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Educação Especial entre o que a escola deveria ser e o que é – por Demetrio Cherobini

“A escola real não é uma entidade à parte (...): é componente da sociedade...”

Muitos intelectuais criam suas teorias sobre inclusão partindo de ideias sobre o que a escola deveria ser e não sobre o que ela de fato é. São reflexões calcadas mais em desejo e boas intenções do que em análises concretas da realidade.

Por exemplo: a professora da USP Maria Cristina Kupfer, psicóloga e psicanalista, defendeu em entrevista recente a concepção de que a educação “é terapêutica” e “trata psicologicamente” a criança na escola. Na sua opinião, essa capacidade de estruturação subjetiva por si só daria respaldo à escola para fazer a inclusão.

É verdade que a escola é um lugar de constituição psíquica da criança e que o trabalho escolar, mais do que meras técnicas de ensino, envolve formas de humanização, socialização e inserção simbólica. Mas seria a educação de fato terapêutica e a escola regular positiva em todos os casos? Aqui está o problema que merece atenção.

A escola real não é uma entidade à parte em relação ao mundo: é um componente da sociedade e compartilha muitos dos seus problemas. O que acontece no nível “macro” da coletividade repercute no âmbito “micro” das instituições: conflitos, dilemas, preconceitos, antagonismos, disputas, perturbações, mal-estar, percalços de todo tipo.

Não obstante, a escola é um local de trabalho e, sobretudo, de formar para o trabalho. Os que ensinam estão trabalhando e os que aprendem o fazem na perspectiva de virem a trabalhar um dia. O mundo do trabalho é, portanto, para a escola, a grande referência e o plano de fundo determinante de suas ações.

Um grande número de pesquisas confirma que, antes de serem terapêuticos, escola e mundo do trabalho são, muitas vezes, geradores não de estabilização subjetiva, mas de sofrimento psíquico. Isso se deve ao fato de que suas práticas comuns e cotidianas são pautadas em ordenamentos, padronização, críticas, comparações, cobranças, fomento de competitividade, desempenho, prazos e metas de produtividade – justamente, os traços causadores de complicações na condição íntima de muitos.

Esses elementos e situações costumam vir acompanhados de certa carga de estresse, que às vezes se torna maior do que a pessoa pode suportar. Por serem estressantes, o trabalho e a escola se tornam, comumente, severos, cansativos, frustrantes, hostis e, no limite, insalubres. Sim, é preciso que se diga, contra a opinião romantizada: a escola é, muitas vezes, um lugar tóxico para seus frequentadores.

Para comprovar isso, pode-se recorrer às inúmeras pesquisas existentes sobre conflitos na escola e adoecimento de docentes e estudantes. Ressalte-se que a fragilidade da condição de saúde de certas crianças com necessidades especiais as torna bastante sensíveis e vulneráveis a ambientes com alta carga de estímulos sensoriais e pressões.

Vale a pena mencionar, ainda, a notória precariedade e carência de recursos materiais e humanos das instituições de ensino – especialmente públicas -, que agravam a situação de quem aí trabalha e estuda. Por que, então, diante dos fatos, idealizar e fetichizar a escola regular, como se fosse uma panaceia em termos de formação humana?

Nesse contexto, a própria educação especial não dá conta das suas muitas tarefas atribuídas pelo Estado, como “eliminar barreiras” pedagógicas, atitudinais, arquitetônicas etc. E não o faz pelo motivo de que o próprio Estado é uma barreira que age para manter a ordem social desigual vigente, deixando os mais humildes e menos favorecidos subalternizados e em segundo plano.

O planejamento educacional não deve, por isso, idealizar as escolas, nem desconsiderar, por princípio, alternativas a ela. Refletir sobre isso não é discriminar, mas sim envidar esforços verdadeiros para uma formação de qualidade – portanto, para além da mera formalidade – das pessoas com necessidades especiais, com saúde, dignidade, aquisição de conhecimentos, apropriação cultural e inserção consciente na sociedade.

(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSC e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.

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18 Comentários

  1. Resumo da opera. Nada de novo debaixo do sol. ‘O planejamento educacional não deve […]’. Como disse o filosofo Mike Tyson, todo mundo tem um plano até levar o primeiro soco na boca.

  2. ‘[…] o próprio Estado é uma barreira que age para manter a ordem social desigual vigente, deixando os mais humildes e menos favorecidos subalternizados e em segundo plano.’ Resposta é sempre ideologica. Como se a classe media não estivesse em segundo plano e não fosse obrigada a pagar grande parte da conta.

  3. Interessante, os Marines ianques tem esta mentalidade. ‘São treinados para “se virar” através de uma mentalidade de extrema adaptabilidade, engenhosidade e resiliência, frequentemente descrita como improvisar, adaptar-se e superar em qualquer ambiente.’ Porque num contexto de combate não tem como mentir, é matar ou morrer.

