Brasil: uma história de tutela militar – por Giorgio Forgiarini
Desde o século XVI, militares são parte da lógica do poder no País. Ou eram...

É longeva a tutela dos militares sobre a sociedade brasileira. Tomé de Sousa, na segunda metade do Século XVI, se encarregou de trazer ao Brasil a “manu militari” portuguesa, o que se refletiu na própria organização da sociedade e na urbanização do Brasil Colônia. Como regra, a população se organizava sob ordens concebidas para impedir que colonos permanecessem isolados, garantindo, assim que todos pudessem ser alcançados pela autoridade da Coroa.
Vilas eram planejadas e fundadas para reunir os moradores dispersos, com base em decisões tomadas, não com base em cálculos sociais e econômicos, mas puramente militares. O objetivo não era o desenvolvimento da sociedade, mas dificultar eventuais interações perniciosas entre diferentes grupos e, assim, propiciar a hegemonia do poder real.
Não cabia aos colonos escolher onde iriam se estabelecer. Agrupamentos urbanos, vilas ou cidades espontaneamente criadas eram logo reprimidas antes mesmo de ganharem corpo. Viravam alvo de desconfiança do Reino, que não via com bons olhos a autonomização da população. Excepcionalmente, como nos casos de Parati (1660) e Campos de Goytacazes (1673), moradores erguiam um pelourinho, edificavam um arremedo civilizatório e aguardavam a confirmação real.
O cálculo era sofisticado, porém interessante. Para Portugal era fundamental que fossem sumariamente ceifadas quaisquer iniciativas autonomistas que eventualmente viessem a eclodir na colônia recém descoberta. Toda essa política de tutela social passa necessariamente pelas mãos militares.
Nos Estados Unidos da América, o processo de independência baseou-se na emergência de uma elite política eminentemente civil, com força e influência sobre a força militar. Basearam-se na lógica da República Romana, que separava poder civil de poder militar. Na Roma pré-Julio Cesar, quem tinha o poder da decisão não podia acumular o poder da arma. O exército era necessariamente submisso ao Senado. Assim funciona numa república.
O mesmo não aconteceu no Brasil. Por aqui, atividades administrativas-civis e militares andaram juntas, praticamente confusas entre si. No ano de nossa Independência, 1822, os serviços militares consumiam 68% do orçamento imperial destinado à Província de São Paulo. Na de Santa Catarina, 67% e na do Rio Grande do Sul, 71%. O pouco que restava era dividido entre as coisas civis, dentre as quais as do Judiciário, e também as eclesiásticas.
Mesmo tarefas tipicamente civis, como planejamento urbanístico, abertura de estradas, manutenção de praças públicas e até a regulamentação dos divertimentos públicos, acabavam passando pelo crivo militar. Eram incumbência da Intendência Geral de Polícia. O serviço de telégrafo elétrico foi inaugurado em 1854 com o objetivo, não de interligar centros urbanos, mas de proporcionar comunicação entre o Ministério da Guerra e povoações litorâneas, a fim de melhor policiar o litoral brasileiro.
Sobre o tema, mais números: em 1872 se realizou o primeiro censo geral da história do Brasil. Nele se constatou que havia no país 42.217 agentes públicos e, destes, 27.716 eram militares, cerca de 66% da força de trabalho empregada pelo Império.
Em 1889 veio a Proclamação da República. Como se sabe, não foi o advento republicano uma decisão tomada pela sociedade civil. Aliás, às favas com a vontade da sociedade civil. Foi, sim, uma iniciativa militar. Não viam os militares na figura da família real os predicados necessários para manter a higidez nacional. Nunca tiveram qualquer intenção libertadora, ou revolucionária. Pelo contrário.
O primeiro civil presidente da República, Prudente de Morais, só foi assumir o mandato em 1894, depois dos militares Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Estes, muito lembrados por todos. Os outros? Quem lembra?
Reminiscências dos tempos de Brasil Colônia. Com a notória intenção de tutelar o futuro da nação, os militares prepararam e executaram com êxito os golpes de 1930, o de 1937 e, obviamente, o de 1964.
Tentaram fazê-lo em 2022. Na verdade ainda tentam. Nossa sorte é que os militares de hoje são bem menos preparados que os de outrora. O regime republicano e o estado democrático de direito, por mais que estejam consolidados, não são eternos. São passíveis de retrocesso. A história da revolução francesa nos ensina isso.
Já está na hora de os militares se colocarem no seu lugar. Não são mais tutores das vontades e das necessidades da nação. Não têm competência para isso. Que sejam presos os que pensaram e operaram em contrário.
É isso!
(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.





Resumo da opera III. Politica esta virada numa chinelagem e ninguém discute os reais problemas. Que sem solução agravam-se. E acumulam-se.
Resumo da opera II. Texto se concentrou muito no ‘muito antigamente’.
Resumo da opera. Tentativa infantil de associar a imagem de Cavalão et caterva com a dos militares. A fração seria exemplo do todo.
‘Que sejam presos os que pensaram e operaram em contrário.’ Vãos ser presos. Penas longas. Até quando vai durar a situação não se sabe.
