“53 Domingos”: envelhecimento e fissuras emocionais – por Roselâine Casanova Corrêa
“Trama se transforma em retrato profundo e dolorido das dinâmicas familiares”

A velhice no Ocidente é vista, não raro, como um problema para a família. Para o próprio idoso, a perspectiva da finitude. A noção de presente e futuro se fecha e faz nascer um sentimento de perda da própria existência. A tendência histórica prioriza a valorização da juventude e a segregação do “velho”, embora isso esteja mudando. Tal concepção de velhice se intensifica quando a pessoa idosa é acometida de alguma doença crônica, grave ou degenerativa.
Quando isso ocorre, a família se vê, por incumbência das circunstâncias, obrigada a tomar as providências necessárias quanto aos procedimentos a serem definidos, os quais nem sempre são os mais adequados ou a preferência do “velho”.
Essa é a premissa do longa espanhol, recém chegado à Netflix, sob a direção de Francesc Gay Puig, “53 Domingos” (2026). É baseado na peça de teatro de mesmo nome, também de Cesc Gay. O título faz alusão ao período que um dos irmãos ocupou para escrever um livro, o qual não foi apreciado pelos outros dois.
Julián, o ator (Javier Cámara), Natalia, a professora (Carmen Machi) e Victor, o genro encostado no sogro rico (Javier Gutiérrez) são três irmãos com pouco em comum, que precisam se reunir para discutir sobre os próximos passos em relação à situação do pai. Julián é o anfitrião e conta com a ajuda da esposa generosa e engraçada, a enfermeira Carolina (Alexandra Jiménez), para organizar o encontro. Carol é também a narradora da trama, que trata de assunto tão delicado de forma leve, às vezes divertida. A enfermeira faz a conexão entre os personagens, aparece e desaparece, a ponto de se pensar se ela existe de fato, ou é imaginação dos demais personagens.

A trama, aparentemente simples, se transforma em um retrato profundo e dolorido das dinâmicas familiares, expondo ressentimentos, diferenças de personalidade e silêncios acumulados ao longo do tempo.
O irmão mais novo, Julián, embora aparente um humor ácido e divertido, acentuado por metáforas criativas, é frustrado profissionalmente e cheio de inseguranças, que tenta camuflar com seu humor irônico. Víctor já chega botando banca, como se tudo soubesse, sem demonstrar sequer respeito pelo irmão que o recebe. Natalia tem urgência em resolver o imbróglio, pois suspeita, com razão, que a parte chata vai ficar por conta dela, a mulher, a cuidadora por excelência. E tudo gira em torno da troca de uma lâmpada na casa do idoso, o que, por ironia, irá definir a solução.
As cenas estão centradas em um único ambiente, onde um vaso com lírios – devidamente arranjado por Carol – permite alterar o foco nas interações entre os personagens, revelando nuances emocionais e verdades desconfortáveis, que por vezes permanecem ocultas entre os irmãos.
Muito mais do que discutir o destino de um pai idoso, “53 Domingos” aborda tudo que ficou recalcado no subconsciente: ressentimentos antigos, expectativas frustradas e a dificuldade de comunicação entre pessoas que deveriam ser próximas.
Uma história, afinal, acerca do que não é dito!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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