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“Bugonia” e a dinâmica de uma colmeia – por Roselâine Casanova Corrêa 

“Em um filme tanto belo, quanto triste, desfecho pode estar na primeira cena”

Por meio do poeta Virgílio – em sua coleção “Geórgias” – a prática da bugonia ficou conhecida no Mediterrâneo (publicada por volta de 29 a. C). Baseava-se na crença de que abelhas nasciam espontaneamente de um boi morto, sendo uma forma mística de renovar colmeias. Na abertura do filme “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos (2025), é apresentada uma colmeia e a complexidade da relação entre a abelha rainha e as abelhas operárias, o que fará sentido somente no final da narrativa.

“Bugonia” foi lançado no Festival de Veneza/2025 e, além dos cinemas, está disponível na Apple TV Store e na Amazon Video. Recebeu 4 indicações ao Oscar/2026: Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.

Os primos Teddy Gatz (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) sequestram Michelle Fuller (Emma Stone), CEO de uma indústria farmacêutica. De fato, é baseado no filme sul-coreano “Save the Green Planet!” (2003), de Jang Joon-hwan. O ator Aidan Delbis tem 19 anos e está dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida real e também interpretando o personagem Don, um dos papeis principais do longa, sua primeira atuação no cinema.

O sequestro ocorre pelo fato de os primos acreditarem que a CEO é uma alienígena, que está ali para destruir as pessoas na Terra. Eles a capturam e então começa o embate entre as duas partes. Muito articulada, mesmo presa, sendo torturada, com a cabeça raspada e imunda, ela entende a lógica da mente perturbada de Teddy Gatz – mentor do sequestro – e joga com essa realidade.

Ou seja, elabora diálogos rápidos para convencer os rapazes de que capturaram a pessoa errada. Desafiadora, mesmo após sequestrada. Em outras palavras: tão ardilosa, presa ao chão e coberta de loção branca, quanto era como a poderosa executiva de uma indústria farmacêutica. E igualmente manipuladora. A reação imediata é de simpatia com os sequestradores e receio com a capturada. Portanto, uma inversão de lógica.

A Michelle de Stone é detestável e ambiciosa, porém intrigante; o Teddy de Plemons aparenta total desordem mental, o que lhe confere humanidade, mesmo praticando atos horríveis; e o Don de Delbis oscila entre a obediência ao primo e a simpatia por Michelle. Nessa configuração, algo poderia dar ruim. E deu!

De início, a elegância do figurino da executiva contrasta com o descuido e falta de higiene dos rapazes. Ela sai do ambiente asséptico e cheio de vidros dos escritórios da empresa para o interior de uma casa desorganizada e suja. Realidades diversas em um mesmo ambiente, o que tensiona ainda mais a trama.

O enredo prende do início ao fim, com apenas três personagens sob embates constantes, na maioria das cenas. A trama é complexa, aliando humor negro, terror e drama. Da parte do sequestrador, uma história dolorosa acerca da existência humana, vivendo no extremo da sanidade, decorrência de traumas na infância, obcecado por conspirações iminentes e subsistindo no limite.

De outra parte, a refém, exímia em sua vilania, com a inexistência de senso ético, sob uma linguagem corporativa cansativa. Mas exitosa no convencimento ao sequestrador. De fato, a refém está no controle, não o sequestrador. E por uma razão óbvia: ele está permanentemente perturbado, ela absolutamente fria e determinada.

Em um filme tanto belo, quanto triste, o desfecho pode estar na primeira cena: a abelha rainha, quando fragilizada, é rapidamente abandonada ou substituída pelas abelhas operárias. O abandono ou eliminação, contudo, não é um ato aleatório, mas a garantia da sobrevivência [da colmeia]. Não, isso não é um spoiler, é uma metáfora!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.

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20 Comentários

  1. Resumo da opera IV. Netflix pode comprar a WB. Segundo o pessoal da indutria do entretenimento comporta-se como uma empresa de tecnologia. Para eles tudo é faturamento e market share. Dizer que a Netflix tentou um acordo com a Blockbuster antes de ficar grande. Modelo de negocio diferente. Blockbuster não aceitou e foi para a extinção.

  2. Resumo da opera III. Matt Damon falou num podcast as recomendações da Netflix. Tem que acontecer algo para prender a audiencia nos primeiros 5 minutos. O enredo da trama tem que ser repetido tres ou quatro vezes porque o pessoal assiste no celular, atenção dividida. Tudo muito mastigado. Alas, ele e o Ben Affleck andam distribuindo mais grana para a equipe de produção conforme o resultado financeiro da produção.

