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Lula aposta na Ásia e tenta virar página em encontro com Trump – por José Renato Ferraz da Silveira

Viagem à Malásia não é isolada - faz parte de estratégia mais ampla do Planalto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarcou na Malásia na sexta-feira (24), às 4h30 (horário de Brasília), para participar da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) – um dos fóruns mais influentes da geopolítica contemporânea. A recepção foi conduzida pelo primeiro-ministro Anwar Ibrahim, líder do Partido da Justiça Popular, de centro-esquerda.

A visita, a primeira de Lula ao país e apenas a segunda de um presidente brasileiro em três décadas, é vista por analistas como um movimento de reposicionamento estratégico do Brasil no tabuleiro global. Com o centro dinâmico da economia mundial migrando gradualmente para o Indo-Pacífico, a presença brasileira na Ásia se tornou não apenas simbólica, mas necessária.

O gesto reflete a visão de Lula de que o Brasil precisa atuar com autonomia e pluralidade, estabelecendo laços com diferentes blocos econômicos e consolidando sua posição como liderança do Sul Global — grupo de países emergentes que reivindicam um papel mais ativo nas decisões internacionais.

Reaproximação com Trump: pragmatismo em tempos de tensões políticas

Entre os bastidores diplomáticos da viagem, a possibilidade de um encontro entre Lula e Donald Trump atraía atenção e expectativa. O republicano, que retornou à Casa Branca em 2025, mantém uma postura dura em relação a aliados comerciais e, nas últimas semanas, impôs sobretaxas a produtos brasileiros e sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

A reunião ocorreu domingo (26) e foi o primeiro encontro formal entre os dois líderes, que já haviam se cruzado brevemente durante a Assembleia-Geral da ONU, em setembro, em Nova York.

Lula afirmou, em entrevista na Indonésia antes de embarcar para Kuala Lumpur, que pretendia “corrigir equívocos nas taxações impostas ao Brasil” e discutir “as punições sem fundamento aplicadas a ministros da Suprema Corte”.

Segundo fontes do Itamaraty, o clima entre as chancelarias é de distensão. No início de outubro, Lula e Trump mantiveram uma conversa telefônica de 30 minutos, descrita como “amistosa” pelo Planalto. Poucos dias depois, o chanceler Mauro Vieira se reuniu por uma hora com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em Washington, abrindo caminho para o diálogo.

A expectativa é que o encontro possa marcar um ponto de inflexão nas relações Brasil–EUA, historicamente marcadas por ciclos de aproximação e distanciamento. “Lula enxerga em Trump uma figura com a qual é possível negociar pragmaticamente, sem ideologizar o conflito”, analisa um diplomata ouvido por LexLegal. O encontro Lula/Trump, porém, virá em outros artigos.

Asean: um eixo da nova economia mundial

A presença de Lula na Cúpula da Asean vai além da diplomacia protocolar. O bloco, que reúne dez países do Sudeste Asiático, representa hoje uma das regiões de maior crescimento global, com destaque para Vietnã, Indonésia, Tailândia e Malásia – economias que têm atraído investimentos industriais e tecnológicos diante da reconfiguração das cadeias globais pós-pandemia.

Em 2024, o comércio entre o Brasil e os países da Asean movimentou US$ 36,9 bilhões, segundo o ComexStat, com um superávit de US$ 15,5 bilhões a favor do Brasil. O bloco já é o 5º maior parceiro comercial brasileiro e o 4º destino das exportações nacionais, especialmente de combustíveis, rações e minérios.

Para o embaixador Everton Lucero, diretor do Departamento da Índia, Sul e Sudeste Asiático do Itamaraty, a aproximação com a Asean tem um caráter estratégico:

“A Asean é responsável por mais de 20% do superávit comercial do Brasil. É um parceiro que complementa nossa pauta exportadora e amplia o horizonte da inserção internacional brasileira”, afirmou.

O governo brasileiro vê na Ásia um contrapeso natural à dependência histórica dos mercados americano e europeu, além de um espaço fértil para cooperação em energia limpa, inovação tecnológica e agricultura sustentável – setores em que o Brasil tem reconhecida vantagem competitiva.

Autonomia estratégica e o novo papel do Sul Global

O discurso de Lula em Jacarta e Kuala Lumpur tem se apoiado em uma linha coerente com a “diplomacia de múltiplos polos”, defendida desde o início de seu terceiro mandato. O presidente enfatiza que o Brasil não quer se alinhar automaticamente a nenhuma potência, mas sim atuar como mediador e protagonista em temas globais, como clima, segurança alimentar e transição energética.

Essa política de autonomia estratégica reflete também o contexto de um mundo fragmentado: a guerra na Ucrânia, as tensões no Oriente Médio e o avanço da rivalidade EUA-China reforçam a importância de países intermediários capazes de dialogar com diferentes blocos.

O Itamaraty vê nessa postura uma oportunidade para reposicionar o Brasil como ponte entre Ocidente e Oriente, consolidando a imagem de um país que defende a diplomacia e o desenvolvimento sustentável, sem abrir mão da realpolitik comercial.

Um presidente em alta e um país em busca de voz

O momento político interno favorece a ofensiva diplomática. Segundo pesquisa divulgada esta semana, Lula mantém aprovação de 51,2%, um dos maiores índices do terceiro mandato, impulsionado por bons indicadores de emprego e pelo aumento da confiança no governo.

Analistas avaliam que a viagem à Ásia ocorre em um contexto favorável, com Lula politicamente fortalecido e disposto a projetar o Brasil novamente como um player global. Caso o encontro com Trump se confirme, o presidente poderá apresentar o gesto como prova de pragmatismo e maturidade diplomática — algo que ecoa positivamente junto à comunidade internacional e ao empresariado brasileiro.

“O Brasil quer dialogar de igual para igual com todas as potências”, afirmou Lula em sua chegada à Malásia. “O mundo precisa entender que nossa força não está em escolher lados, mas em construir pontes.”

Análise: a política externa como ativo político

A viagem à Malásia não é isolada – faz parte de uma estratégia mais ampla do Planalto de reconstruir a imagem do Brasil no cenário global. Desde 2023, Lula tem apostado em reaproximações simultâneas com Washington, Pequim e Bruxelas, enquanto fortalece o eixo Sul–Sul por meio dos BRICS, Mercosul e Asean.

A postura pragmática do governo reflete uma leitura de que o poder global está se descentralizando, e que a relevância brasileira depende de sua capacidade de se inserir em múltiplos fóruns com credibilidade política e estabilidade econômica.

Ao unir a pauta comercial com a defesa de valores democráticos e de soberania, Lula tenta transformar a política externa em um ativo de consenso interno – uma das poucas frentes em que o presidente encontra pouco antagonismo político.

Se conseguir reabrir o diálogo com Trump e ampliar o comércio com a Ásia, Lula não apenas reduzirá a vulnerabilidade econômica do país, mas também reposicionará o Brasil como uma potência intermediária com voz própria em tempos de incerteza global.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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