Neoliberal, sim, mas com responsabilidade social – por Giorgio Forgiarini
“O PT compõe uma esquerda moderada, centro-esquerda, talvez, quando muito”

Estamos no ano de 2025, se passaram mais de 20 anos do início da trajetória petista no Governo Federal e já passou da hora de acabar com esse mito absurdo de “PT comunista”, comumente praticado por quem tem pouco compromisso com os fatos. Diga-se isso, não em defesa ou ataque o PT, mas por simples apreço aos fatos e conceitos. Nunca foi comunista, tampouco fez questão de se dizer ser.
Se é verdade que o PT nunca aderiu ao discurso abilolado de “desmantelamento da máquina estatal”, também é verdade que nunca levantou a bandeira da expropriação dos meios de produção, bandeira principal dos comunistas. Aliás, no que toca à sua atuação como prócer do Governo Federal, sempre se mostrou o PT complacente com privatizações de bens e serviços públicos.
Mesmo antes de assumir a Presidência, lá em 2002, Lula, em sua “Carta ao Povo Brasileiro” já sinalizava a irreversibilidade das privatizações concretizadas por FHC. Isso, obviamente, não é coisa de comunista. Após a posse, são ainda mais numerosas as falas de Lula e de outros próceres do partido, como Antonio Palocci e Aloísio Mercadante, que deixam claro o entendimento petista quanto à necessidade de redefinição do papel do Estado. Nenhum sinal de comunismo nessas falas.
Porém, é verdade, também, que tanto Lula quanto a cúpula do partido sempre foram cautelosos. Com o objetivo de manter algum respaldo junto à esquerda radical, as expressões “privatização” e “desestatização” sempre foram escassas nos discursos partidários, sendo sempre substituídos pelo termo “parcerias”, ou outro que desse a entender algo semelhante.
Mas os fatos são mais importantes e ilustrativos do que reles palavras. Na área de transportes, por exemplo, só no ano de 2003, foram privatizados 36 lotes de rodovias federais, totalizando 2.600 km, volume muito maior do que os 1.680 km concedidos por FHC durante seus oito anos de governo. No setor elétrico, entre os anos de 2004 e 2008, treze decretos presidenciais incluíram 156 empreendimentos de transmissão de energia elétrica na lista de disponíveis para concessão, entre linhas de transmissão, subestações e conversoras CA/CC.
Houve, também, mudanças legais/institucionais significativas. A Lei das Parcerias Público-Privadas, fortemente inspirada no Private Finance Initiative (PFI), de Margareth Thatcher, partiu do Governo Lula, aprofundando a política de privatizações de serviços públicos iniciada por Fernando Henrique Cardoso.
O marco regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Lei n.. 13.019, de 2014), que abre outra possibilidade para a privatização de serviços públicos, partiu do Governo Dilma, acelerando movimento que foi iniciado por FHC, com as leis 9.637, de 1998 e 9.790, de 1990 .
O PROUNI, que nada mais é do que o sistema de “vouchers” para alunos pobres estudarem em universidades particulares, ideia ainda hoje difundida entre entusiastas do Partido Novo, surgiu no Governo Lula e segue com benefícios e mazelas.
A EBSERH, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, embora seja pública, tem natureza jurídica de direito privado, foi idealizada durante o segundo Governo Lula e estabelecida no Governo Dilma. Acabou com a gestão autárquica dessas entidades. Significativo, ainda, foi o Programa de Concessão de Infraestrutura Aeroportuária, que surgiu em 2011, com o Governo Dilma.
O próprio Bolsa Família, emblema maior dos governos petistas, também tem forte assento em princípios capitalistas. Envolve a distribuição de capital público a entes privados, para que estes o utilizem da maneira como melhor lhes convier. Afinal, nunca nos esqueçamos que pobres também são entes particulares.
O tripé macroeconômico (câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e política de juros para combate à inflação) foi observado com lupa e preservado durante todos os períodos petistas, ressalvados erros graves de percurso durante os anos finais do Governo Dilma.
