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Vacina contra a desinformação – por Luciana Carvalho

OMS: “hesitação vacinal como uma das dez maiores ameaças à saúde global”

Na tarde do primeiro sábado de novembro, depois do almoço, uma pequena fila na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria (RS), chamava a atenção de quem passava. Era uma ação da Secretaria Municipal da Saúde para atualizar a vacinação de trabalhadores que não conseguem ir a uma unidade durante a semana.

 Faltavam poucos minutos para as 15h, horário de encerramento, então eu e Carlos decidimos esperar. Em poucos minutos, fiquei sabendo que meu registro apontava ausência de quatro vacinas: tétano, febre amarela, hepatite e tríplice viral. A última eu provavelmente tomei na infância, mas se não constava e não há problema algum em repetir, segui adiante. Duas picadas em cada braço. Carlos tomou as duas que faltavam para ele.

Por que começar por esse relato, se não pretendo escrever uma crônica? Primeiro, porque existe a chance de alguém hesitante em relação às vacinas ler esse texto. Se meu testemunho servir como empurrão para uma ida ao posto, já valeu. Segundo, porque, como pesquisadora da desinformação e cidadã preocupada com o avanço do negacionismo e das crenças anticiência, quero convidar colegas docentes (de todas as áreas) a assumir uma responsabilidade que não dá mais para adiar.

Nos últimos dez anos, cresceu de forma alarmante o número de crianças no mundo que nunca receberam qualquer vacina. Dados da Unicef de 2023 apontaram que 67 milhões de crianças ficaram sem ao menos uma dose de vacina básica nos anos anteriores, o maior retrocesso em 30 anos. No mesmo ano, o Brasil não atingiu as metas de imunização contra sarampo, meningite, rubéola e outras doenças graves, mas totalmente evitáveis gratuitamente. Esse movimento não é aleatório.

Pesquisas recentes têm mostrado a relação entre desinformação, negacionismo e queda nos índices vacinais. A própria Organização Mundial da Saúde classificou a hesitação vacinal como uma das dez maiores ameaças à saúde global.

Mas, por que as pessoas desconfiam tanto de vacinas se mais de 150 milhões de vidas foram salvas por elas nos últimos 50 anos? Aqui, vivemos uma pandemia sob um governo abertamente anticiência, que naturalizou a morte de mais de 700 mil brasileiros. Nos Estados Unidos, o presidente espalha mentiras relacionando Tylenol na gravidez ao autismo e, mais recentemente, colocou o CDC a serviço da desinformação científica em saúde. Mais uma vez, autistas e suas famílias viram alvo de teorias conspiratórias sem qualquer base.

Nada disso é acidental. A desinformação dá lucro, e dos grandes. E quem lucra aposta na dúvida, na confusão e no medo para vender soluções mágicas, terapias sem comprovação e suplementos milagrosos. Esse é o combustível das campanhas desinformativas nas plataformas digitais. E é por isso que nós, docentes, precisamos agir.

É urgente que assumamos nossa responsabilidade com a Ciência não apenas na pesquisa, mas também no ensino e na extensão. O combate ao negacionismo, às pseudociências e ao charlatanismo não é um tema restrito à Saúde, é tarefa de todas as áreas.

Contra a desinformação também já existe vacina. Ela se chama prebunking, estratégias educativas que ‘imunizam’ a população ao ensinar como funcionam os truques da desinformação – seus enquadramentos, apelos emocionais, falsas autoridades, argumentos manipuladores. Quando aprendemos a reconhecer essas estratégias, elas perdem o poder. Países, escolas e universidades que investem em prebunking colhem resultados concretos com cidadãos mais resistentes ao engano. Para 2026, o grupo de pesquisa que lidero planeja investir nessa estratégia para levar a vacina da desinformação a escolas, projetos e unidades de saúde, por meio de ações interdisciplinares. Quem quiser se somar, será bem-vindo!

(*) Luciana Carvalho é professora do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM e também líder do grupo de pesquisa Desinfomídia UFSM/CNPq). O artigo acima foi publicado originalmente no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (AQUI) e reproduzido com a autorização da autora.

