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De latas e conservas – por Orlando Fonseca

Em nosso país, tudo acaba sendo comercializado no varejo, desde que os portugueses trocaram espelhos por ouro e pau-brasil com os indígenas. Uma tendência histórica que nos acompanha desde a fundação, pois temos um Atlântico que se atravessa ao meio do pensamento que influenciou nossa cultura. Vai daí esta tendência comum entre nós de repassar os conceitos em sua versão criada pelo lugar-comum, desprovida de qualquer profundidade histórica, filosófica ou científica. De modo que, quando um cortejo carnavalesco resolve trazer em suas alegorias uma crítica aos costumes – como se não fosse da sua essência criticar as instituições – a polêmica se desenrola como bate-boca de mesa de bar. Nosso brasil-brasileiro inverte inclusive a máxima de a história se repetir em paródia: fora da passarela, o samba enredo reforça o refrão: “abriram a lata-de-pandora”. Concordo que certas coisas é preciso dizer na lata. Então, “vamo batê lata!”, ao ritmo de Paralamas do Sucesso, mas mantendo o nível, por favor.

Primeiro, preciso dizer que ninguém pediu minha opinião para compor o enredo da Acadêmicos de Niterói (e nem esperava tal coisa). Só para confirmar que, caso assim fosse, teria recomendado que, se planejavam homenagear alguém, não seria muito inteligente associar tal crítica à figura do homenageado. Também não seria favorável a que mexessem com tais conceitos, pois facilmente a polêmica descambaria para um terreno escorregadio dos debates sem fundamento. Em segundo lugar, é preciso dizer, retomando o dito na introdução deste despretensioso texto, que conservadorismo e conservadores no Brasil (excetuando os de boa-fé) estão vendendo um produto genérico de qualidade duvidosa.

Ao longo do século XIX, o Conservadorismo se constituiu como uma filosofia social, ao defender a preservação das instituições, costumes e valores tradicionais no contexto da cultura e da civilização. Entram na lista a família, a religião, e a comunidade local com seus usos e costumes, convenções e arranjos peculiares. É bom que se diga, tal filosofia nasceu no contexto de reação à Revolução Francesa. Veja-se: o que se pretendia era o retorno da aristocracia ao poder, e a submissão dos outros estratos sociais – burgueses, camponeses, operários – à elite. Daí nasce o conceito fundamental do pensamento conservador: a sociedade é hierarquizada (pela origem, pela riqueza, pelo domínio do conhecimento). Ou seja (e por adotar a moral cristã como referência), impõe a noção patriarcal e patrimonial, pela qual o homem é o “cabeça do casal”, o homem como o proprietário, e tudo se submete à sua vontade. O positivismo de August Comte vai nesta mesma linha, em sua proposta de organização social, em que o cidadão culto, bem-nascido, rico é que está adequado para ser líder (caudilho, na versão latino-americana). Por isso, no Brasil, a transição da monarquia para a república, feita numa quartelada de militares positivistas, manteve muitos privilégios (falta de reforma agrária, p. ex., comum em tais processos históricos).

O escritor francês oriundo da aristocracia, François-René de Chateaubriand, foi um dos primeiros a afirmar o conservadorismo no meio político, por volta de 1818, durante o período de Restauração, que procurou reverter as políticas da Revolução Francesa. Antes dele, o primeiro teórico político explicitamente conservador é geralmente considerado o filósofo e orador irlandês, Edmund Burke. Este postulava o crescimento orgânico das sociedades, ao invés das reformas violentas. Considerado conservador liberal, porque se opôs à Revolução Francesa, mas apoiou a Revolução Americana. E assim, a temática conservadora se associa com a política de direita, descrevendo uma ampla gama de pontos de vista, a depender do que é considerado tradicional em um determinado lugar e tempo. De todo modo, essa corrente enfatiza a continuidade e a estabilidade das instituições, opondo-se a qualquer tipo de ruptura e de políticas progressistas, em oposição tanto ao individualismo como ao estatismo e ao coletivismo.

Já tivemos um “verão da lata”, com outro produto mais tóxico, mas não menos provocante. Mas este carnaval nos trouxe, acima de tudo, a oportunidade de reafirmar que, no Brasil, tudo termina em samba. Mesmo os que são contra a festa e aproveitam a data para fazer retiros espirituais, dão uma espiadinha nas fantasias, nas alegorias e nos desfiles. De outra forma, se não tivessem visto, se não tivessem se incomodado, como é que saíram respondendo com memes nas redes sociais? Querendo ou não, é o carnaval: “vamo batê lata!” . É o novo som na praça, é o veneno da lata, na lata (Fernanda Abreu). Para ficar na MPB, eu completaria, seguindo o Gil ao pé da letra: “na lata do poeta tudo/nada cabe”, menos conservas indigestas.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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15 Comentários

  1. Em tempo. Caparam alguns comentarios. Projeto PL 3278/2021. Aprovada urgencia. Mil tributos. Propaganda orquestrada antecipada inclusive na aldeia. Mais tributos.

  2. Resumo da opera II. Viralizou um video de Londres. Um maluco cristão foi pregar num gueto. Muçulmanos queriam botar ele para correr. Quem atendeu foi uma policial mulher. ‘Aqui é uma região muçulmana, não pode pregar outra religião’. Problema? É Londres. Um estudante cristão de ‘extrema-direita’ foi linchado em Paris pelos antifas. Nove pessoas, incluindo um assessor parlamentar, presos. Quando é ‘extrema-direita’ a culpa pode ser da vitima. Tentaram chegar perto do Agente Laranja com uma 12. Este pessoal ‘revolucionario’, ‘progressista’, ‘amor venceu’ não é fácil.

