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Venezuela, soberania e o novo desenho do poder – por Giuseppe Riesgo

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos não surpreendeu ninguém que acompanha política internacional com um mínimo de realismo. Washington vinha sinalizando há meses que interviria. O que chamou atenção foi outro detalhe: a tranquilidade do ditador nas primeiras imagens após a operação. Em geopolítica, esse tipo de comportamento nunca é irrelevante.

Há anos, a sustentação do regime venezuelano depende menos de apoio interno e mais de uma rede externa de interesses. Cubanos, russos, chineses e iranianos tiveram papel direto na manutenção do poder em Caracas. Parte da segurança pessoal de Maduro, inclusive, era formada por agentes cubanos. Para ele, cair não significava apenas perder o cargo, mas romper com alianças que garantiam sua sobrevivência política e física.

A ação americana precisa ser lida como parte de um reposicionamento estratégico mais amplo. Após o encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca, movimentos começaram a se alinhar: pressão sobre a Ucrânia, aumento da presença naval dos EUA no Caribe e, agora, uma intervenção direta na América do Sul. Nada disso é aleatório.

A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo e vinha abastecendo atores estratégicos que rivalizam com os Estados Unidos. É ingênuo acreditar que apenas Washington tenha interesses energéticos na região enquanto Rússia e China atuariam como “amigas desinteressadas” do regime. Como já ocorreu no Oriente Médio, o discurso da democracia frequentemente convive com disputas muito concretas por energia, influência e poder.

Isso não transforma Maduro em vítima. A Venezuela deixou de ser uma democracia há muito tempo. Regimes autoritários sobrevivem enquanto mantêm força suficiente – interna ou externa. Quando essa força se esgota, o colapso é inevitável.

O ponto central, porém, não é Caracas. É a América do Sul. Os Estados Unidos passaram a enxergar a região com menos retórica diplomática e mais ação direta. Seja por acordos econômicos, seja por demonstrações de força, o continente voltou ao centro do tabuleiro global. E o Brasil não está fora dessa equação.

Soberania não se sustenta em países que confundem democracia com absolutismo, que desprezam e caçoam de eleições livres, que se relacionam e interagem com regimes tirânicos e que subjulgam todo o sistema e aparato institucional estatal aos seus interesses e vontade pessoais. Não é o “imperialismo” que destrói nações. São governos fracos, populistas e ideologicamente capturados que entregam seus países de bandeja. Quem não constrói instituições sólidas, mercado forte, Estado limitado e liderança disposta a enfrentar consensos progressistas não exerce soberania apenas administra a decadência.

(*) Giuseppe Riesgo é secretário de Parcerias da Prefeitura de Porto Alegre e ex-deputado estadual pelo partido Novo. Ele escreve no site às quintas-feiras.

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10 Comentários

  1. Os EUA é tão bonzinho gosto de ajudar os outros países com sanções, embargos criam todo tipo de dificuldade para dizer que precisam restaurar a ordem da liberdade. EUA já não é uma democracia, tem um tirano no poder que usa da força militar para roubar outros povos. Cometeu uma agressão a um país soberano. Esperar o que da extrema-direita. Nunca querem paz mundial, já é um impérido decadente, basta ver a realidade dos americanos. O ditador não vai durar muito tempo por lá.

  2. Resumo da opera. Mais cortina de fumaça do que outra coisa. Brasil é muito bagrinho para participar da briga. Atualmente alinhado com China, Irã, Russia. Cuba. Mas na Colombia tem eleição em maio. No Brasil mais para o final do ano. Mas todo mundo sabe que mesmo ganhando as eleições o canto do cisne dos vermelhos está próximo.

  3. ‘Soberania não se sustenta em países que confundem democracia […]’ com teatro de má qualidade. Quando as burocracias, muitas das vezes corruptas, abrem mão da soberania de um pais ‘está tudo certo’. Um dos grandes problemas da Comunidade Europeia são as decisões tomadas em Bruxelas. Onde fica o parlamento europeu. Politicos locais têm desculpa perfeita: ‘não podemos fazer nada, é coisa de Bruxelas’. Vendem os ‘beneficios’ e quem sair prejudicado que se lasque. Mercosur copiou, mas não conseguiu ainda emplacar. De quando em vez sai um balão de ensaio, vide placas dos automoveis tupiniquins. Deu ‘chiadeira’, não dá para enfiar o pé na jaca ainda. BSB já é um problema, imagino sustentar o Parlasur. Que fica em Montevideu. Perto de Punta del Este. Mais perto do que Santa Maria-Santa Cruz do Sul. Com sessões entre terça e quinta. Muitos assessores. Muitas ‘decisões dificeis’.

  4. ‘Os Estados Unidos passaram a enxergar a região com menos retórica diplomática e mais ação direta.’ Fala-se de novo em ‘Guerra Fria 2.0’. Fim do direito internacional. Para horror dos bunda moles a ideologia do ‘tudo se resolve conversando’ mostrou-se novamente errada. China implodiu a OMC. ONU virou uma burocracia cara e inutil. Parte dela se aliou (ou foi cooptada) por grupos de interesse. Alas, Hezbollah e Hamas também tinham/tem gente na Venezuela.

  5. ‘A Venezuela deixou de ser uma democracia há muito tempo.’. Pais não tinha classe media. Vivaldinos vermelhos assumiram o poder prometendo ‘acabar com a desigualdade’, ‘distribuir a renda do petroleo’. Transformaram numa filial de Cuba, uma nomenklatura com benesses e os demais na mais alta igualdade da miséria.

  6. ‘Como já ocorreu no Oriente Médio […]’. Preço do barril de petroleo é regulado. Idealmente fica entre 65 e 120 dolares. Esta é a ‘banda’. Sauditas tem um peso enorme. Esta perto dos 65 agora porque se subir mais viabiliza a extração via fracking nos EUA.

  7. ‘[…] o discurso da democracia […]’. Democracia é um processo de tomada de decisão. Não define o que é submetido a ela e nem garante resultados. Virou um espantalho para burocratas, corruptos, autoritarios, adeptos do ‘autosserviço’ e incompetentes permanecerem no poder.

  8. ‘A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo e vinha abastecendo atores estratégicos que rivalizam com os Estados Unidos.’ Arabia Saudita é uma monarquia absolutista. Vermelhos chamam de ditadura. Porém os arabes têm um Estado de Bem Estar Social como poucos no mundo. E o ‘bolivarianismo, socialismo do século XIX deixou como a Venezuela? Alas, qual pais tem mais corrupção?

  9. ‘Cubanos, russos, chineses e iranianos tiveram papel direto na manutenção do poder em Caracas.’ Cuba precisava do diesel para geração de energia. Os outros estavam mais interessados em ferrar os ianques via guerra hibrida. Ultimamente o alvo tem sido a ‘shadow fleet’, navios que clandestinamente transportam mercadorias de paises que estão sob sanção. Vai petroleo e voltam armas e fentanil.

  10. ‘ O que chamou atenção foi outro detalhe: a tranquilidade do ditador nas primeiras imagens após a operação.’ Diagnostico a distancia. Não sei se funciona. Poderia estar em estado de choque. Ofereceram a saida a la Bashar al-Assad para ele. Achou que era blefe e se ferrou.

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