A imprensa e os problemas que tiram votos e o sono de Flávio e Lula – por Carlos Wagner
“Quem molda a opinião pública é o repórter que faz a cobertura diária...”

Qual será o peso, na atual campanha para a Presidência da República, da ausência nos palanques da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos? Cumprindo pena de 27 anos de prisão por seu envolvimento em uma tentativa de golpe de estado, Bolsonaro indicou para substituí-lo na corrida presidencial o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos.
Contrariando todas as previsões, o ex-presidente conseguiu transferir o seu prestígio político para o filho, que atualmente está empatado nas pesquisas de intenção de voto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição. Usando uma expressão dos colegas que fazem a cobertura esportiva, a campanha ainda “não entrou em campo”.
Por enquanto, os movimentos acontecem nos gabinetes, no plenário do Congresso e nos noticiários. O “bicho vai pegar” na hora que começarem a propaganda eleitoral no rádio e na TV, os debates entre os candidatos, os discursos nos palanques e o corpo a corpo com o eleitor.
É justamente nessa hora que a experiência do ex-presidente de falar para as multidões fará falta para Flávio. Bolsonaro fala com naturalidade aquilo que todos os seus eleitores querem ouvir. Vou citar uma ocasião em que ele usou o seu “feeling” político. Abril de 2016. Bolsonaro era um discreto deputado federal pelo Rio de Janeiro que estava na Câmara havia já três décadas. Sempre que queria aparecer nas manchetes, ele contava uma história fantástica para um repórter e conseguia um espaço na mídia.
Na ocasião, acontecia na Câmara dos Deputados a votação da abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Roussef (PT), 78 anos. Um total de 367 deputados votaram a favor, 137 contra e houve sete abstenções. A votação foi nominal. Cada deputado era chamado ao microfone e pronunciava seu voto, geralmente acompanhado de algumas palavras para marcar sua posição. Quando chegou a sua vez, Bolsonaro afirmou: “Perderam em 1964 (referindo-se à esquerda). Perderão agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve… Contra o comunismo, pela nossa liberdade, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.
E acrescentou: “Pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo, e por Deus acima de todos, o meu voto é sim!” Claro que o ambiente era totalmente desfavorável à esquerda, em especial a Dilma. Mesmo assim, ao ouvir Bolsonaro achei que ele tinha passado dos limites e iria levar uma grande vaia. Por quê? Simples.
Quem estava ali não era qualquer pessoa. Era a Dilma que foi presa política e torturada durante o regime militar (1964 – 1985). Na época, ela tinha 22 anos e ficou presa durante três anos, sendo submetida a sessões de tortura – a história toda é contada em reportagens e livros. Lembrado por Bolsonaro, o coronel Ustra (1932 – 2015), o major Tibiriçá, como ficou conhecido nos porões do regime, é o símbolo dos torturadores de 64.
Ao contrário do que eu acreditava, Bolsonaro foi muito aplaudido. Começava ali a sua caminhada rumo à candidatura para presidente em 2018. As chances de ser eleito, na época, eram mínimas. Mas uma série de acontecimentos inesperados, todos documentados pela imprensa, acabaram elegendo Bolsonaro.
Olhando as lideranças políticas que gravitam ao redor de Flávio, um dos mais experientes e astutos articuladores era o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI), 57 anos. Mas ele caiu em desgraça devido o seu envolvimento com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, 43 anos, que cumpre prisão preventiva por ter dado um prejuízo de R$ 50 bilhões a seus clientes e ao sistema bancário nacional com operações fraudulentas.
Ciro é um dos líderes do Centrão, o grupo de partidos que sempre está no poder, não interessa quem seja eleito presidente da República. Ele deverá ser substituído no grupo político próximo de Flávio por Silas Malafaia, 67 anos, pastor evangélico neopentecostal da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Malafaia é um antigo “orientador religioso” do ex-presidente Bolsonaro. Andou afastado de Flávio, mas acabaram se reaproximando.
