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O que resta pra contar – por Marcelo Arigony

“Entre telas e afetos, a crônica buscava o seu tempo. Não podia decepcioná-lo”

O carro preto parou na Avenida Rio Branco, quando o sol se rendia atrás dos prédios.

A cidade exalava o fim do dia – vitrines douradas, vozes misturadas, pressa de uns, cansaço de outros.

Da praça Saldanha Marinho vinha um rumor de gente, um riso solto, o som do que permanece mesmo quando tudo passa.

Ele pensou ter ouvido um coro de crianças – talvez eco de uma praça encantada que já viveu em sonho.

Ou talvez tenha sido ela.

Melinda.

Entre o chafariz e os bancos, o vestido parecia acompanhar o vento, o salto desenhar o chão.

As pernas, longas e firmes, ditavam o compasso do fim de tarde.

Ou talvez nada disso – só um lampejo, um perfume discreto despertando a verve.

Melinda ou lembrança – o mesmo feitiço.

A mulher que atravessa o cotidiano e o transforma em desejo.

Ele abriu o caderno no banco do carona.

Entre rabiscos, vidas guardadas: mulheres, a praça, o dinheiro curto, as conversas de fim de tarde, a cabrita – amor, memória ou invenção -, os filhos crescendo depressa e as ironias que sustentam os dias.

Histórias que parecem simples – mas só parecem.

Olhou o relógio.

Já passava da hora.

Do outro lado da cidade, o homem do chapéu devia estar esperando – paciente, como quem entende que até o atraso pode ser uma forma de cuidado.

Entre telas e afetos, a crônica buscava o seu tempo.

Não podia decepcioná-lo.

Estava pra contar.

E contar, no fim das contas, ainda o mantinha de pé.

Fechou o caderno.

O motor respondeu rouco, cúmplice.

Seguiu devagar pela Rio Branco, e no retrovisor –

talvez um reflexo, talvez um convite –

Melinda atravessava a praça de novo, o perfume incendiando o ar,

lembrando-lhe que a vida, ainda hoje, é o que resta pra contar

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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