A Esquerda, a Direita e o novo Jogo da (des)Ordem Mundial – Amarildo Luiz Trevisan

O que aconteceu na Venezuela nestes últimos dias parece menos um capítulo local e mais um trailer, daqueles que avisam: o filme mudou de gênero, e ninguém perguntou se a plateia concordava.
A notícia que atravessou o mundo tem um enredo simples e um efeito devastador. Forças dos Estados Unidos capturam Nicolás Maduro em Caracas, ele é levado para responder a acusações em território americano, enquanto a política internacional assiste com aquela cara de quem procura, aqui ou acolá, o manual que prometia “regras do jogo”.
Quando isso acontece, a ONU, a OEA, o Conselho de Segurança e a lista de siglas respeitáveis ficam parecendo aquelas placas antigas de “Proibido estacionar”, num bairro em que ninguém respeita ou tem medo de levar multa. A legalidade vira debate de especialistas, a legitimidade vira disputa de narrativas, e o fato bruto, o fato nu, o fato que não pede licença, vira um método.
Até aqui, alguém dirá, nada realmente inédito. A história do continente é cheia de lições amargas sobre intervenções, tutelas e atalhos armados para resolver o que se diz insolúvel. O que parece novo, ou pelo menos mais escancarado, é a forma como essa lógica passa por cima do nosso teatro interno de esquerda e direita, como se ele fosse um detalhe folclórico, um barulho de torcida num estádio que já não decide o campeonato.
Reparemos no detalhe que dói. Em tese, a oposição venezuelana tinha nomes simbólicos e forte apelo internacional. Edmundo González Urrutia foi reconhecido pelos Estados Unidos como vencedor de uma eleição disputada, e María Corina Machado acumulou legitimidade externa, chegando a receber o Nobel da Paz de 2025. Em outros tempos, o roteiro da geopolítica teria sido mais previsível: derruba um lado, entroniza o outro, declara missão cumprida, tira foto.
Só que o roteiro publicado agora é outro. Quem assume, ao menos formalmente, é Delcy Rodríguez, até então vice-presidente de Maduro, por decisão do Supremo venezuelano, com apoio do aparato estatal e das forças armadas, enquanto Washington aperta por fora, ameaça por dentro e fala de “cooperação” como quem fala com a porta do cofre. Trump, em entrevista, deixou o aviso com a delicadeza de um ultimato: se ela não “fizer o certo”, pode pagar um preço ainda maior do que Maduro.
Nesse cenário, esquerda e direita, no tabuleiro latino-americano, passam a ser menos eixo moral e mais variável descartável. A mensagem implícita soa assim: não importa tanto o que você diz ser, importa o quanto você atrapalha, o quanto você resiste, o quanto você negocia, e, principalmente, o que você tem para me dar: infraestrutura, petróleo, rota, influência, vitrine.
E aqui entra a parte que interessa ao Brasil, sem direito a camarote. Se a nova gramática internacional aceita capturar um chefe de Estado e transferi-lo para julgamento fora do seu país, abrindo um precedente que até aliados europeus descrevem como perigoso, então a nossa disputa doméstica polarizada há décadas vira uma conversa de barbearia diante de uma tempestade maior.
Por isso, o recado que atravessa fronteiras não escolhe torcida. Não é um bilhete só para lulistas. Não é um bilhete só para bolsonaristas. É um aviso para qualquer governo ou frente que imagine ter proteção automática por afinidade ideológica, por foto antiga, por frase de campanha, por alinhamento momentâneo. A nova (des)ordem mundial, quando vira método, cobra pedágio de todo mundo.
E talvez seja esse o ponto mais incômodo desta crônica. O mundo não está apenas polarizado, ele está desinstitucionalizado. A força, quando resolve se apresentar como doutrina, não pede permissão nem para a esquerda, nem para a direita. Pede apenas passagem. Portanto, se a pancada maior vem de fora, faz sentido continuar a pancadaria aqui dentro? Talvez seria melhor nos mantermos abraçados no que importa do que brigando por rótulos, não?”
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Vicios da aldeia. Pessoas mais ou menos conhecidas na aldeia, ao menos numa bolha mais avantajada, acham que são ‘exemplo’. São narcisistas, acham que suas exortações vão mudar algo ou alguém. Talvez aconteça, gente do nivel esperar Brad Pitt na rodoviária. Patético.
‘ Talvez seria melhor nos mantermos abraçados no que importa do que brigando por rótulos, não?’ Sinalização da virtude, ‘olha como sou legal, quero a união de todos’.
‘O mundo não está apenas polarizado, ele está desinstitucionalizado.’ Como no Brasil, as instituições deixaram de funcionar e empurraram com a barriga. Negocio é fingir que funcionam (burraldos acham que irão se redimir) e vender a imagem que funcionam para que as populações permaneçam bovinamente trabalhando para pagar a conta. Simples assim.
‘Não é um bilhete só para lulistas. Não é um bilhete só para bolsonaristas.’ Um monte de gente não é nem um, nem outro.
‘[…] aceita capturar um chefe de Estado e transferi-lo para julgamento fora do seu país, abrindo um precedente […]’. Que precedente? E o Noriega? O cerco a embaixada do Vaticano? Errados os que acham que a historia tem um ‘progresso’ linear e tem uma catraca.
‘Em outros tempos, o roteiro da geopolítica teria sido mais previsível: derruba um lado, entroniza o outro, declara missão cumprida, tira foto.’ Não tem como. Oposição quase toda na cadeia ou no exilio. Instituições aparelhadas. Não tinha como funcionar. Ou seja, Ianques não cometeram o erro que os Vermelhos queriam que eles cometessem.
‘[…] é a forma como essa lógica passa por cima do nosso teatro interno de esquerda e direita, como se ele fosse um detalhe folclórico, um barulho de torcida num estádio que já não decide o campeonato.’ Nada mais conservador do que a Academia. O que gera atraso. Pós-modernismo não chegou aqui. Acham que podem evitar que aconteça.
‘[…] ficam parecendo aquelas placas antigas de “Proibido estacionar”, num bairro em que ninguém respeita ou tem medo de levar multa.’ Num bairro? Em SM é a cidade inteira. E não só estacionar, é trafegar na contramão, parar veiculo no meio da pista, etc.