  3. Resumo da opera II. Muitas produções se mudaram para a Inglaterra. Incentivos fiscais. Além disto na California os salarios tem que ser algo como 30% maiores porque a produção tem que pagar o seguro-saúde. No Reino Unido o aumento na fatura é 5 ou 6%. Porque lá tem o NHS, o ‘SUS’ britanico.

    1. O seguro-saúde na classe artística foi uma conquista sob muita luta.
      Você já pegou tudo pronto, ou lutou por algum benefício??
      Ah, claro, você não precisou, afinal, você não existe.

  4. Resumo da opera. Nada de novo no front. Usar entretenimento para propaganda politica. Antigamente era menos disseminado, feito com mais talento e era mais sutil. Uma série de filmes com orçamento enorme deram prejuizo (este dai é barato, ainda que não tenha se pagado). Os impostos da Republica Socialista da California. Os gramscianos quebraram Hollywood.

    1. Você é folclórico, “Brando”.
      E portador de uma ira tão grande, que deve ser difícil ser você, né??
      Daí a necessidade do pseudônimo.
      Faz sentido.

  5. ‘[…] o desfecho pode estar na primeira cena: a abelha rainha, quando fragilizada, é rapidamente abandonada ou substituída pelas abelhas operárias. O abandono ou eliminação, contudo, não é um ato aleatório, mas a garantia da sobrevivência [da colmeia]. Não, isso não é um spoiler, é uma metáfora!’ A ‘revolução’ se faz necessaria! Vamos acabar com o capitalismo, incluindo as malditas industrias farmaceuticas!

    1. Coisa feia emitir opinião acerca do que não viu, né “Brando”??
      O longa menciona apenas uma vez (e no final) que se trata de uma indústria farmacêutica.
      Essa não é a tônica do filme.
      Assim fica difícil defender você!!!

  6. ‘[…] o Teddy de Plemons aparenta total desordem mental, o que lhe confere humanidade, mesmo praticando atos horríveis […]’. O vagabundo vitima.

    1. “Brando”, ele é vitima da própria doença.
      Deixei muito claro que o personagem é portador de algum tipo de patologia mental/emocional/psicológica.
      Não mencionei nunca a palavra “vagabundo”, o que ele de fato não é.
      Aliás, muita gente que se acha “normal” pode ser portadora de patologias diversas.
      Se esconder atrás de um pseudônimo pode ser um sintoma, né não??

    1. Exato.
      Todos os elementos que compõem uma narrativa, estão ali para comunicar.
      As cores do figurino, inclusive.
      Aliás, seus comentários aqui também são narrativa.
      Mesmo sob pseudônimo, dá para imaginar sua persona!!!

  7. ‘O ator Aidan Delbis tem 19 anos e está dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) […]’. Diversidade e inclusividade.

    1. Não me diga!!!!
      Você também é contra a inclusão????
      Ah, claro, é “coisa de vermelho”, né “Brando”, o homem que necessita de pseudônimo para se expressar.

  8. ‘[…] sequestram Michelle Fuller (Emma Stone), CEO de uma indústria farmacêutica.’ ‘[…] é detestável e ambiciosa,’ ‘ tão ardilosa,’. ‘ela absolutamente fria e determinada.’ ‘a refém, exímia em sua vilania,’ ‘[…] a poderosa executiva de uma indústria farmacêutica. E igualmente manipuladora.’ Rica, branca e má. A vitima vilã. Que trabalha para uma industria farmaceutica do mal.

    1. Não aferi juízo de valores à indústria farmacêutica em momento algum.
      Até porque o próprio filme não o faz.
      Isso foi conclusão sua, “Brando”, baseado em absolutamente nada.
      No achismo.
      Coisa feia!!!!

  9. Analise é a receita padrão. Uma sinopse rapida. Apresenta-se diretor e elenco. Depois os quesitos usuais. Dialogos rapidos. A elegancia do figurino. O ambiente. A trama complexa.

  10. Filme custou entre 45 e 55 milhões de dolares para ser feito. Para se pagar a bilheteria teria que ser mais de 100 milhões. Bilheteria mundial foi de 40 milhões. Filme é ‘cabeça’, concorreu a premios.

    1. Sério que você está preocupado se o filme irá ou não se pagar??
      Você já pensou na possibilidade de que arte não tem preço??

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