  4. ‘Por que, então, diante dos fatos, idealizar e fetichizar a escola regular, como se fosse uma panaceia em termos de formação humana?’ Virou chavão. Para não ficar sem ter o que dizer mencionam a ‘educação’. Transito, violencia (especialmente contra mulheres), finanças, politica. Um catatau de conteudos e 800 horas-aula por ano distribuidas em 200 dias letivos. Mente-se que esta tudo certo senão cai o céu por cima.

  5. ‘Vale a pena mencionar, ainda, a notória precariedade e carência de recursos materiais e humanos das instituições de ensino – especialmente públicas […]’. Bem vindo ao Brasil. Como estão as emergencias dos hospitais publicos em POA? E no HUSM?

  6. ‘Ressalte-se que a fragilidade da condição de saúde de certas crianças com necessidades especiais as torna bastante sensíveis e vulneráveis a ambientes com alta carga de estímulos sensoriais e pressões.’ Ressalta-se que a inclusão não ocorre num lugar flutuante entre o céu e a terra. E num grupo. Numa sala de aula com trinta ou quarenta outros(as). Que merecem atenção e precisam aprender também.

  7. ‘[…] a escola é, muitas vezes, um lugar tóxico para seus frequentadores.’ Generalização sem pé nem cabeça.

  8. ‘[…] antes de serem terapêuticos, escola e mundo do trabalho são, muitas vezes, geradores não de estabilização subjetiva, mas de sofrimento psíquico.’ Logo ninguém mais deve estudar ou trabalhar.

  9. ‘[…] Isso se deve ao fato de que suas práticas comuns e cotidianas são pautadas em ordenamentos, padronização, críticas, comparações, cobranças, fomento de competitividade, desempenho, prazos e metas de produtividade […]’. Quando o homem da caverna saia para caçar e não conseguia nada passava fome.

  10. ‘Os que ensinam estão trabalhando e os que aprendem o fazem na perspectiva de virem a trabalhar um dia.’ Linha de montagem fordiana. Another brick in the wall.

  11. ‘[…] conflitos, dilemas, preconceitos, antagonismos, disputas, perturbações, mal-estar, percalços de todo tipo.’ Inteligencia artificial e robotica no futuro acabarão com tudo isto.

  12. O que aconteceu? Imprensa vermelha acefala pegou como ‘exemplo’. Secretario ‘capacitista’ pediu demissão e esta com o MP em cima. Um monte de gente ‘lacrou’ e faturou midiaticamente em cima. Vão encontrar um(a) secretario(a) que fale o que esta turma quer ouvir. Recado é ‘não fale dos problemas enfrentados, faça dar certo com o que tem ou minta’. Sovieticamente (la deu certo?). Simples assim.

  13. ‘[…] um professor que não quiser dar aula para uma criança com deficiência pode simplesmente não dar. É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção. Nem mesmo se trabalhasse num setor privado. É discriminação.’ Rebateu uma vereadora. PSOL. 21 anos. Estudante. Servidor publico tem estabilidade. No setor privado todo mundo sabe onde vai trabalhar. O combinado não sai caro. Lembrando que não existe pena de trabalhos forçados para delinquentes no Brasil, a CF88 proibe.

  14. Relatou experiencia pessoal da epoca da faculdade de educação fisica. Trabalho com deficiente fisico. ‘“Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: ‘Se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui’. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”. Acrescentou: ‘“A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso chegar e obrigar um profissional e falar assim: ‘Você vai trabalhar lá’”.

  15. A criança em questão é do espectro autista. No inicio da aula havia muito barulho. Ela foi para um canto e tapou os ouvidos. Pessoal estava capacitado para lidar com a situação? Aparentemente não.

  16. ‘Na sua opinião, essa capacidade de estruturação subjetiva por si só daria respaldo à escola para fazer a inclusão.’ O problema, como muitos no pais, é o ‘como’. Vide o secretario de esporte de São Caetano do Sul. ‘“Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. […] A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda? […] nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”. Ou seja, para a burocracia estatal é complicado conseguir fralda para uma criança.

  17. ‘[…] Maria Cristina Kupfer, psicóloga e psicanalista, defendeu em entrevista recente a concepção de que a educação “é terapêutica” e “trata psicologicamente” a criança na escola.’ Cacoete da Academia. Para quem só tem um martelo na mão todo problema é prego. Psicanalise é pseudo ciencia. Tem uma enfase inexplicavel na Tupiniquimlandia.

  18. ‘Muitos intelectuais criam suas teorias sobre inclusão partindo de ideias sobre o que a escola deveria ser e não sobre o que ela de fato é.’ ‘Intelectuais’ majoritariamente Vermelhos. Burocratas que passam a vida esfregando a barriga na mesa dentro do ar condicionado. Produzindo textos. Eventualmente palestrando.

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