E foi assim, sem falar muito em privatizações, sem muito alarde, sem muito espalhafato, que o PT privatizou e privatizou muito. A esquerda, principalmente a mais radical, sempre esteve atenta a isso e fez as críticas que entendia necessárias. Não é raro hoje o PT ser chamado pejorativamente de “neoliberal” por militantes genuinamente comunistas. Discordo deles em parte. Concordo que o PT está, sim, muito mais próximo do neoliberalismo do que do comunismo e, assim sendo, está na mira por todas as críticas pela posição que defende. Porém, me atrevo a dizer que o partido teve o mérito de conjugar responsabilidade fiscal, com responsabilidade social, embora a preocupação com a primeira, em boa parte das vezes, seja protagonista em relação à segunda.
Sim, o PT compõe uma esquerda moderada, uma centro-esquerda, talvez, quando muito. Algo semelhante ao que foi o PSDB, antes de 1995, e ao Labours Party da Inglaterra, No país britânico, os trabalhistas pelo menos têm um histórico de defesa da expropriação dos meios de produção, abandonado há décadas, é verdade, mas o PT, nem isso.
Repita-se: Esta não é uma conclusão afrontosa, tampouco elogiosa. Apenas uma constatação que deveria ser óbvia.
A direita radical abilolada, por outro lado, ainda em 2025, insiste em dizer que o PT é comunista. Alguns, pela mais absoluta ignorância, outros, com o simples intento de criar pânico moral, novela que já vimos em 1937 e 1964.
Mas tudo bem. Pra eles, da direita radical, qualquer um que não lamba as botas de militar e americano é “comunista”, “vermelho” ou algo que o valha. Mas convenhamos, não se pode esperar muito da direita radical mesmo!
(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.





Resumo da opera. Jeremias 13:23. ‘Pode, acaso,[…] mudar […] o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal.’
‘[…] qualquer um que não lamba as botas de militar e americano […]’. Kuakuakuakuakuakua! Que ‘ofensivo’! Kuakuakuakuakua!
‘[…] com o simples intento de criar pânico moral, novela que já vimos em 1937 e 1964.’ Aconteceu uma Intentona Comunista em 35. Olga, Fernando Morais. Olga era guarda-costas de Prestes. Que mentiu para os russos dizendo que as condições para uma revolução comunista existiam no Brasil. 1964, Guerra Fria. Aconteceu uma votação no PCB em São Paulo tempos depois. Decidiram ir para a luta armada. Prestes revogou a decisão. Rachou o partido, dai o nome ‘Partidão’. Mariguela funda a ALN. Eis o busilis, PT não tem apoio popular ou apoio no Congresso para fazer as ‘reformas’ que deseja. Golpe é impensavel.
‘[…] insiste em dizer que o PT é comunista.’ Segundo o Manifesto Comunista o socialismo é uma fase de transição entre o capitalismo e o comunismo.
‘Sim, o PT compõe uma esquerda moderada, uma centro-esquerda, talvez, quando muito. Algo semelhante ao que foi o PSDB, antes de 1995, e ao Labours Party da Inglaterra.’ Cascata. PT se apropriou do trabalhismo e anulou os varguistas. Depois se apropriou do discurso dos tucanos. Zé Dirceu, dezembro de 2024, ‘O PT é um partido de esquerda, socialista’. Janeiro de 23 ‘o PT não perdeu a ideologia socialista’.
‘E foi assim, sem falar muito em privatizações, sem muito alarde, sem muito espalhafato, que o PT privatizou e privatizou muito.’ Joguinho de palavras. Chama concessão de privatização. Criaram mais de 40 estatais nos mandatos anteriores. Telebras é um exemplo. Para implantar banda larga de qualidade. Na pandemia ficou bastante evidente a ‘importancia’. Ceitec dos chips utrapassados. Sem falar nos estados. Binho Marques do PT inaugurou a Natex, fabrica estatal de camisinhas ‘sustentaveis’. Vende tudo para o MS. Tarso, o intelectual, também tentou criar obrigações para desovar os chips da fabrica ultrapassada, colocar em veiculos, etc.
‘[…] foi observado com lupa e preservado durante todos os períodos petistas, ressalvados erros graves de percurso durante os anos finais do Governo Dilma.’ Rato Rouco teve o boom das commodities. Os erros graves de percurso estão sendo repetidos agora.
‘[…] foi o Programa de Concessão de Infraestrutura Aeroportuária, […]’. Concessão não é privatização, é terceirização. Juridicamente não é, mas são equivalentes.