Mas ele tem um problema. Só fala para os evangélicos, que sozinhos não têm votos para eleger Flávio. Por enquanto, é preciso esperar as coisas se acomodarem para saber como Flávio substituirá Ciro Nogueira. O problema deverá ser resolvido em duas ou três semanas. O problema de Lula é diferente. Político experiente, ele sabe como contar uma história e sobreviver às “rasteiras” que fazem parte do jogo político, como a rejeição da indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, 46 anos.
Foi a primeira vez desde 1894 que um nome indicado pelo presidente da República para o STF é recusado pelo Senado. A rejeição foi articulada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) – matérias na internet. O problema de Lula é que até as urnas serem abertas, em outubro, ele é o presidente do Brasil. Portanto, responsável pela administração do país.
Não é novidade para ninguém, muito menos para os ministros que gravitam ao redor do presidente, que existem problemas na comunicação social do governo. A assessoria de imprensa é lenta, confusa e mal organizada. Um dos motivos é porque é formada por profissionais concursados (que são minoria), contratados, terceirizados e ligados a partidos.
Vou citar um resultado prático dessa lentidão da assessoria de imprensa do governo federal. Seguidamente, os noticiários das emissoras de rádio de Porto Alegre (RS) ficam dias e dias batendo na tecla da falta de vacinas nos postos de saúde, principalmente contra a gripe e a Covid. Por curiosidade, fiz algumas ligações para descobrir o motivo da falta das vacinas.
Fui informado que não havia problemas de falta de medicação por parte do governo federal. Mas de logística, envolvendo os governos federal, estadual e municipal. Uma situação normal em se tratando de um país continental como o Brasil. Também conversei com os repórteres. Que reclamaram da lentidão do governo para responder às informações solicitadas pelos jornalistas. Não é um problema novo. Trabalhei em redação de jornal por 35 anos. Saí em 2014 e já existia essa demora para atender as demandas dos repórteres por parte das assessorias de imprensa governamentais.
O chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, 68 anos, sabe dos problemas de lentidão nas assessorias de imprensa do governo federal. Mas não tem como resolver. Sua prioridade são os grandes problemas e como a história deles é contada para a opinião pública. Já escrevi e falei em palestras muitas vezes sobre o que vou dizer.
Quem molda a opinião pública é o repórter que faz a cobertura diária dos noticiários. Deixar um repórter sem informação pode ser apenas um detalhe em meio à complexidade do jogo político. Mas como a imprensa tem afirmado: a se confirmar o atual quadro da disputa, as eleições presidenciais serão decididas no detalhe. E cada voto conta, né?
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(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.
SOBRE O AUTOR: Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.





Resumo da opera. Mais uma medida eleitoreira, caiu o tributo das blusinhas. Via medida provisória, pode voltar depois das eleições. Gastança estéril do governo, o tranco ano que vem não vai sair barato.
‘ E cada voto conta, né?’ Para escolher quem será eleito, não para resolver problemas. Alas, algum imbecil andou largando por ai um ‘importante não é resolver problemas, é conversar e formar consenso’.
‘Deixar um repórter sem informação pode ser apenas um detalhe em meio à complexidade do jogo político.’ Para o reporter uma ofensa pessoal. Detalhe, informação incompleta também é problema. Mais versões, boatos, enxurradas de opiniões furadas, ‘especialistas’, gente que não sabe do que está falando. No final todas as ‘informações’ desconexas são ligadas de alguma forma (humano tem fetiche por causa e efeito) mais ou menos coerente e os ‘achismos’ montam uma teoria da conspiração. Que se não for muito disparatada ‘cola’.
‘Quem molda a opinião pública é o repórter que faz a cobertura diária dos noticiários.’ Na era mesozoica era assim. Agora existe bombardeio de informações, multiplicidade de canais e, cereja do bolo, as pessoas falam muito mais umas com as outras via zap. Absurdamente mais complexo do que na epoca da informação concentrada em poucos lugares.
‘[…] sabe dos problemas de lentidão nas assessorias de imprensa do governo federal.’ Cacoete do pessoal da comunicação social. Acham que o problema é a informação. Faltam vacinas, mas o problema não é a falta do imunizante, é a forma como a informação é apresentada. Cortina de fumaça. Se corrigir a ‘noticia’ continua faltando vacinas, mas a culpa é dos outros. Tudo certo!
