A arte contra o fascismo – por José Renato Ferraz da Silveira
Movimento de criação, interpretação e diálogo - e, não raro, gesto de liberdade

A pergunta “o que é arte?” é uma das mais antigas e, ao mesmo tempo, mais abertas da experiência humana. Não existe uma definição única e definitiva – e talvez seja justamente essa impossibilidade de fechamento que mantém a arte viva ao longo dos séculos. O célebre episódio envolvendo o crítico vitoriano John Ruskin e o pintor James McNeill Whistler ilustra bem esse impasse. Ruskin, ao condenar o quadro Noturno em preto e dourado por volta de 1875, afirmou ter visto “um janota pedir duzentos guinéus por um pote de tinta jogado na cara do público”.
A frase, considerada infame, levou a um processo por difamação que terminou com uma vitória apenas nominal do artista. No entanto, Whistler ganhou algo muito maior: uma plataforma para defender o direito de expressão dos artistas livres das amarras da crítica e para proclamar o grito de guerra do esteticismo – “arte pela arte”.
A incompreensão e o desprezo demonstrados por Ruskin não são exceção; repetem-se em praticamente todas as épocas. A história da arte é marcada por uma constante tensão entre criadores e críticos, em que estes, muitas vezes representantes do gosto conservador do público, reagem com horror ou desdém diante das ousadias de novas gerações.
Esse conflito parece insolúvel porque nasce de uma divergência fundamental sobre a questão mais básica e, ao mesmo tempo, mais complexa: o que é arte? Não se trata apenas de um debate estético, mas também filosófico, social e moral. A arte não é somente o objeto produzido, mas o campo de disputa de sentidos que se forma em torno dele. É justamente nessa arena simbólica que a arte frequentemente se ergue como resistência – inclusive contra projetos autoritários, intolerantes e totalizantes que historicamente buscaram controlar ou censurar a livre expressão.
Essa dimensão torna-se visível também na contemporaneidade. Protestos contra políticas migratórias e contra a atuação do ICE não têm ficado restritos às ruas e vêm ecoando fortemente no campo cultural. Isso ficou evidente em grandes premiações musicais, quando artistas utilizaram o palco como espaço de posicionamento público. Discursos contrários à política anti-imigração foram proferidos por nomes de destaque da indústria, enquanto outros manifestaram apoio simbólico por meio de roupas e acessórios com mensagens como “ICE Out”.
O mainstream cultural respondeu com músicas, falas, performances e até a reformulação de formatos de shows, refletindo denúncias de truculência institucional e o medo crescente entre comunidades imigrantes. Nesses momentos, a arte deixa de ser apenas entretenimento e reafirma seu papel histórico de linguagem crítica e instrumento de visibilidade social.
Akira Kurosawa define a arte como uma viagem que nos desperta para a beleza da vida, questiona nossa passividade e nos alerta para o caráter transitório da existência. Nessa perspectiva, vida humana e arte tornam-se inseparáveis. Desde os primórdios, o ser humano sentiu a necessidade de registrar e interpretar suas experiências – como nas pinturas das cavernas, anteriores à própria escrita.
A arte nasce com o homem e constitui uma de suas expressões mais profundas, pois permite comunicar o que muitas vezes não pode ser dito em palavras. Quando estruturas de poder tentam silenciar vozes ou impor verdades únicas, é justamente essa capacidade simbólica e questionadora da arte que se converte em forma de resistência cultural.
Ao longo do tempo, diferentes visões se sobrepuseram. A arte pode ser entendida como expressão simbólica da experiência humana – medo, fé, amor, memória e desejo. Pode ser vista como questionamento, pois desloca o olhar, rompe a passividade e frequentemente incomoda ao revelar verdades ocultas. Pode também ser compreendida como autonomia, sobretudo a partir do esteticismo do século XIX, que defendia que a arte não precisava servir à moral, à política ou à utilidade prática, existindo por si mesma como experiência sensível. E, em abordagens mais contemporâneas, a arte é entendida como relação – não apenas o objeto em si, mas o encontro entre obra, artista e público, onde surgem emoção, interpretação e significado.
Talvez, portanto, a melhor pergunta não seja exatamente “o que é arte?”, mas “o que a arte faz?”. Ela registra o humano, provoca reflexão, comunica o indizível, cria beleza ou desconforto, conecta épocas e culturas e nos lembra de nossa transitoriedade ao mesmo tempo em que revela nossa capacidade de produzir sentido.
A arte persiste porque responde a uma necessidade essencial: dar forma ao invisível, traduzir sentimentos, medos e sonhos em imagens, sons e gestos. Por isso, nunca se encerra em uma definição fixa. Mais do que um conceito fechado, a arte é um movimento contínuo de criação, interpretação e diálogo – e, não raro, um gesto de liberdade diante de qualquer tentativa de silenciamento.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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