O espetáculo do que somos – por João Luiz Vargas
Sobre o reality: “no fim, talvez o maior jogo não esteja na casa, mas aqui fora”

Há algo de fascinante quando milhões de olhos se voltam para uma casa vigiada dia e noite. Não é apenas entretenimento, é quase um ritual coletivo. O público não assiste, ele habita. Torce, julga, acolhe, rejeita. Em tempo real, transforma desconhecidos em personagens íntimos, como se cada gesto ali dentro ecoasse alguma memória aqui fora. A tela deixa de ser barreira e vira ponte.
Mas o que mais inquieta não é o jogo, é a impossibilidade da máscara. Por mais que se tente sustentar um personagem, o tempo é um adversário implacável. Cem dias sob vigilância contínua não perdoam. As fissuras aparecem, as emoções escapam pelos cantos, e aquilo que se esconde no cotidiano ganha voz. Medos, fragilidades, alegrias genuínas. O que começa como estratégia termina como exposição.
Talvez por isso o reality seja, paradoxalmente, mais verdadeiro do que a vida que levamos fora dele. Aqui, escolhemos ângulos, filtramos palavras, editamos versões de nós mesmos. Lá dentro, não há pausa, não há bastidores. Não há como trocar de ambiente para recompor o controle. É um espelho incômodo, porque reflete o humano sem curadoria. E o que vemos nem sempre é confortável.
Não me considero um espectador desse tipo de programa, mas bastou uma televisão ligada em família para perceber o quanto ele revela sobre nós. Não apenas sobre quem está confinado, mas sobre quem assiste. Seguimos, opinamos, nos posicionamos. E, no fim, talvez o maior jogo não esteja na casa, mas aqui fora. Entre o que somos, o que mostramos e o que escolhemos enxergar no outro.
(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.





Que incrível perpectiva!!!
Que reflexão neste texto maravilhoso!!!…nos retrata as mais pura vdd.
Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