‘Fui informado que não havia problemas de falta de medicação por parte do governo federal.’ Kuakuakuakuakua! A culpa é sempre dos outros! La garantia soy yo. Kuakuakuakuakua! Problema de se achar muito esperto e os outros muito trouxas. Quem distribui as vacinas do SUS? Governo federal. Faltou no RS, em SP e em Natal no Rio Grande do Norte. Governadora Fatima Bezerra do PT.
Ou seja, havia mulheres negras com credenciais melhores do que imBessias e Pacheco. Problema é colocar uma ‘escoteira’ no lugar errado, certamente iria dar m. Para alguns em BSB.
Donde surge o movimento ‘não deu imBessias indica uma mulher negra’ na base do ‘quero ver rejeitar’. Não vi o problema, ja tinha sido rejeitado um homem branco, hetero e evangelico. Obviamente as ‘sugestões’, logo não seria indicação do presidente e sim da militancia, so englobavam militantes de esquerda. Maioria com doutorado em direito, algumas no exterior, na area de direitos humanos. A probabilidade de indicar uma Eliana Calmon seria grande, um problema para a classe politica. Sim, STF tem bastidores.
‘O problema de Lula é que até as urnas serem abertas, em outubro, ele é o presidente do Brasil. Portanto, responsável pela administração do país.’ Independente do juizo de valor, Senado tem atribuição de aprovar ou rejeitar. Se o presidente pudesse indicar diretamente, não é o caso, não haveria sabatina e votação no Senado. Alas, Alcolumbre queria Pacheco. Que também não tem notavel saber juridico.
Cabe um parenteses. Decadas atras a Capes andou batendo em alguns programas de doutorado. Exemplo? Engenharia de produção. Gente da enfermagem, do direito, da zootecnia, etc. Criatura por um motivo ou outro, até falta de aceite, não conseguia fazer doutorando num programa de sua area. Mas a tese, apesar de ser na engenharia de produção, era no campo original (enfermagem, zootecnia, direito). Convidavam membro externo para compor a banca ( doutor(a) em enfermagem, zootecnia, direito) e só alegria. Acabaram, em certa medida, com isto. Pulularam então ‘programas interdisciplinares’. O balaio de gatos mudou de lugar. Para a Academia esta enjambração ‘esta tudo certo’.
‘[…] a rejeição da indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, 46 anos.’ Estadao publicou editorial ‘Senado tem o dever de rejeitar Messias’. ‘Sem notavel saber juridico e trajetoria marcada por episodios politicos lamentaveis {…]’. Todo mundo sabe que saber juridico dele é limitado. Tem doutorado em ‘Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional’ pela UnB.
Ciro Nogueira é do Piaui. Em 2022 foi investigado pela PF por suposto recebimento de propina de Joesley Batista para garantir apoio do partido a reeleição em 2014 de Dilma, a humilde e capaz. Já apoiou Rato Rouco e Egeaga também. O rol de rolos dele é extenso. Se for colar o Centrão num candidato só vai mexer num vespeiro. Se não houvesse gato na tuba o PT estaria deitando e rolando.
‘É justamente nessa hora que a experiência do ex-presidente de falar para as multidões fará falta para Flávio.’ Chute. Filho 01 herda os ‘crentes’, mas não afasta muitos dos ‘ateus’.
“Quem molda a opinião pública é o repórter que faz a cobertura diária…”. Pesquisa Real Time Big Data. 52% dos entrevistados não confia na imprensa. Pesquisas são naquela base, podem estar erradas, mas é o que se tem. O share das tvs abertas esta pouco acima de 50%. Radios não estão muito melhores, Eldorado de SP recentemente fechou as portas. TV a cabo? Em 2014 tinha mais de 19 milhões de assinantes. Em 2025 tinha 7,6 milhões. Por isto gostam do ‘qualitativo’, podem escrever/falar qualquer coisa. Que não sobrevive aos numeros.