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A política internacional na era da incerteza organizada – por José Renato Ferraz da Silveira

Articulista explica: “ordem internacional do século XXI não é um edifício sólido”

A política internacional de 2026 já não cabe, sem perdas analíticas significativas, nas categorias herdadas do século XX. Conceitos como ordem estável, blocos relativamente fixos ou cooperação estruturante tornaram-se insuficientes para descrever a dinâmica contemporânea do sistema internacional. As ferramentas conceituais que explicaram a bipolaridade da Guerra Fria ou a estabilidade relativa do momento unipolar já não oferecem a mesma precisão interpretativa diante das transformações recentes.

O sistema internacional não entrou em colapso – mas tampouco se reorganizou em torno de um novo arranjo claro e reconhecível. Não emergiu uma nova bipolaridade plenamente definida, nem uma multipolaridade institucionalizada capaz de produzir padrões duradouros de previsibilidade. Em vez disso, observa-se a formação de um ambiente marcado por tensões persistentes, equilíbrios provisórios e ajustes contínuos.

A rivalidade entre grandes potências convive com níveis elevados de interdependência econômica e tecnológica, enquanto crises regionais assumem impactos sistêmicos cada vez mais amplos. O resultado é um sistema que permanece funcional, mas opera sob condições de instabilidade constante. A previsibilidade diminuiu sem que a estrutura internacional tenha desaparecido.

Nesse contexto, a estabilidade deixou de ser um estado relativamente consolidado e passou a assumir a forma de um processo permanentemente negociado. A manutenção do equilíbrio internacional depende menos de regras estáveis e mais de acomodações circunstanciais, frequentemente redefinidas diante de cada nova crise. O funcionamento do sistema não elimina as tensões estruturais – apenas impede que elas se transformem em ruptura generalizada.

Pode-se definir esse cenário como uma condição de incerteza organizada: o mundo não vive uma situação de desordem absoluta, mas também não dispõe de uma arquitetura internacional capaz de garantir estabilidade duradoura. Trata-se de um sistema que continua operando com relativa regularidade, ainda que sob níveis elevados de tensão e imprevisibilidade.

Talvez o traço mais distintivo da política internacional contemporânea não seja a ruptura absoluta nem a continuidade plena, mas a convivência permanente entre ordem e instabilidade. O sistema internacional segue produzindo regras, negociações e equilíbrios, mas o faz sob condições de incerteza estrutural que tornam cada acomodação necessariamente provisória.

Não se trata do retorno à lógica rígida da bipolaridade nem da persistência do momento unipolar. O mundo de 2026 parece configurar algo diferente: um sistema funcional sem estabilidade garantida, no qual as potências administram tensões sem conseguir eliminá-las.

Nesse ambiente, a estabilidade deixa de ser horizonte permanente e passa a assumir a forma de uma construção cotidiana, dependente de decisões políticas imediatas e de equilíbrios frágeis. A política internacional já não evolui por meio de grandes reorganizações claramente definidas, mas por ajustes sucessivos que evitam o colapso sem produzir uma ordem definitiva.

A ordem internacional do século XXI não é um edifício sólido – é uma estrutura mantida em equilíbrio todos os dias.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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