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A água, o vidro e o vermelho – por Bianca Zasso

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A turma dos que desmaiam ao ver sangue até pode puxar o coro da discórdia, mas o líquido viscoso e vermelho que corre em nossas veias é um dos elementos mais poderosos quando mostrado na tela grande. Os giallos tornaram a Itália a terra dos assassinos de luvas pretas ao deixarem escorrer litros e litros, que foram engolidos com gosto pelos americanos que fizeram dos slasher movies uma febre entre o público jovem. E não preciso nem falar de Quentin Tarantino e sua tara por manchas escarlates. Por mais divertido e belo que seja jorrar sangue dentro de uma história, é possível sangrar quase nada e deixar o público aos pedaços.

Um dos clássicos ingleses dos anos 70, Inverno de sangue em Veneza não é para os fracos. Se o prezado espectador não for iniciado no horror psicológico, pode ter mais dúvida do que prazer diante do filme de Nicolas Roeg. A história do casal de luto John e Laura, que trocam a Inglaterra por uma temporada em Veneza em busca de um novo sentido para suas vidas flerta com o suspense, o terror e o fantástico sem deixar de lado os “medos reais” que a perda de um filho traz para uma família.

Laura, interpretada pela bela Julie Christie, ainda é assombrada pela partida da filha enquanto John tenta manter o foco em seu trabalho de restauração de uma igreja enquanto convive com visões inexplicáveis. Donald Sutherland tem a intensidade que seu personagem pede e seus expressivos olhos azuis são acentuados pela fotografia magistral de Anthony B. Richmond. Aliás, o visual de John em Inverno de sangue em Veneza lembra muito Nicola, personagem de Gianni Garko em A noite dos demônios, de Giorgio Ferroni, um dos melhores filmes de terror italianos.

Os protagonistas são ótimos, há diálogos inteligentes, mas é no silêncio que o filme apresenta seus momentos brilhantes. A sequência de abertura, onde conhecemos a pequena Christine e sua capa de chuva vermelha, e as cenas finais, onde John literalmente corre em busca das respostas para suas dúvidas são das mais impressionantes do cinema setentista.

Roeg consegue imprimir seu estilo e ainda deixar-se influenciar por características do horror italiano. A longa cena de sexo, em estilo romântico e com quase nada de erotismo, causou polêmica, mas não serve de alívio para o clima tenso. É apenas mais um rastro deixado pelo roteiro para apresentar a relação complexa na qual se encontram John e Laura.

Presente até no título, o sangue de Inverno de sangue em Veneza não trasborda. Surge na hora certa, belo e assustador. O fluxo, numa analogia com o curso do líquido da vida em nossas veias, está na água (fruto de medo e também de libertação dos personagens), nos vidros quebrados cheios de significados e nos detalhes que antecedem o corte preciso: as botas de Laura, os lençóis da cama do hotel, a capa preferida de Christine. Vermelho. Sangue. Vivo.

Inverno de sangue em Veneza (Don’t look now)

Ano: 1973

Direção: Nicolas Roeg

Disponível em DVD pela Versátil Home Vídeo

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