O que vale um ser humano sem sonhos? – por Amarildo Luiz Trevisan
“Pobreza mais perigosa talvez não seja a falta de dinheiro. É a falta de futuro”

Henry Ford, o engenheiro que revolucionou a indústria e a forma como nos movemos, certa vez afirmou: “Um homem pobre não é aquele que não tem um tostão, mas sim aquele que não tem sonhos”. Ao ler essa frase em uma notícia recente, senti um estalo. Discordo apenas de um detalhe no texto que a acompanhava: a ideia de que o sonho é o motor do sucesso “às vezes”. Na verdade, o sonho é o motor quase sempre. Sem o horizonte da imaginação, a realidade é apenas uma repetição árida de gestos.
No entanto, o otimismo de Ford choca-se violentamente com outra notícia do mesmo dia. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), do IBGE, revelam um cenário desolador: três em cada dez estudantes, entre 13 e 17 anos, sentem-se tristes “sempre ou na maioria das vezes”. Pior: uma proporção semelhante admite já ter sentido vontade de se ferir propositalmente. Onde foram parar os sonhos dessa juventude?
Talvez a resposta more na análise implacável de Franco Berardi. Para o filósofo italiano, o capitalismo financeiro e a aceleração tecnológica não apenas mudaram a economia, mas colonizaram o nosso inconsciente. Enquanto o extrativismo devora o planeta e o caos geopolítico nos empurra para um rearmamento histérico, o cérebro humano parece ter entrado em “modo de segurança”. Fomos submetidos a um bombardeio neurológico tão severo nos últimos 30 anos que a consequência é o que Berardi chama de degeneração mental.
Não à toa, o dicionário Oxford elegeu “brain-rot” (podridão cerebral) como a expressão do ano em 2024. É o símbolo perfeito da nossa era: uma mente que consome sem digerir, que recebe estímulos sem gerar desejo. Berardi é categórico ao dizer que a batalha pela mente humana, travada nas últimas décadas, teve um vencedor: o capital. E o preço da vitória foi a destruição da nossa capacidade de imaginar futuros.
Venceu porque conseguiu ocupar o desejo. Venceu porque transformou liberdade em desempenho. Venceu porque convenceu milhões de pessoas de que fracassar é sempre culpa individual, nunca sintoma de uma engrenagem adoecida.
Essa “podridão” não é apenas metafórica; ela é mensurável. Estudos recentes, como o realizado pela Microsoft, indicam que o tempo médio de atenção plena do ser humano caiu de 12 segundos, no ano 2000, para apenas oito segundos na era digital. Para se ter uma ideia do abismo, vou utilizar uma metáfora que, na verdade, é um mito: o peixinho dourado – símbolo clássico da memória fugaz – consegue manter o foco por nove segundos. Fomos superados por um peixe?
Hoje, temos uma geração que aprendeu mais palavras com algoritmos e máquinas do que com o calor da voz humana. O resultado é um isolamento banhado em depressão e uma raiva latente que, por vezes, transborda em uma demência furiosa e homicida. Perdemos a capacidade de criar “novos cenários” para enfrentar problemas existenciais, como a crise climática.
Na prática, isso significa que a mente conectada da nova geração não é mais treinada para a profundidade, mas para o salto. Se algo não captura o interesse em oito segundos, o dedo desliza para o próximo vídeo, a próxima notificação, o próximo estímulo. Como alguém pode articular um sonho complexo, uma utopia ou uma solução para o colapso ambiental se sua janela de concentração é mais curta do que o tempo de um suspiro? Sem foco, o pensamento se fragmenta; e o pensamento fragmentado é incapaz de sustentar qualquer projeto de futuro.
Para Berardi, em sua entrevista recente à Folha de S. Paulo, o diagnóstico é terminal: a humanidade não sobreviverá a este século.
Mas será que o capitalismo venceu mesmo?
De um lado, Ford nos diz que o sonho é a nossa maior riqueza. Do outro, Berardi sugere que o sistema em que vivemos corroeu a “fábrica” onde esses sonhos são produzidos. Entre a potência da vontade e o colapso da psique, onde nos situamos?
Porque, no fim, a pobreza mais perigosa talvez não seja a falta de dinheiro. É a falta de futuro.
E uma geração sem futuro não precisa apenas de tratamento, disciplina ou motivação. Precisa ser escutada.