  3. Resumo da opera. Mesmo de sempre. Esperteza sem o equipamento correto. Representação ‘editada’ e errada dos conservadores. Contradições (‘o que se pretendia era o retorno’, ‘postulava o crescimento orgânico das sociedades’, uma salada cronologica. Basicamente ‘se desenrola como bate-boca de mesa de bar.’

  4. ‘Mesmo os que são contra a festa e aproveitam a data para fazer retiros espirituais, dão uma espiadinha nas fantasias, nas alegorias e nos desfiles. De outra forma, se não tivessem visto, se não tivessem se incomodado, como é que saíram respondendo com memes nas redes sociais?’ Bastante óbvio, autoritarismo não é coisa só de positivistas. Não só ‘policiam’ os outros (tudo e todos), querem determinar como devem ou não se comportar e quando ou não podem sentirem-se ofendidos.

  5. ‘Por isso, no Brasil, a transição da monarquia para a república, feita numa quartelada de militares positivistas,[…]’. Pois então. Auguste Compte foi o fundador da sociologia (fisica social!). Queria estabelecer uma nova ordem social baseada em ‘principios cientificos’. O que ficou fora? Julio de Castilhos era positivista e não era milico. Borges de Medeiros idem. No nivel federal perdeu a parada para Rui Barbosa, não conseguiu emplacar seu projeto de Constituição. Mas a Constituição gaúcho ele emplacou, por isto um regime autoritario e por isto revoluções. Borges de Medeiros foi sucessor de Castilhos, também positivista. Getulio Vargas era desta turma. Além disto foi aluno da Escola Preparatoria de Rio Pardo.

  6. Burke, o conservador, também defendia que a sociedade é um organismo vivo. Não uma máquina. Uma parceria entre os que morreram, os vivos e os que não nasceram ainda. Logo mundanças sociais deveriam cautelosas e graduais. O busilis todo foi a ‘revolução’. Detalhe, Burke morreu em 1797, logo século XVIII. No seculo seguinte tem alguma coisa, ‘Uma historia em duas cidades’ de Dickens, por exemplo.

  7. Quem ler sobre filosofia vai aprender que o conservadorismo tem como expoente inicial um cara chamado Edmund Burke. Palavras-chave: estabilidade. Hierarquia e ordem (Vermelhos também gostam disto). Evidencia empirica, pragmatismo (contrapondo-se a ideologias, receitas ‘intelectuais’ ou utopicas). Oposição ao radicalismo.

  8. ‘Ao longo do século XIX, o Conservadorismo se constituiu como uma filosofia social, ao defender a preservação das instituições […] tal filosofia nasceu no contexto de reação à Revolução Francesa.’ ‘[…] o que se pretendia era o retorno da aristocracia ao poder, e a submissão dos outros estratos sociais – burgueses, camponeses, operários – à elite. Daí nasce o conceito fundamental do pensamento conservador:’ A isto que me refiro.

  9. ‘[…] que conservadorismo e conservadores no Brasil (excetuando os de boa-fé) […]’. Quem define os que são ‘de boa fé’? Sim, porque o Codigo Civil diz que a boa fé é presumida. Presunção juris tantum, onus da prova é de quem alega. Este negocio de falar qualquer coisa sobre qualquer pessoa se resolve no Forum.

  10. ‘[…] quando um cortejo carnavalesco resolve trazer em suas alegorias uma crítica aos costumes – como se não fosse da sua essência criticar as instituições […]’. Ultima moda é cortejo para puxar saco.

  11. ‘Vai daí esta tendência comum entre nós de repassar os conceitos em sua versão criada pelo lugar-comum, desprovida de qualquer profundidade histórica, filosófica ou científica.’ Na outra ponta pseudo-intelectuais utilizam ‘conhecimentos’ superficiais nestas areas para empurrar agenda ideologica. Alas, muitas vezes tratam filosofia como se fosse ciencia.

  12. Vermelhos, cujo herói é o Taxad, são extremamente a favor das medidas. Vão prometer onibus com ar condicionado e banco Recaro. Na base do ‘voce já esta pagando os tubos, por que não usar o serviço?’. Canetaço de cima para baixo e com extração na carteira.

  13. Mais: ‘a cobrança de tributos ou tarifas sobre a circulação de veículos motorizados individuais em determinadas áreas, dias e horários em decorrência de externalidades negativas;’. Ou seja, pedagio urbano. ‘a instituição de regime diferenciado de tributação em decorrência de emissões de poluentes;’. Ou seja, quem não tem grana para comprar carro novo paga. ‘a cobrança de tributos pela disponibilidade dos serviços de transporte público coletivo, inclusive para pessoas jurídicas;’. Ou seja, a mera disponibilidade de transporte publico é fato gerador de tributo.

  14. Em tempo. Vermelhos na aldeia vivem falando em ‘tarifa zero’, ‘transporte publico gratuito’. Resposta geralmente vem na base do ‘prefeitura não tem dinheiro’. Mau-caratismo responde ‘mas e se o governo federal mandar dinheiro?’. Como se o dinheiro viesse de Marte. Pois bem, aprovaram a urgencia do PL 3278/2021. Marco legal do transporte publico coletivo urbano. Outro ‘presente’ eleitoreiro. ‘Para promoção da justa distribuição dos benefícios e dos ônus decorrentes do uso dos diferentes modos e serviços de mobilidade urbana, compete ao titular dos serviços de transporte público coletivo instituir: a cobrança de tributos ou tarifas de congestionamento; […]’.

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