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16 Comentários

  1. Resumo da opera. Mais um grupo de pesquisa para ‘esquentar’ o discurso da esquerda. Na base do carteiraço.

  2. Resumo da opera. Emergências do SUS lotadas em POA. Falta grana. Dinheiro publico é gasto em programas de pos-graduação com retorno zero para a sociedade.

  3. ‘[…] o grupo de pesquisa que lidero planeja investir nessa estratégia para levar a vacina da desinformação a escolas, projetos e unidades de saúde, por meio de ações interdisciplinares.’ Bom saber que o dinheiro publico está sendo ‘bem gasto’.

  4. ‘Países, escolas e universidades que investem em prebunking colhem resultados concretos com cidadãos mais resistentes ao engano.’ Ou completamente enganados. Dizem que o melhor prebunking do mundo é o da Coréia do Norte.

  5. ‘[..] seus enquadramentos, apelos emocionais, falsas autoridades, argumentos manipuladores.’ Bota ‘falsa autoridade’ nisto.

  6. ‘O combate ao negacionismo, às pseudociências e ao charlatanismo não é um tema restrito à Saúde,[..]’. Comunicação Social não é quimica, fisica ou biologia. Logo não é ciencia.

  7. ‘E é por isso que nós, docentes, precisamos agir.’ Os ‘acima de qualquer suspeita’ querem um naco no lucro da desinformação. Sim, todo mudo é malvado, só eles que pensam no ‘bem da humanidade’.

  8. ‘Mais uma vez, autistas e suas famílias viram alvo de teorias conspiratórias sem qualquer base.’ Rastro da talidomida que foi usada para enjoo na gravidez. ‘Cientificamente’.

  9. ‘[…] espalha mentiras relacionando Tylenol na gravidez ao autismo […]’. Bula. ‘Quais cuidados devo ter ao usar o Tylenol Comprimido?’ Resposta: ‘Se você estiver grávida ou amamentando, consulte o seu médico antes de usar este medicamento.’ Por que existe este alerta?

  10. ‘Aqui, vivemos uma pandemia sob um governo abertamente anticiência, que naturalizou a morte de mais de 700 mil brasileiros.’ Para quem não dá importancia a governos, quaisquer que sejam, não tem importancia nenhuma. Se o governo fosse outro e o presidente de plantão chorasse em cadeia nacional os 700 mil estariam ‘menos mortos’?

  11. ‘[…] se mais de 150 milhões de vidas foram salvas por elas nos últimos 50 anos?’ Isto é uma tremenda de uma atochada. Alguém fez uma projeção teórica de quantas mortes ocorreriam sem vacina. Como não se confirmou o numero a diferença seria por conta da vacina. Outra prova da atochada: é um numero seco. Uma média. Sem desvio padrão ou qualquer medida de dispersão. Ou indice de confiabilidade. Bota ‘ciencia’ nisto.

  12. ‘No mesmo ano, o Brasil não atingiu as metas de imunização […]’. Existem mais pesquisas sobre eleições do que sobre comportamento no Brasil. Questão de prioridade. Perguntar ‘se vacinou ou não’ e ‘por que?’ é um coisa muito complicada. Tradição de não avaliar politicas publicas (é positivismo!). Mas há pistas. Nem todo mundo é servidor publico e tem a vida mansa. Apertar parafuso 44 horas por dia (os que tem sorte de ter carteira assinada) e aproveitar o descanso semanal para ficar numa fila é coisa da Globo. Depois tem o famoso ‘não vai acontecer comigo’.

  13. ‘Segundo, porque, como pesquisadora da desinformação e cidadã preocupada com o avanço do negacionismo e das crenças anticiência, […]’. Ou seja, policiar o discurso em assuntos nos quais não tem nenhum dominio. Egotrip infindável, se acha acima de qualquer suspeita e totalmente ‘neutra’.

  14. ‘Primeiro, porque existe a chance de alguém hesitante em relação às vacinas ler esse texto.’ Beira o zero. Obvio.

  15. ‘[…] segui adiante. Duas picadas em cada braço. Carlos tomou as duas que faltavam para ele.’ Famigerado ‘somos exemplo’. Kuakuakuakuakua!

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