Globalização em crise – quando o presente explica o passado – por Giorgio Forgiarini

Nasci no início dos anos 1980 e, portanto, a ideia de Estado soberano, autogovernado e com fronteiras bem delimitadas, para mim, sempre foi muito natural. Cresci com essa forte noção de que o território de um país termina num ponto exatamente onde começaria o do outro e que isso seria amplamente aceito pelos dois lados, sem contestações, brigas ou querelas maiores.
Justamente por isso, na tenra idade, tive certa dificuldade em entender com a profundidade que deveria alguns fatos históricos relevantes. Era para mim difícil entender a Roma Antiga. Aquelas mudanças nos mapas durante o curso do tempo me deixavam incrédulo.
Me lembro de ter ficado perplexo, lá nos idos de 1994, com a explicação do professor Carlos sobre as expedições de Júlio Cesar ao norte de onde hoje é a França. “Mas ali não era território da Gália?”, pensava eu, atribuindo à Gália a condição de um país soberano. “Com que direito os romanos faziam isso? Como puderam?” “E ninguém fez nada?”
Mesmo as explicações da professora Jaqueline, já em 1998, sobre a guerra das Malvinas me causavam espanto. “Como podem dois países reivindicar o mesmo território?” Eu até compreendia os fatos, mas não captava os contextos.
De qualquer forma eu compreendia que rompantes expansionistas só tinham vez no passado. Morreram com o fim da Segunda Grande Guerra, creia eu. Mesmo as guerras que se sucederam não tinham por objetivo propriamente a expansão territorial. Muitas guerras civis e outras tantas por independência, mas poucas por anexação territorial.
A Guerra Fria, inclusive, é um exemplo bastante claro disso. Os embates na Coreia, Vietnam e Afeganistão não tinham por objetivo explícito a anexação de qualquer território, mas antes disso, a garantia de influência política. E só. Não se havia, pelo menos declaradamente, intenção de ocupação ou anexação.
Sim, se sabia que em plenos anos 1990 ainda havia guerras por território, mas eram isoladas, periféricas, notadamente no oriente médio e no leste europeu. Não eram a regra. A regra era a delimitação territorial e, de uma forma ou de outra, o respeito recíproco e inequívoco, pelo menos formal, à integridade dos territórios.
Vivia o mundo sob relativa estabilidade. Nos anos 1990 o bloco soviético havia acabado de ruir e boa parte das animosidades se arrefeceu. Estados Unidos exerceram hegemonia absoluta tendo a Europa basicamente como um apêndice. O mundo antes bipolar passou a ser unipolar.
Nesse momento, nos anos 1990, globalização era a palavra da moda. O comércio internacional cresceu e, com ele, o direito internacional encontrou relevo. A ONU, enquanto entidade supranacional capaz de regular tensões entre países, encontrou seu período de maior proeminência. Koffi Annan, então Secretário Geral, era figura onipresente nos noticiários, quase tão saliente quanto Jorge Bush (pai).
Porém, ao que parece os tempos mudaram. Hoje, alguns dos que estavam na periferia estão apresentando uma saliência incômoda àqueles que antes dominavam o mundo unilateralmente. Globalização já é um termo “demodê”, o nacionalismo ganhou relevância e o direito internacional já não é mais tão importante/conveniente quanto antes. A ONU, então, encontrou o fundo do poço, depois de uma decadência paulatina que vem desde 2003.
“Às favas com os escrúpulos”, como diria Rubens Ricupero, se me interessa eu compro e se não quiserem vender, eu tomo à força.
O mundo que eu conhecia acabou e hoje, em 2025, fica muito mais fácil entender as lições dos professores de história do ensino médio.
(*) Giorgio Forgiarini é advogado, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.





Resumo da opera. Há extensa bibliografia a respeito da teleologia da historia. É uma questão em aberto, filosofia.
‘[…] fica muito mais fácil entender as lições dos professores de história do ensino médio.’ Bota faisca atrasada nisto. Kuakuakuakuakuakua!
‘O mundo que eu conhecia acabou e hoje, em 2025, […]’. Eu mal conheço Santa Maria.
‘“Às favas com os escrúpulos”, como diria Rubens Ricupero, […]’. E o que disse José Eduardo Cardozo depois do referendo onde mais de 60% dos votantes derrubou as pretensões do governo? Não burlou o resultado por via administrativa depois?
‘[…] direito internacional já não é mais tão importante/conveniente quanto antes.’ Mais imagem do que realidade. Se fazer funcionar um sistema juridico dentro de um pais já é complicado, com força coercitiva e tudo, imagine-se num planeta baseando-se só na ‘moral’ e na ‘ética’.
Não pode deixar de ser mencionado o dumping social chines.
‘[…] o nacionalismo ganhou relevância […]’. Crise das migrações em massa e seus problemas. Guerra hibrida. Vermelhos defendendo ideologia ‘duela a quem duela’, ‘justiça economica’.
‘Globalização já é um termo “demodê”[…]’. Problema, entre outras coisas, das cadeias de suprimento evidenciadas durante a pandemia.
China entrou na OMC em 2001. Implodiu a organização. Para começo de conversa não acreditam em propriedade intelectual.
Koffi Annan? E a Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda de braços cruzados enquanto acontecia o genocidio?
‘A ONU, enquanto entidade supranacional capaz de regular tensões entre países, encontrou seu período de maior proeminência.’ É a imagem vendida. Se nada de mais grave acontece como se sabe que está ‘funcionando’?
‘Estados Unidos exerceram hegemonia absoluta […]’. Nominalmente. Teve um inicio de intervenção no Haiti atrapalhada, nos Balkans idem. Eram os anos Clinton. E, obviamente, levaram um ‘esfrega’ na Batalha de Mogadíscio, cadaveres ianques arrastados na rua.
Já existe um problema na afirmação. Leis internacionais em regiões periféricas e isoladas podem ser desrespeitadas?
‘[…] mas eram isoladas, periféricas, notadamente no oriente médio e no leste europeu.’ Balcãs, reminiscentes do Império Otomano e cristãos. Periféricos para quem? Na dissolução da Ioguslávia teve bombardeio de uma embaixada chinesa e um impasse entre tropas da OTAN e da Russia num aeroporto. Só não deu m. porque um general britanico desobedeceu ordens.
‘De qualquer forma eu compreendia que rompantes expansionistas só tinham vez no passado.’ Deixando de lado a invasão da Georgia pela Russia em 2008. Os árabes tentaram erradicar o Estado de Israel inumeras vezes (perderam, mas é outra historia). Invasão turca do norte de Chipre na decada de 80. Kashmir, conflitos diversos entre China, India e Paquistão. China e India tem diversas disputas territoriais. Taiwan e China. Bolivia querendo uma ‘saida para o mar’. China criando arquipelagos artificias no mar que leva seu nome.