Artigos

A foto que virou música – por Amarildo Luiz Trevisan

"Bastou seguir (...) o que a natureza havia escrito. A imagem tornou-se melodia"

Olhar o mundo e enxergar apenas o que está posto é o grande mal das “pessoas grandes”. Para a maioria de nós, fios de alta tensão cruzando o céu urbano são apenas parte da moldura cinzenta das cidades, infraestrutura pura e simples. Mas, em 2009, o olhar do fotógrafo Paulo Pinto capturou algo diferente para o jornal O Estado de S. Paulo: um bando de pássaros pousados sobre a fiação elétrica. Para o músico Jarbas Agnelli, aquela imagem não foi um flagrante estático; foi uma partitura pronta, esperando para ser tocada.

Agnelli não compôs uma música sobre a fotografia, no sentido figurado. Ele fez uma tradução literal do invisível. O que se seguiu foi um raro momento de epifania em que a imagem se converteu diretamente em som.

Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2026/07/foto-de-passaros-em-fios-tirada-por-gaucho-vira-sinfonia-e-vence-leao-de-ouro-em-cannes-cmr6gwwc802gj011vkhqtfein.html

Os fios transformaram-se nas cinco linhas do pentagrama. A posição vertical de cada pássaro definiu a altura das notas. A sequência horizontal estabeleceu a ordem em que seriam executadas. Bastou seguir aquilo que a própria natureza havia escrito. A imagem tornou-se melodia.

O resultado foi a composição Birds on the Wires, que anos depois inspiraria a Sinfonia da Distribuição de Energia, produzida para a Abradee. A obra percorreu festivais internacionais, alcançou milhões de visualizações e, em 2026, recebeu o Leão de Ouro no Festival de Cannes, na categoria Áudio & Radio.

O mais bonito, entretanto, talvez não seja o prêmio, mas a explicação dada pelo próprio compositor ao final de um vídeo em que apresenta todo o processo criativo. Ele afirma, com a simplicidade de quem descobriu um segredo antigo, que a poesia está em toda parte; basta termos olhos para enxergá-la.

É uma provocação necessária para os dias atuais.

Vivemos mergulhados em uma sociedade marcada pela violência cotidiana, pela aceleração permanente, pela psicopolítica do desempenho de que fala Byung-Chul Han e pela reificação do mundo administrado descrita pela tradição da Escola de Frankfurt. Somos constantemente pressionados a produzir, consumir, competir e responder. O olhar tornou-se funcional. Enxergamos apenas aquilo que serve para alguma finalidade imediata. Perdemos a capacidade de contemplar.

E talvez seja exatamente aí que resida o maior empobrecimento do nosso tempo. Não na falta de tecnologia, nem na escassez de informações, mas na incapacidade de perceber a beleza silenciosa que continua acontecendo ao nosso redor.

Vivemos submetidos à psicopolítica do rendimento, onde o mundo administrado e reificado nos transforma em engrenagens de uma sociedade cansada, adoecida e violenta. Fomos ensinados a olhar para as coisas apenas pelo seu valor de utilidade ou de lucro. O fio elétrico serve para transmitir energia; o pássaro é apenas um elemento da fauna.

Quando a arte subverte essa lógica e extrai magia do utilitário, ela nos devolve a humanidade. É o lembrete de que o mesmo mundo que esmaga também abriga o sublime.

Para alcançar esse nível de percepção, contudo, é preciso resgatar o olhar que Antoine de Saint-Exupéry eternizou em O Pequeno Príncipe. É preciso aprender a olhar para além do que os olhos mostram.

A famosa frase dita pela Raposa ao principezinho sintetiza perfeitamente o fenômeno da foto-partitura: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Os olhos físicos viram apenas pássaros e eletricidade; o coração – e o ouvido atento do artista – enxergou a música, a conexão e o sentido oculto das relações entre as coisas.

O drama da modernidade é que desaprendemos essa linguagem sutil. E, como o próprio Pequeno Príncipe lamenta nas primeiras páginas de seu livro:

“As pessoas grandes nunca compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora dando explicações.”

