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Queime todas as minhas cartas – por Roselâine Casanova Corrêa 

“Cada um exerce sua vingança da melhor forma que sabe conduzi-la!”

Pessoas excepcionais podem ser cruéis e vis. Sobretudo tratando-se de um triângulo amoroso, de pessoas do mesmo círculo social e intelectual. O filme sueco “Queime todas as minhas cartas”, no original “Bränn Alla Mina Brev” (2022), parte dessa premissa e foi dirigido por Björn Runge, baseado no livro de mesmo nome, de Alex Schulman (2018).

Em princípio, Schulman relata o tumultuado casamento de seus avós maternos. O enredo consiste na abordagem da vida pessoal dos escritores suecos Sven Stolpe (Bill Skarsgård), Karin Stolpe (Asta Kamma August) e Olof Lagercrantz (Gustav Lindh) e pode ser visto no Prime Vídeo. O longa teve reconhecimento sobretudo nas premiações cinematográficas da Suécia, como o Guldbagge Awards (o “Oscar” sueco).

O enredo enfoca o triângulo amoroso entre a avó de Schulman, a tradutora/escritora Karin Stolpe, seu marido, o influente escritor sueco Sven Stolpe, e o jovem escritor Olof Lagercrantz, com quem Karin teve um caso apaixonado e secreto, na década de 1930. Talvez não tão secreto assim, já que era de conhecimento do marido.

Karin e Sven viveram juntos até a morte de Sven (1996). Sven e Olof tornaram-se arqui-inimigos e tentaram destruir um ao outro durante todas as suas vidas. Olof faleceu em 2002, seguido meses depois, por Karin. Essas informações são de conhecimento público, contudo os meandros desse caso vieram à tona a partir da investigação de Alex Schulman e a consequente publicação de seu livro, em 2018.

A narrativa alterna três linhas temporais (tanto no livro, quanto no filme). A década de 1930 aborda o triângulo amoroso; os anos de 1980 as memórias de infância de Schulman, passando verões com seus avós maternos, quando observava uma tensão opressiva criada pelo avô; e, por último, a investigação do neto, por meio de cartas, diários e documentos. Isso tudo para entender sua própria identidade e temperamento, por vezes violento.

Sven Stolpe foi um escritor nórdico brilhante, na mesma medida que possuía um temperamento cruel e vingativo. Não cogitou separar-se da esposa infiel, porém não a perdoou e a manteve psicologicamente cativa a ele por toda a vida. Ancorado em um temperamento frio e distante, cometendo todo o tipo de agressão emocional, controle e desvalorização possível sobre a esposa. Planejou ações para amedrontar e/ou controlar Karin. Ela aparentava aceitar, como forma de “recompensar” a traição. Mas sua presença era também a prova do adultério.

A trama possui todos os pressupostos para uma leitura psicanalítica dessa relação doentia e dependente. Mas nem o autor do livro, tampouco o diretor do longa optaram por essa via. Preferiram tratar todo o sofrimento do casal como um trauma intergeracional e como isso pode interferir e afetar seus descendentes décadas depois.

As atuações são contidas, porém intensas, os diálogos econômicos, contudo precisos, ancorados por um figurino elegante e fluído, sob uma fotografia que transita entre paisagens bucólicas e corredores hospitalares. As cenas dentro da casa são escuras e em tons marsala escuro… como o sangue.

É de se perguntar porque ela permaneceu, envergando um olhar de submissão ao marido traído, ao mesmo tempo que o lembra o tempo todo que nunca foi feliz. E, claro, há a materialidade das cartas. Cada um exerce sua vingança da melhor forma que sabe conduzi-la!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve neste site, sobre cinema, às quintas-feiras.

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