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Ser parte de um todo faz a vida ter sentido? – por Amarildo Luiz Trevisan

Uma elegia a Pedro Brum Santos, Rosa Maria Hessel Silveira e Sérgio Baracho

Há momentos em que a vida nos obriga a olhar para o alto e para dentro ao mesmo tempo. Olhamos para o céu, para a vastidão silenciosa do universo, e nos damos conta de nossa pequenez.

Somos, literalmente, um pequeno grão em meio a um deserto cósmico sem fim.

Depois olhamos para a ausência deixada por alguém que amamos e percebemos, paradoxalmente, que um único ser humano pode ocupar um espaço imenso em nossas vidas. É aí que descobrimos uma verdade que a ciência não mede e que a fé tenta nomear: ninguém é grande pelo tamanho que ocupa no universo, mas pela intensidade com que participa do todo e pelo bem que espalha enquanto está entre nós.

Mas então surge a pergunta: se somos tão pequenos diante do universo, o que dá sentido à nossa existência? Ainda é possível acreditar em um ser superior quando habitamos apenas esse pequeno grão perdido na vastidão? E mais: o que faz com que uma vida humana, tão breve e aparentemente tão pequena, possa deixar uma marca tão profunda?

Não se pode exigir da Bíblia aquilo que ela nunca pretendeu ser: um livro de história, um tratado de astronomia, um mapa técnico do cosmos ou um manual científico escrito à luz dos telescópios modernos que hoje perscrutam o universo com uma precisão antes inimaginável. Ela nasceu em outro tempo, em outra linguagem, em outra sensibilidade. E, no entanto, é impressionante perceber como, apesar dessa distância histórica, sua sabedoria continua tocando perguntas que ainda hoje nos inquietam e nos transcendem.

Nossa Via Láctea, apenas uma entre trilhões de galáxias, abriga entre 100 e 400 bilhões de estrelas. A astronomia calcula que, em média, cada estrela possa ter ao menos um ou dois planetas. Isso significa algo entre 400 e 800 bilhões de planetas apenas em nossa galáxia. Estudos recentes indicam que cerca de 300 milhões deles podem ser mundos rochosos potencialmente habitáveis. E quando ampliamos ainda mais a lente, o espanto se torna quase vertigem: estima-se que existam entre 2 e 30 trilhões de galáxias no universo observável.

Talvez por isso o texto bíblico de Isaías soe tão provocativo ainda hoje: “Para o Senhor, todas as nações são como uma gota de água num balde, como um grão de poeira na balança…” A metáfora é poderosa. Ela não pretende humilhar o humano, mas relativizar sua pretensão de grandeza. Diante do infinito, nossos impérios, nossas guerras, nossas vaidades e nossas fronteiras parecem frágeis como poeira suspensa no ar.

Por que então nossa pequenez deixa de ser insignificância?

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que a fé cristã anuncia de forma tão singular. Em muitas tradições religiosas, é o ser humano que precisa elevar-se até o divino, vencer distâncias, purificar-se, subir degrau por degrau em busca de Deus. No cristianismo, porém, o movimento é surpreendentemente inverso: é Deus quem desce, quem se aproxima, quem aceita a fragilidade da condição humana e entra na história, como expressa de modo magistral o apóstolo Paulo no hino da kénosis (Filipenses 2:6-11). A palavra vem do grego kenós e significa “esvaziamento”, “despojamento”. Cristo, mesmo possuindo a condição divina, não se agarrou à sua glória, mas esvaziou-se, assumiu a forma de servo, fez-se humano e compartilhou nossa pequenez. E isso muda tudo.

Não somos pó abandonado no vazio. Somos parte de um todo que nos envolve, nos sustenta e nos transcende. A velha regra hermenêutica ajuda a compreender isso: o todo está na parte, assim como a parte compartilha do todo. Uma gota carrega algo do oceano. Um fragmento pode revelar a totalidade. Um ser humano, mesmo pequeno diante do cosmos, traz em si a dignidade de pertencer a algo maior.

Talvez seja justamente aí que essa reflexão encontra a dor concreta de nossas despedidas.

Nesta semana, ao perdermos pessoas tão generosas e queridas como o professor Pedro Brum Santos (UFSM), a professora Rosa Maria Hessel Silveira (UFRGS) e o Sr. Sérgio Francisco Baracho (UFRN), sentimos com força a fragilidade da condição humana. Diante da imensidão do universo, uma vida pode parecer apenas um breve clarão. Mas quem conviveu com professores e técnicos que fizeram do seu saber um gesto de generosidade e da docência um ato de doação sabe que a grandeza nunca esteve no tamanho, e sim naquilo que transborda de nós para os outros.

Será que a vida doada a serviço da educação não se constitui uma kénosis em direção à alteridade?

Um profissional que forma, acolhe, orienta e se doa às novas gerações nunca vive apenas para si. Ele passa a habitar a vida de muitos. Sua palavra ecoa em outras vozes. Seu gesto reaparece em outras práticas. Sua generosidade continua fecundando pensamentos e destinos mesmo depois de sua partida.

É isso que talvez signifique ser parte de um todo.

Ao nos deixarem, eles não desaparecem na insignificância do pó. Pelo contrário: eles se expandem. Cada mente que eles iluminaram, cada estudante que eles ajudaram a erguer, carrega agora um fragmento de suas existências. Continuam perfeitamente vivos nas teses, nos livros, nas salas de aula onde seus antigos alunos agora ensinam, e no coração de quem teve o privilégio de caminhar ao lado deles. Eles provaram que a morte não consegue apagar quem escolheu se ligar à correnteza maior da humanidade.

Sozinho, o ser humano é apenas aquele grão de poeira de Isaías, vulnerável aos ventos do acaso. Uma andorinha só, afinal, não faz verão. Mas quando o indivíduo decide juntar a sua fragilidade à luta dos outros, plantando-se em comunidade e doando-se ao ensino e ao próximo, o milagre acontece.

A parte retorna ao todo, mas o todo também continua carregando a parte.

Talvez seja isso que consola em momentos assim: perceber que existências generosas não se encerram apenas em sua partida. Quem se entrega à formação dos outros, de algum modo, atravessa a própria finitude, permanecendo na memória, na gratidão e nas marcas de bem que semeou ao longo do caminho.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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Um Comentário

  1. Cite o nome de três professores universitarios (da UFSM ou da UFRGS) que se aposentaram no ano de 2000, que já faleceram e o que fizeram. Sem olhar no Google. Nesta hora alguém ‘dããããããã niilismo dããããã’. Tu és pó e ao pó retornarás.

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