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Madames Monroe – por Orlando Fonseca

Os EUA legaram dois ícones poderosos para o imaginário social e cultural da América Latina, ao longo de sua história de hegemonia planetária. O primeiro, no início do século XIX, ainda em meio às lutas por independência dos países americanos. O outro, já em meio à propaganda da superpotência no pós-guerra, como estratégia da Guerra Fria. Ambos atendem pelo sobrenome Monroe e são do gênero feminino: uma tem o primeiro nome de Doutrina e a outra o sonoro nome de Marilyn. A primeira representa uma política de dominação que toma o território abaixo do Caribe como quintal. A segunda, como isca ideológica de um soft power (não muito soft) para divulgar no cinema o “american way of life” e tornar as mentes sul-americanas suscetíveis aos mandos e desmandos do Grande Irmão do Norte. Estou trazendo estas reflexões, porque, na semana passada, foi divulgada a Nova Doutrina de Segurança do governo Trump, tornando explícita a tendência imperialista no controle das Américas. O documento resgata a antiga Doutrina Monroe e reforça ambições militares no Hemisfério Ocidental, como área de influência exclusiva de Washington. Autodenominado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, estabelece as prioridades americanas de segurança, com expressões que beiram a xenofobia anti-imigração sobre a Europa, a promoção de alianças na Ásia, confrontando a China (inimigo da vez). Mas o ponto mais crítico sobrou para a América Latina, ideário político-militar de péssima lembrança para a região. Vide o morde-assopra de Trump, com ameaças à Venezuela e tratativas amenas com Lula. A “missão Lança do Sul” tem cerca de 15 mil militares, navios de guerra, um porta-aviões, e aeronaves de combate posicionados no Caribe. Oficialmente, teria como alvo os cartéis do tráfico.

Um ano após a Independência do Brasil, a chamada Doutrina Monroe foi anunciada pelo presidente americano James Monroe, em sua mensagem ao Congresso, na qual afirma, como princípio que afeta os direitos e interesses dos EUA, “os continentes americanos (…) não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia”. Esta ação pode ser resumida pelo slogan: “América para os americanos”. Desde Thomas Jefferson, a noção de “américa” é uma síntese para indicar os EUA, em seu “destino manifesto”. Para Jefferson, “a América tem um Hemisfério para si mesma”, o qual, no imaginário de seus compatriotas, abrange o continente americano e o seu próprio país. Em 1823, os Estados Unidos ainda estavam longe de ser considerado sequer uma potência regional. Mas tudo mudaria com a participação decisiva dos EUA na vitória sobre as potências do Eixo. E, justamente, em meio à massiva propaganda americana, na defesa do bloco democrático e capitalista, aparece a figura loura e sensual de Marilyn Monroe.

Nascida Norma Jeane, ela teve uma ascensão meteórica ao longo de uma década de vida artística. Marilyn Monroe representa, de modo sublime e belo, a busca da perfeição do cinema americano. Após a Segunda Guerra, o cinema americano tornou-se uma ferramenta do soft power, promovendo o capitalismo, o estilo de vida dos EUA e a imagem de seus militares como heróis, combatendo o comunismo soviético. No imaginário patriótico, afirmou-se com filmes de guerra que glorificavam o exército e criticavam inimigos, através de narrativas de “bem contra o mal” e do sonho americano. Cria ídolos (a “doutrina” Marilyn Monroe, inventei agora) que se tornam modelos de comportamento e são usados para vender produtos, criando um fenômeno de adoração e consumo de suas imagens. Hollywood frequentemente colabora com o Departamento de Defesa, o qual revisa roteiros e fornece recursos militares. Em 1953, Marilyn era uma das estrelas mais bem-sucedidas de Hollywood, sendo a protagonista em vários filmes, como “Os Homens Preferem as Loiras”, “O Pecado Mora ao Lado” e “Nunca Fui Santa”. Tal qual o título do filme, causou escândalos na vida real, como o rumoroso caso de ser amante do então presidente John F. Kennedy, apesar de nada ter sido provado.