Não cabe a mim apontar o caminho. Quem me lê certamente já conhece a minha aposta. Deixo, então, a questão ao leitor: ainda somos capazes de sonhar um mundo que valha a pena ser vivido ou estamos apenas assistindo, em alta definição, ao nosso próprio fim enquanto humanidade?
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Errata não é 1989, é 2022.
Resumo da opera III. ‘Será que sou só eu ou a nossa geração mais jovem é muito frouxa e preguiçosa? A última moda nas escolas e no mercado de trabalho são os “dias de folga para cuidar da saúde mental”. Inacreditável. Nós já temos dias de folga para cuidar da saúde mental. São os fins de semana e feriados. É, vamos dar mais tempo livre para os estudantes. Ótima ideia.’ Chicago Tribune 1989.
Resumo da opera. Tristeza sempre existiu. Maior indice de suicidios na historia mundial, 22 por 100 mil habitantes, foi em 1931. Grande depressão.
‘[…] estamos apenas assistindo, em alta definição, ao nosso próprio fim enquanto humanidade?’ Depende do conceito de humanidade. Se for a dos Vermelhos sim e já vai tarde. Velhos morrem para que a vida possa ir adiante. Caso contrario não teriamos saido das cavernas.
‘Não cabe a mim apontar o caminho.’ Isto é obvio! Kuakuakuakuakua!
‘[…] como a crise climática.’ ‘[…] uma utopia ou uma solução para o colapso ambiental […]’. Utilizaram o problema ambiental como terrorismo, ‘unica solução é acabar com o capitalismo e termos um projeto coletivo mundial’. Angela Merkel tentou colocar a Alemanha na vanguarda e quebrou o pais. Utopia é lugar nenhum!
‘[…] o peixinho dourado – símbolo clássico da memória fugaz – consegue manter o foco por nove segundos. Fomos superados por um peixe?’ Um teste, pedir para um adolescente, um peixinho dourado e um comunista velho para resolverem um problema utilizando IA. Quem sai melhor?
‘Perdemos a capacidade de criar “novos cenários” para enfrentar problemas existenciais, como a crise climática.’ Sim, para os velhos ‘novo cenario’ é o fim do capitalismo. Kuakuakuakuakua! Acham que enganam alguém! Kuakuakuakukakua!
‘Hoje, temos uma geração que aprendeu mais palavras com algoritmos e máquinas do que com o calor da voz humana.’ Calor muitas vezes acompanhado de bobagens. Novas gerações não foram condicionadas a memorizar informações e depois regurgitar como se fosse erudita ou sabia.
‘O resultado é um isolamento banhado em depressão e uma raiva latente que, por vezes, transborda em uma demência furiosa e homicida.’ Sem duvida o mundo vai acabar! Kuakuakuakuakuakua!
‘[…] três em cada dez estudantes, entre 13 e 17 anos, sentem-se tristes “sempre ou na maioria das vezes”.’ Texto subrepticiamente pega o resulado da pesquisa (IBGE do Marcio Pokemon) e vincula ao capitalismo e ao avanço tecnologico sem base nenhuma. Alas, não existe nenhuma pesquisa anterior para comparar? E os detalhes? Noticia de 2021 no proprio IBGE. 29,6% das meninas declararam sentir que a vida não valia a pena ser vivida. O indicador para os meninos foi de 13%.
‘Venceu porque convenceu milhões de pessoas de que fracassar é sempre culpa individual, nunca sintoma de uma engrenagem adoecida.’ Baboseira vermelha. Vide URSS, Cuba e Venezuela. Basta ver a diferença entre o que ‘vendem’ e o que entregam. O Estado vai descobrir todas as necessidades e aspirações de cada um e resolver todos os problemas? Nunca aconteceu.
‘ Fomos submetidos a um bombardeio neurológico tão severo nos últimos 30 anos […]’. Tem uma graduação em filosofia com enfase em estetica. Nunca estudou neurologia. Achismo.
‘[…] Franco Berardi. Para o filósofo italiano […]’. Irrelevante anticapitalista.
‘No entanto, o otimismo de Ford choca-se violentamente com outra notícia do mesmo dia.’ Uma frase dita no maximo em 1947. No contexto americano. Vermelhos não esquecem nada e não aprendem nada.