Feicoop: pela reconstrução da economia popular e solidária – por Ednalva Felix das Neves
A grande feira que está começando e reflexões sobre a sobrevivência da ‘EPS’

A 32ª Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (FEICOOP) se aproxima, e com ela, inevitavelmente, as reflexões sobre a Economia Popular e Solidária (EPS). Não tem como não pensar em como a EPS vem resistindo, mesmo em meio ao descaso e aos anos de ataque às políticas sociais que acometeram o Brasil nos últimos anos – neste ínterim, a Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (SENAES) deixou de existir enquanto uma secretaria do Ministério do Trabalho e Emprego, viu seu financiamento minguar e os programas do governo deixaram de fomentar a EPS. Os dados de Chiariello (2020) estão aí para provar.
O orçamento destinado às ações da Economia Popular e Solidária no Brasil foi sendo minado ao longo dos últimos anos. São valores do orçamento da SENAES e outras secretarias e instâncias governamentais que atuam com EPS. Nota-se que os valores foram sendo reduzidos, especialmente, a partir de 2015, quando o governo Dilma começou a sentir a instabilidade política que culminou no impeachment, em 2016. Os valores foram zerados para a SENAES, enquanto que chegaram a quase zerar nas demais instâncias, em 2019, no governo Bolsonaro.
Nas quatro décadas em que aprendemos a chamar estas experiências de EPS, muita coisa mudou, e uma das mais importantes mudanças que se observa foi o fortalecimento das ações individuais em detrimento das ações coletivas. No plano do arcabouço legal, as leis facilitaram o empreendedorismo individual, por meio do Microempreendedor Individual (MEI), permitindo, inclusive, alguns benefícios para este tipo de atuação; no plano cultural, cresce, a cada dia, a crença e a defesa da meritocracia como instrumento de solução para os problemas sociais, ao mesmo tempo em que se culpabiliza as pessoas por seus fracassos – leia-se, desemprego.
E mesmo que o financiamento não tenha chegado, a EPS não deixou de existir. Vale lembrar que a EPS nasceu da exclusão social, isto é, do “esquecimento” das políticas públicas (Neves, 2016). Para “quem” nasce do ostracismo, nada mais assusta! Nada mais destrói! E a Economia Popular e Solidária resistiu!
Um levantamento realizado em uma pesquisa coordenada na UFSM em 2025 (Neves e Mortari, 2025) com base no Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (CADSOL) demonstrou que o Brasil tinha 27.472 Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) cadastrados no CADSON, gerando trabalho e renda para 1,8 milhão de associados (MTE, 2025). O estado do Rio Grande do Sul tinha 2.106 EES (7,7% dos EES brasileiros). Nestes empreendimentos, atuam um total de 250.905 associados – sendo 67% homens e 33% mulheres.
Estes empreendimentos são responsáveis por organizar a produção em 45% dos casos cadastrados no estado, em outros 29%, são responsáveis por organizar a comercialização e em 10% organizam o consumo. O município de Santa Maria conta com 5% dos empreendimentos do estado do Rio Grande do Sul, gerando trabalho e renda para 9.396 associados(as). Dentre os EES de Santa Maria, destacam-se aqueles vinculados ao Projeto Esperança Cooesperança, uma das mais antigas experiências de EPS existentes no Brasil (reconhecido e exemplo para toda a América Latina). Além de sediar empreendimentos do próprio município, o projeto acolhe, também, pessoas e empreendimentos de municípios vizinhos.
A fragilidade da EPS é um problema antigo, sobre o qual trabalhávamos para solucionar. Os anos de abandono aprofundaram esta fragilidade, o que pode ser comprovado por meio da forma de organização destes empreendimentos: a maioria dos EES gaúchos são grupos informais (53%), 25% são associações, 16% são cooperativas e apenas 1% são sociedades mercantis. Vale destacar que, de acordo com o pesquisador espanhol José Luís Monzón, as cooperativas são (ou deveriam ser) a coluna vertebral da Economia Solidária. A informalidade se deve à dificuldade que os(as) associados(as) encontram para formalizar os empreendimentos.
A informalidade da EPS é ainda maior em Santa Maria: 71% dos EES santa-marienses são grupos informais, um número superior aos grupos informais do estado (53%) e do Brasil (36%). A questão crucial aqui é: como esperar (e cobrar) de um empreendimento que nasceu da dificuldade, que ele atue e se formalize com as mesmas regras de uma empresa convencional? Como esperar que eles continuem gerando trabalho e renda para seus(suas) associados(as) sem um (justo) apoio do poder público? A política de Economia Popular e Solidária deve ser tratada, também, como uma política social.
Diante do cenário de destruição da Economia Popular e Solidária (EPS), o retorno de Lula à presidência, em 2023, apresentou-se como uma possibilidade de retomada da reconstrução das políticas sociais e, dentre elas, da política de EPS. Contudo, a reconstrução não tem sido fácil, pois o cenário era de uma Economia que nasceu da fragilidade, viu vislumbrar uma promessa de fortalecimento e mergulhou no esquecimento proposital para sua destruição. A Economia Popular e Solidária estava viva, sim, porém, com sequelas. Viu-se uma Economia Popular Solidária desarticulada, desorientada e com dificuldades para se rearticular em torno de políticas públicas.
Assim tem sido, também, em Santa Maria. Reconhecida por ser um dos berços da EPS e por manter a mais antiga experiência de EPS (o Feirão Colonial, ligado ao projeto Esperança Cooesperança), Santa Maria não passou incólume ao ataque sofrido pelas políticas públicas. O Feirão Colonial resistiu, mas não sem enfrentar as dificuldades próprias do abandono. Abandono este que aumentou as fragilidades da EPS.
