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O astro no labirinto: a infância sob os holofotes – por Amarildo Luiz Trevisan

Filme sobre Jackson e o que “salta aos olhos do educador”. E “não é o sucesso”

Quem assiste à cinebiografia de Michael Jackson, recém-estreada nos cinemas brasileiros, depara-se com um primor estético. O filme foca na performance e esbanja efeitos para recriar teias de videoclipes e espetáculos que definiram o século XX.

O filme impressiona pela força estética. A música, a dança, os figurinos e os efeitos visuais recriam momentos marcantes da carreira do artista. Vemos o brilho dos palcos, a precisão dos gestos, a força dos videoclipes e a comoção provocada por suas apresentações. Tudo parece grandioso. Tudo parece calculado para lembrar que Michael Jackson foi, de fato, um dos maiores nomes da cultura pop mundial.

No entanto, sob o brilho da carreira solo ou o compasso do Jackson Five, o que salta aos olhos de um educador não é o sucesso, mas os rastros materiais de uma infância interrompida. Há uma pergunta que atravessa o espetáculo. Que infância coube dentro daquele brilho? Antes do astro, havia uma criança. Antes da performance, havia um menino. Antes do sucesso mundial, havia uma casa marcada por disciplina rígida, pressão familiar e exigência de perfeição.

A figura do pai, Joe Jackson, aparece como presença decisiva nessa formação. Ele foi responsável por organizar musicalmente os filhos e conduzi-los ao sucesso. Mas essa condução, segundo diversos relatos já conhecidos, ocorreu sob o peso do controle, da punição e de uma autoridade dura demais para uma infância ainda em formação.

A criança exposta cedo demais ao mundo adulto perde algo que não se recupera facilmente. Perde o direito ao intervalo. Perde o tempo da brincadeira. Perde a proteção necessária para crescer sem ser imediatamente transformada em produto, imagem, promessa ou rendimento. O palco, nesse caso, não foi apenas espaço de consagração. Foi também uma espécie de vitrine. E toda vitrine ilumina, mas também aprisiona.

Sob a ótica da filósofa Hannah Arendt, o que ocorreu foi uma violação da função protetora do mundo privado. Arendt argumentava que a criança, por ser “nova” no mundo, precisa de um lugar seguro para frutificar antes de ser lançada à luz impiedosa da esfera pública e da publicidade. Michael nunca teve esse intervalo formativo.

No meu artigo recente, “Educação em trânsito: a escola entre ruínas, labirintos e passagens”, publicado na revista Cadernos de Pesquisa (UFMA), discuto, amparado em Arendt e Walter Benjamin, como a escola necessitaria atuar justamente para evitar esses destinos trágicos. A escola não pode ser um mero prolongamento do autoritarismo familiar (o mundo privado), nem um aparato de monitoramento e performance a serviço do mercado (o mundo público).

Ela poderia ser, metaforicamente, como as passagens parisienses de Benjamin: um espaço de transição e travessia. Se Michael Jackson tivesse tido uma escola que funcionasse como esse “território de possibilidades”, talvez pudesse ter transitado entre a tradição e a inovação sem ser devorado pela aceleração irrefletida da fama. A escola, quando cumpre sua função, oferece à criança um tempo próprio. Um tempo de travessia. Um tempo em que ela pode experimentar o mundo sem ser esmagada por ele.

Enquanto Joe Jackson via apenas o “progresso” linear do sucesso, uma visão dialética da vida do astro revela as ruínas de um adulto emocionalmente fragilizado. Michael tornou-se um flâneur perdido no próprio labirinto de Neverland, tentando reviver o “não vivido” de uma infância que lhe foi roubada pela exposição precoce.

A história de Michael Jackson, vista por esse ângulo, é dolorosamente pedagógica. Ela mostra o que pode acontecer quando a criança é retirada cedo demais do abrigo da infância e colocada diretamente sob os refletores da sociedade. O sucesso veio, sem dúvida. Mas veio acompanhado de marcas profundas. A perfeição artística parece ter cobrado o preço da fragilidade humana. O menino que encantou multidões talvez tenha passado a vida procurando, por trás das luzes do palco, uma infância que lhe escapou.

