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A necropolítica venceu – por Amarildo Luiz Trevisan

“Justiça não se faz com fuzil,... se faz com lei, investigação, prova e julgamento”

A necropolítica venceu no Brasil? A pergunta não é retórica, é incômodo. A necropolítica, conceito do filósofo Achille Mbembe, é a forma de poder que decide quem pode viver e quem deve morrer, regulando populações por meio da exposição à morte, do abandono e da violência. Governa produzindo zonas de morte e distribuindo de modo desigual a precariedade, a proteção e a possibilidade de futuro.

A chacina no Rio de Janeiro, celebrada por parcelas da população segundo pesquisas, sugere que sim. A velha receita reapareceu, solução simples para problemas complexos, e o resultado foi um banho de sangue. As vidas perdidas não se contam apenas em números, mancham ruas, lares e a imagem do país para o mundo todo.

Repetimos o refrão de que “eram só bandidos”, como se a palavra anulasse a condição humana. Antes de qualquer rótulo, eram pessoas. O Estado, se é Estado de Direito, deve responder com legalidade, devido processo e prudência. Justiça não se faz com fuzil, justiça se faz com lei, investigação, prova e julgamento.

Na Câmara dos Deputados, o pastor e deputado Otoni de Paula lamentou a morte de quatro jovens, filhos de fiéis de sua igreja. Denunciou que foram lançados no mesmo saco, contados como criminosos, e apontou o modo como operações tratam corpos negros em comunidades: “Matou meninos que nunca pegaram num fuzil”, diz ele. Quando quem chora é alguém de dentro do próprio campo ideológico, alguém que já se rendeu à mágica do “simples assim”, o espelho devolve uma verdade incômoda: a morte tem CEP, tem cor, tem classe.

Enquanto isso, autoridades se calam ou aplaudem. Governadores oferecem tropas, multiplicam a retórica de guerra, reforçam a gramática do inimigo a ser eliminado. A droga, porém, não é apenas questão de polícia, é questão de saúde pública. A violência tampouco cabe inteira no Código Penal, é sintoma social. Disparos ocupam o lugar de políticas, balas fazem as vezes de cuidado, e o medo vira plataforma de governo.

Mas a necropolítica também se serve da religião. O casamento entre neopentecostalismo e extrema direita adubou um terreno onde florescem mais violências. No Rio, há facções que vestem símbolos e linguagem evangélica, fenômeno que pesquisadores chamam, com debate e cautela, de “narcopentecostalismo” ou “narcorreligiosidade”. Não se trata de aliança formal da comunidade evangélica com o crime. Trata-se de grupos que impõem, pela força, uma crença nos territórios que controlam, acirrando perseguições e intolerâncias religiosas, e isso corrompe a fé e o espaço público.

O que falta não é poder de fogo, o que falta é imaginação política. Precisamos de inteligência policial que respeite garantias, de políticas de drogas baseadas em evidências, de urbanismo que recupere territórios, de escola e trabalho que valham a pena, de saúde mental e atenção básica presentes onde o Estado costuma chegar tarde. A bala é sempre imediata, porém sempre burra. Mata o problema de hoje e gesta o de amanhã.

A necropolítica venceu quando nos convenceu de que matar é governar. Venceu quando aplaudimos a estatística do confronto e esquecemos o nome das vítimas. Ainda assim, não precisa ser final. Se a necropolítica avançou, avançou sob o pretexto de combater um narcoestado, e nos empurrou, ironicamente, para mais perto dele. Recuar exige coragem, exige política que não tema a complexidade, exige a simples decisão de preferir a vida. É possível reverter a gramática do extermínio, é possível dizer que a vida é a medida da política.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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9 Comentários

  1. Resumo da opera. Quando a ‘politica’ e a ideologia se metem em algum assunto é quase certo que vai dar m. Simples assim. Ontem 7 integrantes do CV foram mortos em confronto com a policia no Ceará. Hipocrisia manda não fazer alarde porque o governador é do PT. Ele parabenizou a policia e declarou ‘Perderam a vida porque resolveram enfrentar a PM’.

  2. ‘ Recuar exige coragem, exige política que não tema a complexidade, exige a simples decisão de preferir a vida.’ Da bandidagem. Porque para ‘salvar’ os bandidos sacrificam a maioria trabalhadora. Quem está no gabinete ou longe do problema ‘fica de boa’.

  3. ‘[…] de políticas de drogas baseadas em evidências, de urbanismo que recupere territórios, de escola e trabalho que valham a pena, de saúde mental e atenção básica presentes onde o Estado costuma chegar tarde.’ PT governou o pais de 2003 a 2011. Depois até 2016. Agora desde 2023. Fez o quê para resolver o problema do RJ?

  4. ‘Precisamos de inteligência policial […]’. Chavão que já não significa nada. ‘Inteligencia’ pode significar capacidade cognitiva. Pode também significar informações. Não faltou nenhuma das duas na operação. É só mais um mimimi para dizer que poderia ter sido feito de outra forma. Que não é obvia e os criticos também não sabem qual é porque não entendem nada sobre o assunto.

  5. ‘O Estado, se é Estado de Direito, deve responder com legalidade, devido processo e prudência.’ Sim, é um problema puramente burocratico. Deveriam substituir as policias por despachantes.

  6. ‘ No Rio, há facções que vestem símbolos e linguagem evangélica, […]’. No Mexico integrantes dos cartéis adoram ‘Santa Muerte’.

  7. ‘[…] o pastor e deputado Otoni de Paula lamentou a morte de quatro jovens, filhos de fiéis de sua igreja.’ Com certeza agora estão no Céu, os inocentes.

  8. ‘As vidas perdidas não se contam apenas em números, mancham ruas, lares e a imagem do país para o mundo todo.’ ÓÓÓ Que dramático!

  9. ‘ A pergunta não é retórica, é incômodo.’ Incomodo para os que se sentem incomodados. Para os que dão importancia.

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