É importante salientar que a Economia Popular e Solidária (EPS) deve ser tratada como a possibilidade de construção de outra economia, como já dizia (Paul) Singer, e não “uma economia de (e para os) pobres”. É na EPS que a produção de alimentos busca por um modelo sustentável, tanto sob a perspectiva de produção orgânica, como pela preservação da natureza. Também é na EPS que se busca por um modelo de produção e distribuição de bens e serviços que prioriza a vida em vez do lucro e da acumulação de renda e riqueza. É ainda na EPS que se discute formas mais justas e humanas de produção e distribuição, que busquem romper com as múltiplas desigualdades: econômica, social, de gênero, raça, além de tantas outras formas de desigualdades.
Nesta reconstrução, é importante considerarmos os percalços dos últimos anos, mas também, as conquistas desta nova caminhada! E elas estão aí: a promulgação da lei Paul Singer (Lei nº 15.068/2024); a recente aprovação do Projeto de Lei nº 5.294/2025, que institui a Política Nacional de Tecnologia e Inovação Social – estas regulamentações representam passos importantes rumo à concretização dessa retomada, pois, além de regulamentar a existência da EPS, permitem criar mecanismos para a construção de ações de fortalecimento dos EES e de Tecnologias Sociais; a contratação dos(as) agentes territoriais que estão em busca dos EES; e por fim, temos visto (res)surgir editais de financiamento de ações de EPS, inclusive, recentemente, o PRONINC.
É diante destes desafios que chegamos à 32ª FEICOOP, um espaço importante para refletir sobre a reconstrução da Economia Popular e Solidária. Que os diálogos traçados neste espaço levem em conta estas, e outras tantas, questões importantes para a reconstrução da Economia Popular e Solidária.
(* Esse artigo foi escrito de forma conjunta com Lucas Cassol Mortari, estudante de Ciências Econômicas da UFSM e membro da ABEPETS; Ednalva Felix das Neves também é docente do Programa de Pós-Graduação em Economia e Desenvolvimento da UFSM e coordenadora geral da Associação Brasileira de Ensino, Pesquisa e Extensão em Tecnologia Social- ABEPETS).
Referências
BRASIL. Lei nº 15.068, de 23 de dezembro de 2024. Dispõe sobre os empreendimentos de Economia Solidária e a Política Nacional de Economia Solidária; cria o Sistema Nacional de Economia Solidária (Sinaes); e altera a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil). Presidência da República, Brasília, DF. 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/L15068.htm. Acesso em 08 jan. 2025.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei nº 5.294/2025. Institui a Política Nacional de Tecnologia e Inovação Social, define suas diretrizes e objetivos, estabelece atribuições para instituições de ciência e tecnologia, cria o Comitê Técnico de Avaliação de Conformidade, disciplina mecanismos de compras públicas e o regime de propriedade intelectual, e dá outras providências. 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2573623. Acesso em 02 mai 2026
CHIARIELLO. Caio, Luís. A trajetória da SENAES em prosa e números: consolidação e réquiem de uma agenda pública para a Economia Solidária. 2020 Revista ORG & DEMO, Marília, v. 21, n. 2, p. 97-116, jul./dez. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/orgdemo/article/view/10354. Acesso em 15 jan. 2025.
MINISTÉRIO DE TRABALHO E EMPREGO (MTE). Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (CADSOL). s/d. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/economia-solidaria/cadastro-nacional-de-empreendimentos-economicos-solidarios-cadsol. Acesso em 10 jun 2025.
NEVES, Ednalva Felix. (2016), Percepções sobre as contradições e dificuldades de inserção e sobrevivência dos empreendimentos de Economia Solidária no mercado. Campinas, 292 p. Tese (Doutorado). Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas.
(*) Ednalva Felix das Neves é Professora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. O artigo acima foi publicado originalmente no site da Seçao Sindical dos Docentes da UFSM (AQUI) e é reproduzido com a autorização da autora.





Vermelhos não estudam RH normalmente. Chavão: confiança é mais importante do que competencia. Competencia só informa que a criatura pode realizar uma tarefa a contento. Porém sem confiança pode ser irrelevante ou até prejudicial porque existem pessoas de alto desempenho que são toxicas.
‘[…] no plano cultural, cresce, a cada dia, a crença e a defesa da meritocracia como instrumento de solução para os problemas sociais, ao mesmo tempo em que se culpabiliza as pessoas por seus fracassos – leia-se, desemprego.’ Meritocracia, que funciona na base do que a casa tem para oferecer (principalmente no Brasil), não é e nunca foi ‘solução para problemas sociais’ (alas, no sistema politico não existe), não confundir com produtividade. Também não ‘culpabiliza pelos fracassos’, oferece um caminho porque certas competencias podem ser adquiridas via esforço pessoal. Problema que é uma perspectiva individualista que abomina os coletivistas.
‘A proposta de um modelo de consumo consciente e solidário, da Economia Solidária, tem se apresentado como uma alternativa importante, já que ela vai além da mudança de hábitos individuais e pontuais – ela defende uma total mudança de sociedade, em que os valores sejam repensados e reconstruídos, a partir da perspectiva humana e de sustentabilidade, e não da geração de lucro.’ A autora.
‘A constituição da sociedade do consumo foi um fenômeno fomentado pela dinâmica de acumulação do sistema capitalista, fazendo com que a lógica da exploração fosse além da produção de mercadorias e atingisse, também, a esfera do consumo. Na sociedade atual, o consumo vai além da satisfação de necessidades: ele é um diferenciador entre as pessoas e as classes sociais.’ A autora.