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Quando o trabalho adoece – por Leonardo da Rocha Botega

Jornadas exaustivas, ansiedade, esgotamento mental, “sociedade do cansaço”

Nos próximos dias, o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva deve enviar ao Congresso Nacional o projeto que propõe o fim da escala 6×1. O debate sobre o tema não é novo, no próprio Congresso Nacional já existem dois projetos em tramitação que tem a mesma proposição, um da deputada Erika Hilton (Psol-RJ) e outro da deputada Daiana Santos (PC do B-RS). A novidade é o envio do projeto em regime de urgência, o que obriga a sua análise em, no máximo, 45 dias.

Desde o ano passado, o fim da escala 6×1 ganhou centralidade nos debates sobre o trabalho no Brasil. Uma pesquisa realizada em março desse ano pelo Datafolha indicou que a medida tem apoio de 71% dos(as) brasileiros(as), sendo os(as) jovens (83%) e as mulheres (77%) os segmentos que mais apoiam a redução da jornada de trabalho. Tais dados representam um crescimento do apoio em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2024, quando 64% dos brasileiros se diziam favoráveis a medida.

Entre os principais fatores que podem ser indicados como responsáveis pelo crescimento do apoio ao fim da escala 6×1 é o cansaço e, consequentemente, o adoecimento por conta do trabalho. Conforme a International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), o país é o segundo país do mundo mais afetado pelo esgotamento profissional excessivo. Cerca de 30% a 40% dos trabalhadores(as) brasileiros(as) sofrem de Síndrome de Burnout.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirma que o Brasil possuí a maior taxa de pessoas com ansiedade no mundo. Uma afirmação que encontra respaldo nos dados do próprio Ministério da Previdência Social. Em 2025, o Brasil bateu o recorde de afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Mais de 546 mil trabalhadores(as) brasileiros (as) tiveram que se afastar do trabalho por questões de saúde mental. Um crescimento de 15% em relação ao recorde anterior, ocorrido justamente em 2024.

Nos últimos anos, depressão e ansiedade superaram causas de afastamentos que historicamente eram mais comuns como, por exemplo, fraturas. Entre 2021 e 2024, os afastamentos do trabalho no Brasil por transtornos mentais cresceram 493%. Os principais fatores indicados pelos(as) trabalhadores(as) como responsáveis pelos seus esgotamentos mentais são as jornadas de trabalho exaustivas, a pressão constante, as metas inalcançáveis e a falta de limites entre trabalho e vida pessoal.

Os dados sobre saúde do(a) trabalhador(a) indicam que o Brasil é hoje o grande experimento daquilo que o filósofo Byung-Chul Han chama de “sociedade do cansaço”. Um experimento que foi acelerado com a Reforma Trabalhista de 2017 e a Reforma da Previdência de 2019. A superexploração do trabalho, que sempre foi uma das características mais marcantes do capitalismo tardio brasileiro, tem adquirido o patamar de patologia no novo mundo do trabalho desse Brasil do Século XXI.

Diante do crescimento dos adoecimentos mentais dos trabalhadores(as) brasileiros(as), lutar pelo fim da escala 6X1 não é apenas reivindicar o justo direito ao descanso. É lutar pela despatologização do trabalho no Brasil. Trabalhar tem que deixar de ser um fator de adoecimento para boa parte dos(as) brasileiros(as). Produtividade não deve ser sinônimo de adoecimento, afinal uma sociedade só é plenamente produtiva quando assume a condição de uma sociedade saudável.        

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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