‘O próprio Bolsa Família, emblema maior dos governos petistas, também tem forte assento em princípios capitalistas.’ Sim, capitalismo é o regime onde as pessoas recebem ‘salario’ sem fornecer trabalho em troca.
‘A EBSERH, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, embora seja pública, tem natureza jurídica de direito privado, foi idealizada durante o segundo Governo Lula e estabelecida no Governo Dilma.’ Ao invés de corrigir os problemas, resolveram centralizar em BSB e criar outra estrutura estatal. Aqui em SM, por exemplo, por que não abriram concurso para o HU? Economizaram na previdencia e gastaram mais em burocracia. E criaram cabides, o que é mais importante. Bastante ‘capitalista’.
‘O PROUNI, que nada mais é do que […]’. Um band-aid para criar vagas no ensino superior instantaneamente. Não tinham como criar vagas publicas e sairam com esta. Agora fizeram o mesmo com o ‘Agora é que Tem especialistas’. Medidas eleitoreiras. Coelhos saindo da cartola. De hipocritas que em outros governo cobravam ‘planejamento’.
‘O marco regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Lei n.. 13.019, de 2014), que abre outra possibilidade para a privatização de serviços públicos […]’. Oscip é uma ONG que recebe grana do governo. Tem ‘multiplas utilidades’. Exemplos? Instituto Ethos, Instituto Ayrton Senna, SOS Mata Atlantica. São funções estatais propriamente ditas? Meio longe.
‘A Lei das Parcerias Público-Privadas, […] partiu do Governo Lula, aprofundando a política de privatizações de serviços públicos […]’. Privatização é venda para a iniciativa privada, não uma terceirização.
‘Na área de transportes, por exemplo, só no ano de 2003, […]’. Tarso, o intelectual, fundou a Empresa Gaucha de Rodovias em 2012. Retomou através de não renovação do contrato ou via cancelamento as rodovias pedagiadas. Deu no que deu. Tarso, o intelectual, é do PL?
‘Aliás, no que toca à sua atuação como prócer do Governo Federal, sempre se mostrou o PT complacente com privatizações de bens e serviços públicos.’ Governo entrou com ação no cumpanhero STF para reverter a privatização da Eletrobras em 2023.
Carta ao Povo Brasileiro, 2002. ‘O PT e seus parceiros têm plena consciência de que a superação do atual
modelo, reclamada enfaticamente pela sociedade, não se fará num passe de
mágica, de um dia par ao outro.’ ‘[…] da graves vulnerabilidades estruturais da economia apresentadas
pelo governo, de modo totalitário, como o único caminho possível para o Brasil Na verdade, há diversos países estáveis e competitivos no mundo que adotaram outras alternativas.’ Padrão cascata, não cita o nome dos paises.
Estatuto do PT. ‘O Partido dos Trabalhadores (PT) é uma associação voluntária de cidadãos e cidadãs que
se propõem a lutar por democracia, pluralidade, solidariedade, transformações políticas, sociais,
institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria, com o objetivo de construir o socialismo
democrático.’
Ainda manifesto. ‘ O PT nasce da decisão dos explorados de lutar contra um sistema econômico e político que não pode resolver os seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria de privilegiados.’ ‘Nasce, portanto, da vontade de emancipação das massas populares. Os trabalhadores já sabem que a liberdade nunca foi nem será dada de presente, mas será obra de seu próprio esforço coletivo.’ ‘O PT pretende ser uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista.’
Manifesto de criação do Partido dos Trabalhadores. ‘As grandes maiorias que constroem a riqueza da Nação querem falar por si próprias. Não esperam mais que a conquista de seus interesses econômicos, sociais e políticos venha das elites dominantes.’ ‘Organizam-se elas mesmas, para que a situação social e política seja a ferramenta da construção de uma sociedade que responda aos interesses dos trabalhadores e dos demais setores explorados pelo capitalismo.’
‘ Diga-se isso, não em defesa ou ataque o PT, […]’. Esta é daquelas. Quando alguém num debate publico começa a ‘amanteigar’ muito outra pessoa é porque depois ‘vem’.
Li com atenção o teu texto Giorgio. Vou examinar com mais demoras. Te cumprimento pela abordagem clara e que por certo ensejará salutar discussão sobre “a esquerda e o liberalismo”.