No entanto, caro leitor, reafirmo que sou mais pela paz (claro, não sou besta de imaginar um país sem exército). Em termos de Monroe, prefiro a potência simbólica de Marilyn, já que a imagem de uma doutrina para tornar o continente em um quintal não me seduz. Enquanto montam um teatro de guerra no Caribe, para combater os narcoterroristas, os yanquees na verdade pressionam Maduro de olho na maior reserva de combustíveis fósseis do planeta, na costa da Venezuela. Se é para ser enganado a respeito do mundo, prefiro o sorriso e as curvas insinuantes de Marilyn, e não as curvas retóricas do discurso de Donald Trump e seu secretário de guerra Pete Hegseth.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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14 Comentários

  1. Resumo da opera III. Enquanto se lidava com o texto a divida publica cresceu mais um tanto. Todos irão pagar. Não é, como afirma a midia cumpanhera, ‘discurso eleitoreiro da oposição’. É fato. Os números são publicos. Divulgados pelo proprio governo. A gastança continua.

  2. Resumo da opera II. ‘Se é para ser enganado a respeito do mundo, prefiro […]’ a ideologia Vermelha. Com anti-americanismo mesozoico.

  3. Resumo da opera. Agente Laranja é um fato historico. Vermelhos gostam de utopias que nunca irão acontecer. Muitos ‘se’. ‘Se a Kamela tivesse sido eleita teria sido melhor’. Melhor para quem?

  4. ‘Se é para ser enganado a respeito do mundo, prefiro o sorriso e as curvas insinuantes de Marilyn, […]’. Viva a necrofilia!

  5. ‘[…] os yanquees na verdade pressionam Maduro de olho na maior reserva de combustíveis fósseis do planeta […]’. Para os Vermelhos marxisticamente tudo é economico. Petroleo é sempre usado como desculpa mesmo não sendo. Alaska tem muito petroleo debaixo, praticamente intocado. Petroleo venezuelano é denso, tem alto teor de enxofre. Se fosse tão bom assim não haveria ameaça de invasão a Guiana (escrevi Suriname antes). Por conta de petroleo. Sem falar na influencia chinesa, russa e iraniana no pais.

  6. ‘No entanto, caro leitor, reafirmo que sou mais pela paz […].’ ‘A paz queremos com fervor, / A guerra só nos causa dor.’ Canção do Exército.

  7. Marilyn Monroe já morreu faz tempo. Industria na qual ela trabalhava mudou muito. Vide aquisição de um grande estudio pela Netflix. Quem acredita (tem fé) em ‘divida historica’ são os Vermelhos. Não se discute a religião dos outros.

  8. ‘Vide o morde-assopra de Trump, com ameaças à Venezuela […]’. Pelo menos a ditadura venezuelana parou de ameaçar invadir o Suriname e anexar parte do territorio.

  9. ‘Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os Estados Unidos; queremos um Hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um Hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da posse de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, afirmaremos e aplicaremos um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe;’

  10. ‘Autodenominado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, estabelece as prioridades americanas de segurança, […]’. Traduzindo do proprio documento.

  11. ‘A segunda, como isca ideológica de um soft power (não muito soft) para divulgar no cinema o “american way of life” e tornar as mentes sul-americanas suscetíveis aos mandos e desmandos do Grande Irmão do Norte.’ Ou seja, um bando de velhinhos se reuniu no topo de uma arranha-céu e conspirou para usar ‘soft-power’. Não era para ganhar dinheiro. Governos ianques não aproveitaram a maquina depois. Na Segunda Guerra para combater idéias nazistas. Na Guerra Fria para combater idéias comunistas. Foram sempre atos unilaterais e gratuitos, não tinha ninguém do outro lado.

  12. Doutrina Monroe tem duzentos anos. Proibia potencias europeias de estabelecer novas colonias (que os Vermelhos tanto criticam) e estabelecia o hemisfério ocidental com zona de influencia ianque.

  13. Vermelhos vivem de passado. Não têm futuro. Sacrificam todos e tudo em nome da ideologia. Praticamente uma religião.

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