A cinebiografia de Michael Jackson, ainda que envolta em música, dança e espetáculo, nos devolve uma pergunta essencial: que tipo de mundo estamos oferecendo às nossas crianças? Um mundo que as acolhe e as prepara, ou um mundo que as consome antes mesmo que possam compreender o próprio caminho? Talvez a grande lição não esteja apenas nos passos de dança do astro, mas no silêncio do menino que existia antes deles. Um silêncio que a educação precisa aprender a escutar.

Sua história é a confirmação de que, sem o estranhamento e a suspensão que a escola deve garantir, o ser humano não atravessa o mundo – é consumido por ele.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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10 Comentários

  1. Resumo da opera. Dinheiro publico é gasto nestas abobrinhas ideologicas. Truquezinho Vermelho, ‘cata-se o milho’ que confirma a ideologia. Tudo que contraria é deixado de lado. Generaliza-se, as complexidades são jogadas fora. Um dos motivos pelos quais é só cruzar os braços e esperar, se resolve sozinho.

  2. ‘O sucesso veio, sem dúvida.’ Ao contrario do que os Vermelhos pregam tudo na vida tem seu ‘preço’. Como disse Chorão ‘cada escolha é uma renuncia’.

  3. ‘Se Michael Jackson tivesse tido uma escola […] talvez pudesse ter transitado entre a tradição e a inovação sem ser devorado pela aceleração irrefletida da fama.’ Se tivesse sido atropelado por um carro ainda jovem não estariamos abordando o assunto. Elle Fanning teve ‘homeschooling’ via avó até 9 anos de idade. A irmã Dakota foi por um periodo maior. Emma Watson. Ryan Gosling, começou a atuar aos 12, Ryan Gosling sofria bullying e tinha TDAH. A mãe tirou da escola e ensinou em casa durante um ano, resolveu o problema.

  4. ‘[…] publicado na revista Cadernos de Pesquisa (UFMA),[…]’. Tudo muito ‘cientifico’. Como se a filosofia não estivesse inserida num contexto e fosse atemporal. Não aconteceu globalização e não aconteceram mudanças na sociedade por conta da tecnologia.

  5. ‘A escola não pode ser um mero prolongamento do autoritarismo familiar (o mundo privado), nem um aparato de monitoramento e performance a serviço do mercado (o mundo público).’ Michel Foucault, anticapitalismo.

  6. ‘[…] como a escola necessitaria atuar justamente para evitar esses destinos trágicos.’ Escola como panacéia para todos os males do mundo. Escola como semente da utopia. Baboseira ideologica.

  7. Porém existem inumeros artistas que não tiveram problemas quando chegaram a vida adulta. Jodie Foster, Ron Howard, Natalie Portman, Kirsten Dust, Elle Fanning, Dakota Fanning (a irmã), Jake Gyllenhaal, Scarlett Johansson, Mila Kunis, o elenco principal de Harry Potter. A lista não é pequena. Outros fatores influem, como a separação dos pais, brigas por dinheiro, etc.

  8. ‘A criança exposta cedo demais ao mundo adulto perde algo que não se recupera facilmente.’ Lindsay Lohan, Britney Spears, Justin Bieber, Shia LaBeouf, Drew Barrymore, Macaulay Culkin, Miley Cyrus, Judy Garland. A lista é enorme.

  9. ‘Mas essa condução, segundo diversos relatos já conhecidos, ocorreu sob o peso do controle, da punição e de uma autoridade dura demais para uma infância ainda em formação.’ Existe contexto e para variar ficou de fora. Porque não cabe na ‘narrativa’. Mãe de Michael Jackson era Testemunha de Jeová. O pai, ex-boxeador, era operador de guindaste. Estereotipo, eram todos musicos e tinham emprego para pagar as contas. Eram pobres. O pai de Michal Jackson, ao que tudo indica, criou os filhos como foi criado pelo pai que era professor. Alas, nasceu no inicio da Grande Depressão. Não justifica, mas explica.

  10. Decada de 70. Um dos desenhos animados que era exibido na televisão era ‘Jackson 5ive’. Michael era só o caçula dos irmãos. Alas, naquela epoca também havia ‘Speed Racer’, um anime. E ‘Ultraman’, serie japonesa. E, produção ianque, ‘Os cavaleiros da Arabia’, dentro dos ‘Banana Splits’. Que tinha os buggies, sonho de consumo.

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