criar relações sofre mais do que as outras em espaços organizados para o desvínculo. Uma escola que forma para o ensimesmamento torna-se, por tal motivo, insalubre e geradora de crises para quem já possui naturalmente a fragilidade para conexões humanas.
Mas há, felizmente, formas de resistir ao adoecimento coletivo: abraçar o outro e transformar o que for possível, tendo em mente a máxima do poeta Bertolt Brecht:
“Não aceite o que é de hábito como natural,
pois em tempos de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural,
nada deve parecer impossível de mudar.”
(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSC e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.





Segundo truque. Um livro unico do finado Galeano como se fosse o puro resultado da destilação da verdade. Um livro de 89. Quase nada mudou de la para cá? Anacronismo vermelho.
Tem razão. De lá pra cá piorou muito, a sociedade está mais individualista e ninguém dá a mínima pelo sofrimento do outro. Piorou, de fato.
‘[…] somos levados a crer que essa realidade é “natural”. “Sempre foi assim”, nos ensinam – o que é rigorosamente mentira.’ Tipico truquezinho vermelho. Não demonstra de onde tirou a afirmação. Por que é mentira? Onde não foi mentira?
Qualquer livro de história ou antropologia te mostra como é diferente. Matricule-se na cadeira de Antropologia I do curso de Ciências Sociais da UFSM e comprove.