Quando o fiel vira o deus: uma reflexão teológica sobre a nova onda evangélica – por Marionaldo Ferreira
“Não é apenas um fenômeno religioso - é um retrato do Brasil contemporâneo”

A rápida ascensão das igrejas evangélicas no Brasil não é um acidente histórico, nem uma simples “moda” religiosa. É, antes, a consequência lógica de um tempo em que as instituições tradicionais perderam sua capacidade de oferecer sentido, pertencimento e respostas simples a vidas cada vez mais complexas. Enquanto muitos templos históricos ainda insistem em oferecer “cadeiras ao lado de Deus”, as novas igrejas descobriram uma fórmula mais direta – e, para muitos, irresistível: fazer o fiel sentir-se o próprio deus de sua trajetória.
Essa mudança é profunda. Nas teologias pentecostal e neopentecostal mais recentes, Deus já não é apenas aquele que caminha ao lado do pobre, como afirmavam as velhas homilias das denominações tradicionais. Em vez disso, Deus é apresentado como a força que legitima o sucesso individual, a porta aberta, a vitória pessoal. O fiel deixa de ser o súdito de um Reino e passa a ser o protagonista de seu próprio universo espiritual. E, convenhamos, isso tem um poder simbólico enorme.
Sempre li a Bíblia com a convicção de que Deus não entra nessa disputa entre capital e trabalho, como muitos tentam fazer parecer. A Escritura não canoniza ideologias nem se oferece como bandeira de trincheiras econômicas. Mas ela é, sim, profundamente comprometida com a felicidade humana – e felicidade aqui não como euforia, mas como plenitude, como vida que faz sentido. É por isso que a fé sempre atraiu aqueles que buscam um lugar de refúgio, orientação e esperança.
O que acontece agora é que muitos pastores perceberam uma brecha: ao invés de apenas dizer que “Deus quer que você seja feliz”, eles passaram a afirmar que o próprio fiel pode tomar para si o poder criador, o poder de decretar, o poder de determinar os rumos da sua história. É uma espiritualidade que mistura autonomia, autoestima e mercado religioso. E isso funciona porque responde à fome moderna de controle num mundo completamente incerto.
Se essa tendência é positiva ou não, o tempo dirá. Como observador vejo riscos profundos: quando o fiel se torna o deus, perde-se a dimensão comunitária e cresce um cristianismo autocentrado, desconectado do cuidado com o outro. Por outro lado, vejo também um sinal inequívoco de que as tradições que não dialogam com a vida concreta das pessoas serão deixadas para trás.
A ascensão evangélica, portanto, não é apenas um fenômeno religioso – é um retrato do Brasil contemporâneo. Um país em que as pessoas, cansadas de esperar, decidiram buscar no sagrado aquilo que o mundo não lhes entrega: um sentido imediato, uma resposta para agora, uma esperança que caiba no bolso e preencha o coração. E os pastores, atentos a esse desejo, não lhes oferecem mais um banco na igreja: oferecem protagonismo divino.
Talvez reste às tradições mais antigas reaprender o que sempre esteve no evangelho: Deus não toma lado nessa disputa entre capital e trabalho – Ele toma lado pela vida. Pela vida plena, profunda, justa e verdadeira. E enquanto houver quem busque essa vida, a fé – seja tradicional ou nova – continuará sendo uma força inevitável na alma brasileira
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





Resumo da opera. Fiéis são vitimas dos pastores malvados e por isto não votam nos Vermelhos.
Tipico dos Vermelhos. Inventa uma teoria no ar condicionado com base ou não em livros. No caso teológica. Análise psiquiatrica coletiva também no ar condicionado. Acontece uma defecação de regras. E uma teoria da conspiração.
‘Sempre li a Bíblia com a convicção de que Deus não entra nessa disputa entre capital e trabalho, como muitos tentam fazer parecer.’ Mas a religião entra. Inclusive a marxista. Opio do povo.