Por Fritz Nunes (Com artes de Italo de Paula) / Da Assessoria de Imprensa da Sedufsm

Um a cada dez docentes, em todas as regiões do país, tiveram contato direto ou indireto com atos de censura, aponta estudo do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE). Segundo constata a pesquisa, a censura é uma experiência recorrente em todo o país: 44% das e dos respondentes apontaram ter passado por isso quatro vezes ou mais. Em todas as regiões há saltos nas ocorrências de censura em anos eleitorais.
O questionário ‘A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática: um estudo sobre a perseguição de educadoras/es no Brasil’ foi divulgado no formato online entre maio e setembro de 2024, obtendo um total de 3.012 respostas válidas, da educação básica e superior, na educação pública e privada. O OVNE é um projeto de extensão interinstitucional sediado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e viabilizado com financiamento do Ministério da Educação (MEC).
No que se refere a casos de contato direto: 58% dos/as educadores/as relataram tentativas de intimidação, 41% sofreram questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdo. Aqueles e aquelas que responderam também citaram agressões verbais e xingamentos (25%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões físicas (10%).
Proibições e recomendações
As principais situações relatadas envolvem proibições e recomendações para evitar temas considerados “polêmicos” por parte da população, especialmente: questões políticas (73%), gênero e sexualidade (53%), questões religiosas (48%), negacionismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%). Confira o gráfico abaixo.

A pesquisa também mostra que há um clima de medo e silenciamento nas escolas, o que faz com que, daqueles/as que responderam que tiveram experiência direta com a censura e afirmaram terem sido impactados por ela, 60% começaram a pensar mais sobre o que falam em seu trabalho, 59% se sentem inseguros e vigiados, 53% pensaram em mudar o local de trabalho e 2% decidiram efetivamente não permanecer na carreira docente.
Temor e alerta
A assessoria de imprensa da Sedufsm fez contato com o responsável pela Ouvidoria da UFSM, o professor do Centro de Ciências Rurais, Thomé Lovato, para saber se havia reclamação docente quanto a algum tipo censura em sala de aula. Conforme o professor, “não foi encontrado nada com esse tipo de configuração” e complementou: “Na medida do possível vamos refinar para ver se achamos algo.” Todavia, não haver registro não significa que o problema deixa de existir.
Gabriel Kehler, atualmente lotado no departamento de Administração Escolar da UFSM, lembra de uma situação vivenciada por ele quando ainda estava na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em 2018, ano de eleição presidencial. Naquela época, relata ele, ao abordar em sala de aula a obra “O que é método Paulo Freire”, sentiu-se intimidado por questionamentos de parcela de alunos/as, alguns deles evangélicos e outros militares, sobre a relevância do livro.
Conforme Kehler, pela primeira vez teve que justificar o porquê de estudar algo que é reconhecido como conhecimento historicamente acumulado no campo da pedagogia. De algum modo, destaca ele, o episódio o deixou temoroso e em alerta epistemológico, pois, havia uma “discursividade recorrente de incentivo por parte de parlamentares e com grande engajamento midiático, de filmar os professores em sala de aula, isso em um período ainda anterior ao ensino remoto na pandemia”.
Ane Carine Meurer, ex-diretora do Centro de Educação da UFSM, lotada no departamento de Fundamentos da Educação, também oferece um relato interessante. Ela destaca que no segundo semestre de 2025 trabalhou com alunos/as a publicação “Pedagogia da autonomia” de Paulo Freire. E, em sala de aula, Ane Carine diz que frisou que o conteúdo a ser trabalhado falava de “política”, mas não em partido político. Esse cuidado, segundo ela, se deve ao fato de que estudantes chegam ao ensino superior com uma visão distorcida, em que política costuma ficar atrelada à partidarização, o que às vezes causa ruídos.
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