Meu refúgio sonhador – por João Luiz Vargas
‘Quem acredita que nos tempos idos vivíamos melhor, está livre para ser feliz’

Peguei o ônibus na madrugada de segunda-feira, rumo ao novo e antigo local de trabalho.
Era um veículo moderno, com todos os equipamentos necessários para que os passageiros navegassem pelas redes sociais. Hoje já não encontramos coletivos de transporte como os de antigamente: não existiam bancos reclináveis, banheiro, água à disposição ou ar-condicionado.
Com a velocidade controlada pelos meios mecânicos disponíveis, fomos vencendo distâncias sem atropelos, conduzidos por um motorista experiente e cuidadoso. No passar do tempo, fui devaneando, revisitando os sonhos do guri de calças curtas, com tirantes e pés no chão. Era como retornar à inocência dos tempos em que o ônibus ligava nossa vida de campesino ao desconhecido mundo da cidade.
Durante muito tempo, as pessoas não tinham facilidade de deslocamento do interior para a cidade e muito menos para centros maiores. Quem acredita que nos tempos idos vivíamos melhor, sem neuroses, sem disputas desnecessárias, sob um céu onde os pássaros voavam livres, sem preocupações com drones ou outros obstáculos, está livre para ser feliz.
Quero valorizar o ônibus antigo, sem ar e sem modernismos, mesmo que seja somente nesta viagem.
Porque, às vezes, é justamente na simplicidade de um percurso desacelerado que reencontramos a nós mesmos. Hoje, entre uma parada e outra, percebi que não é o conforto do trajeto que define a riqueza da jornada, mas sim a capacidade de lembrar de onde viemos e de seguir sonhando para onde vamos.
(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.





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