No fundo, a fotografia de Paulo Pinto nunca retratou apenas pássaros. Ela registrou uma pergunta dirigida a todos nós: o que somos capazes de enxergar?

A resposta não depende da fotografia. Depende do olhar.

Porque a arte, como a filosofia e a educação, talvez exista exatamente para isso: ensinar-nos que o mundo é sempre maior do que aquilo que vemos. E que, mesmo em tempos de cansaço, violência e desencantamento, a beleza continua pousando discretamente sobre os fios da vida, esperando apenas alguém que saiba transformá-la em música.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

12 Comentários

  1. Resumo da opera. Rotina sempre existiu. Muita gente se pede nela. No mais um papinho “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” para fazer o mesmo de sempre, vender o capitalismo como a fonte de todos os males.

  2. Transformar foto em musica. Nada que uma IA não consiga fazer. São padrões, tantos os passaros quanto os acordes. As grandes questões filosoficas hoje em dia migraram para a ciencia da computação e para a fisica. Nenhuma novidade, Einstein era leitor de Spinoza. Bohr de Kierkegaard. Resumindo, o conceito de ‘inteligencia’ sofreu alteração, aumentou a humildade de alguns. IA por enquanto não é ‘consciente’, mas é só.

  3. Donde se chega na Tupiniquimlandia. Onde saem da escola sem saber matematica basica e ler/escrever direito. Incluisive os futuros docentes. Mas tem que aprender cidadania, transito, educação financeira, ética direito constitucional, direito do consumidor, direitos humanos, meio ambiente, respeito a mulher (para alguns objetivo é submissão mesmo), historia dos afrodescendes (e religião), direito do pessoal do Alfabeto, historia dos povos originarios, etc. Com 200 dias letivos por ano e minimo (que vira maximo) de 800 horas anuais. O que poderia dar errado? E exatamente assim que se faz!

  4. Problema todo é que ‘leitura’ solta quer dizer nada. Há quem leia bastante, mas só a Biblia e comentarios a respeito. Há quem só leia Vermelhices. Não existe condenação, há muitas maneiras de virar um tapado.

  5. Rose escreve para uma revista liberal, esquerda na Ianquelandia. Logo ‘o mundo vai acabar’. Segundo ela a politica mudará, assim como a cultura e a consciencia individual. Leitura, obvio, cultiva o pensamento logico e analitico.

  6. Rose Horowitch, colunista da ‘The Atlantic’, escreveu uma peça denominada ‘The End of Reading Is Here’. Ianquelandia entrou numa ‘era pos-letrada’ (revista de agosto de 2026). Não é assunto novo. Declinio da leitura,, jogos de azar já são mais populares que leitura. Apreciadores de livros marginalizados, leitores são subcultura, 20% dos leitores respondem por mais de 80% dos livros lidos. Estudantes usam IA para resumir livros. ‘Elite’ ‘pos-letrada’, os tomadores de decisão se baseiam cada vez mais em sumários e graficos.

  7. ‘[…] é preciso resgatar o olhar que Antoine de Saint-Exupéry eternizou em O Pequeno Príncipe.’ E concorrer a titulo de ‘miss alguma coisa’ depois.

  8. ‘[…] onde o mundo administrado e reificado nos transforma em engrenagens de uma sociedade cansada, adoecida e violenta.’ Terceira coluna no site com o mesmo ‘tema’. Orquestrado? Ou simplesmente superposição de chavões? Propaganda?

  9. ‘Perdemos a capacidade de contemplar.’ Alguém tem que trabalhar, todo mundo servidor publico não funciona.

  10. ‘Somos constantemente pressionados a produzir, consumir, competir e responder.’ Como os caçadores-coletores milhares de anos atras. Não caça-coleta não come.

  11. ‘Agnelli não compôs uma música sobre a fotografia, no sentido figurado. Ele fez uma tradução literal do invisível. ‘ Algo que já apareceu em historias em quadrinhos e desenhos animados na decada de 70. Vamos combinar que nem sempre passaros sentados nos fios dão uma musica. Alas, alguém verificou se ele não teve que ‘adaptar’ um pouco?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo