A fé que transforma – e a fé que performa – por Marionaldo Ferreira
“Por que tantas conversões acontecem justamente em tempos eleitorais?”

Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum assistir a figuras públicas anunciarem sua conversão religiosa, especialmente no campo evangélico. Testemunhos emocionados, declarações de “novo nascimento” e a afirmação de uma vida transformada pelo Espírito Santo passam a ocupar discursos, redes sociais e palanques. Para muitos, é um momento legítimo de reencontro com valores, propósito e espiritualidade. Para outros, levanta uma pergunta incômoda: por que tantas conversões acontecem justamente em tempos eleitorais?
O discurso pentecostal é claro e poderoso. Ao receber o Espírito Santo, a pessoa renasce. Seus erros são apagados, seu passado perde o peso, sua vida ganha um novo sentido em Cristo. Trata-se de uma promessa profunda, que acolhe, reconstrói e oferece direção. É, sem dúvida, uma das experiências mais transformadoras que alguém pode relatar – quando vivida com autenticidade.
Mas a fé, quando deslocada para o ambiente político, passa a conviver com interesses que não são espirituais. A conversão, nesse contexto, pode deixar de ser um ato íntimo para se tornar um gesto público calculado. Não se trata apenas de crer, mas de comunicar que se crê – e, principalmente, de ser visto como alguém que agora pertence a um grupo que possui grande influência social e eleitoral.
É nesse ponto que a dúvida emerge com força: estamos diante de um encontro genuíno com Deus ou de um movimento estratégico em direção às urnas?
A fé verdadeira não precisa de calendário. Ela não nasce por conveniência, nem se molda à agenda eleitoral. Ela se manifesta no tempo longo, nas escolhas difíceis, na coerência entre discurso e prática – inclusive quando não há aplauso, voto ou visibilidade. A fé autêntica constrói caráter, não apenas imagem.
Por outro lado, a fé performática é reconhecível. Ela surge em momentos oportunos, ganha forma em discursos cuidadosamente ensaiados e, muitas vezes, desaparece com a mesma rapidez com que apareceu. É uma fé que se apresenta como atalho para a confiança popular, mas que raramente resiste ao teste da consistência.
O problema não está na religião, nem na política em si. Está na instrumentalização da fé como ferramenta de poder. Quando a espiritualidade se torna moeda eleitoral, corre-se o risco de banalizar aquilo que, para milhões de pessoas, é sagrado. E, mais grave, de confundir o eleitor, que passa a julgar caráter por símbolos e declarações, não por trajetórias e atitudes.
A sociedade precisa amadurecer essa leitura. Fé não pode ser critério automático de credibilidade política. Tampouco deve ser descartada como algo irrelevante. O que importa é a coerência: a capacidade de sustentar valores ao longo do tempo, independentemente do contexto.
No fim, a pergunta permanece – e ela é menos sobre religião e mais sobre integridade: a transformação anunciada é visível na vida ou apenas no discurso? Porque a fé que realmente transforma não precisa convencer; ela se revela. E quando é verdadeira, não pede voto – inspira confiança.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





Declaração foi feita em 4 de março de 2013, em João Pessoa (Paraíba). Dilma, a humilde e capaz. “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Fonte UOL.
Ajuda da IA. ‘Em 12 de outubro de 2018, Fernando Haddad e Manuela d’Ávila, candidatos à presidência e vice pelo PT, participaram de uma missa no Jardim Ângela, periferia de São Paulo, em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. O ato foi visto como uma aproximação com o eleitorado católico durante o segundo turno.’