‘Não têm competência para isso.’ Isto! Quem tem é esta tigrada que esta no Executivo, o Centrão e a Vanguarda Iluminista do Judiciario. Brasil faz inveja a Suiça! Alas, comparar curriculos é uma boa medida. General comandante de guarnição na aldeia e um causidico da aldeia. Sim, porque comparar com o apedeuta é covardia.
‘Não são mais tutores das vontades e das necessidades da nação.’ Andam com a moral baixa. Vermelhos não gostam deles porque os impedem de tomar conta de tudo. Cavalista não gostam porque não deram o golpe. Até o proximo desastre natural de grandes proporções ficam com a moral baixa. Sim, porque quando aperta o sapato mandam quem?
‘Já está na hora de os militares se colocarem no seu lugar.’ Sim, tem que carregar sacos de cimento como quem vai mal na escola! Kuakuakuakuakua!
‘São passíveis de retrocesso. A história da revolução francesa nos ensina isso.’ Pouco especificado. Porque entre a queda da Monarquia e Napoleão, por exemplo, existiu o Terror, existiu acerto de contas, devedor pendurando credor pelo pescoço no poste da rua sob acusação de ‘atividade contra-revoluconarias’. Para o argumento apresentado, alás, França não é bom exemplo. Quarta Republica ruiu na mão dos socialistas. Foram buscar o General de Gaulle em casa para dar um jeito. General de Brigada de Gaulle.
‘O regime republicano e o estado democrático de direito, por mais que […]’. Conversinha mole do pessoal do juridico. E de jornalistas que nem sabem do que estão falando. Brasil nunca foi uma Republica fora do aspecto formal. Democracia é o que a casa tem para oferecer. Pais onde tudo é meia boca vai dizer que a politica funciona perfeitamente?
‘Nossa sorte é que os militares de hoje são bem menos preparados que os de outrora.’ Diria que são mais. Não embarcaram em canoa furada. Negocio é deixar o sistema cair de podre.
‘Tentaram fazê-lo em 2022.’ Não. Alguns até planejaram aloprações. Estados de Sitio furados. Reuniões tosa de porco. Se perguntarem a alguem do juridico, um ‘bão’, a criatura vai explicar que o tipo penal é ‘tentar com emprego de violencia ou grave ameaça’. O correto na falta de lei ou lei ‘ruim’ é aperfeiçoar a legislação. Não utilizar analogia, flexibilizar interpretações, etc. E, claro, baderna é baderna. Pena de tentativa de golpe para vandalismo é injustiça.
Golpe de 64. Que teve o AI-5 depois. Comunismo de novo.
Golpe de 37 teria sido um golpe dentro do golpe. Havia ocorrido a Intentona Comunista em 37. Comunismo em ascensão. Famigerado Plano Cohen.
Golpe de 30 foi encabeçado por Getulio Vargas. Que tentou a carreira militar, chegou a 2º Sargento. Foi excluido da Escola Preparatoria de Rio Pardo por conta de uma rebelião causada, dentre muitas coisas, também pela falta d’agua (alô Corsan!).
‘Não viam os militares na figura da família real os predicados necessários para manter a higidez nacional.’ Uma série de crises politicas. Mas também existe outras versões, Deodoro seria monarquista. Tinha disputado o interesse de um rabo de saia com Gaspar Martins e perdeu. Este ultimo poderia se tornar Ministro-Chefe de um novo gabinete e eram desafetos desde moços.
‘[…] não foi o advento republicano uma decisão tomada pela sociedade civil. Aliás, às favas com a vontade da sociedade civil.’ Como se a ‘massa’ do pôvú estivesse muito preocupada com eventos politicos naquela epoca.
‘O serviço de telégrafo elétrico foi inaugurado em 1854 […]’. Tinha pouco mais de 4 Km de extensão. O Patrono da Arma de Comunicações é o Marechal Rondon. Construiu inumeras linhas telegraficas no fim do século XIX e inicio do XX. Chefiou o Corpo de Engenheiros Militares. Prestes era engenheiro militar, cuidava de ferrovias.
‘Mesmo tarefas tipicamente civis, como planejamento urbanístico, abertura de estradas, manutenção de praças públicas e até a regulamentação dos divertimentos públicos, acabavam passando pelo crivo militar.’ Primeira faculdade de engenharia civil (não militar) do Brasil foi a Poli USP em 1893. A primeira de arquitetura e urbanismo é de 1930.
‘No ano de nossa Independência, 1822, os serviços militares consumiam […]’. Independencia foi em setembro. Portugal iria deixar acontecer algo diferente? Qual a alternativa? Um Estado de Bem Estar Social?
‘Toda essa política de tutela social passa necessariamente pelas mãos militares.’ Século XVI. Tomé de Souza, por exemplo, era militar e politico. Era um nobre.
‘[…] como nos casos de Parati (1660) e Campos de Goytacazes (1673),[…]’. Litoral ou não muito longe do litoral do RJ. Multidões subversivas é para acabar!” Kuakuakuakuakuakua!
‘O objetivo não era o desenvolvimento da sociedade, mas dificultar eventuais interações perniciosas entre diferentes grupos e, assim, propiciar a hegemonia do poder real.’ Quem tinha preocupação com ‘desenvolvimento da sociedade’ por volta do ano 1550? Tinha preocupação com ‘subversão’? Claro que não, ocupação, colonização e defesa.