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Meu filho faz design – por Máucio

Todos que vivem em torno da atividade de design – profissionais, professores e estudantes – sofrem com um problema: a falta de entendimento da profissão. E tanto faz falar em Desenhista Industrial ou em designer que a confusão é a mesma. O mais comum é serem confundidos com publicitários ou com artistas plásticos.

Quando se usa o termo Desenhista Industrial, o rótulo mais freqüente é de que são pessoas que desenham parafusos. E não adianta tentar explicar. Por outro lado, o nome design – adotado por alguns cursos – também não ajuda em nada. Hoje em dia tem design de tudo: design de cabelo, design de cachorro, design de bolo de aniversário e até design de púbis. Nas últimas décadas houve uma apropriação popular ampla do termo. Provavelmente porque as pessoas acham bonitinho o vocábulo anglo-saxão. Com isso o conceito profissional/acadêmico purista foi pras cucuias.

A incompreensão do que faz um designer não escolhe idade, sexo, nem classe social. Pai, mãe, irmãos, tios, vizinhos, ninguém entende direito o que, mesmo, os estudantes estão fazendo nessa faculdade.

Com André a coisa não foi diferente. No início foi difícil convencer o pai, produtor rural, que largar o curso de Agronomia para fazer Desenho Industrial era uma boa decisão. Constituiu-se numa verdadeira via sacra. Todos os fins de semana o filho tratava de ir para a fazenda, com o objetivo de amenizar o sofrimento do seu José e tentar convencê-lo que a profissão de design realmente existia e tinha futuro. Entrava no assunto aos pouquinhos, para não assustar. Num dia falava em desenhos, rascunhos, projetos, tintas, cores. No outro comentava sobre objetos tridimensionais e até mesmo a protótipos chegou a se referir. Era uma liturgia em etapas. Seu José parecia ouvi-lo atentamente, mas não falava absolutamente nada, o que deixava André muito angustiado.

André passou duas semanas sem ir à fazenda devido às provas da faculdade, mas aquele domingo de Páscoa não tinha como deixar de ir. Chegou sexta-feira no final da tarde. Estavam todos proseando debaixo das árvores, perto do galpão. André puxou um cepo e já lhe alcançaram um mate. A conversa corria solta, adultos rodeados por crianças, cachorros e galinhas ciscando por perto. Dali a pouco seu José pergunta-lhe como estava a faculdade. André ficou surpreso com o interesse, mas, de pronto, deu trela ao pai. – Tá buenacha, essa semana tive muitos projetos pra entregar. É bem puxada a coisa.  Seu José espera o filho terminar a frase e completa: amanhã cedo quero te mostrar, lá embaixo, o novo leiaute do potreiro que o pai fez. Tá bonitaço! André não sabia se sorria ou caia na risada, mas comeu quieto, entendendo que a ladainha daqueles fins de semana havia dado resultado.

No dia seguinte, depois de verem as reformas do potreiro, só restara mesmo planejarem o design do churrasco para comemorar o domingo de Páscoa. Foi um sábado de aleluia!

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6 Comentários

  1. Escolher essa profissão é um desafio considerável, pois poucos entendem do que se trata e não há regulamentação.
    Para cursarmos, além de convencer os nossos pais que a profissão existe e tem futuro, ainda pode-se citar que precisamos convencê-los a serem nossos patrocinadores, e que farão um bom investimento pagando nossas contas para estudar “designer”, hehe.

  2. Para que a profissão seja reconhecida, a mudança de postura do designer, conforme o Fabiano falou, é uma necessidade. Além de prestar seus serviços com total profissionalismo, o designer ainda deve assumir a função de “professor” perante o cliente, procurando esclarecer as decisões projetuais tomadas no decorrer do trabalho. Desta forma o cliente entende que o design não é algo que qualquer um que “pilote” um computador – vulgo micreiro – faça em poucos minutos a um custo muito baixo.

  3. Aconteceu aqui em casa. Sou mãe de designer e não posso deixar de comentar. É isso aí mesmo que o Máucio falou. Aqui, a “prosa” se deu ao redor da mesa após a refeição e, a maior surpresa pra mim foi quando “meu” designer contou que a profissão dele ñ é reconhecida “legalmente”, isto é, não regulamentada, assim como os engenheiros e arquitetos (CREA) e ou os médicos (CREMERS). Meu filho comentou que ha mais de 20 anos esperam pela oficialização e reconhecimento legal. É um absurdo.

  4. Realmente: a banalização do termo é a principal causa da falta de conhecimento da profissão…Design floral ,design de sobrancelha…Outro problema é que desenhista industrial não engloba toda a nossa área de atuação….

  5. O texto ilustra bem a situação de quem escolheu este curso.É o preço por Fugirmos do tradicional e seguir a nossa vocação e os nossos sonhos.
    Realmente explicar a função da nossa profissão não é tarefa fácil, sem entrar no mérito das tão polêmicas e discutidas nomenclaturas.
    Parece que estamos nos justificando por existir! Pra que serve? O que faz?
    Ninguém pergunta para um advogado, engenheiro, médico, o porquê das suas profissões, este entendimento já está na cultura de todos.
    Acredito que por osmose como aconteceu com o Seu José as pessoas irão adquirir o entendimento do que fazemos e dos termos que utilizamos.
    Pelo que acompanho isso já acontece em países em que o Design ou Desenho Industrial está institucionalizado há mais tempo.
    Para chegarmos a esta realidade depende da postura dos profissionais e futuros profissionais para mostrar o nosso papel.
    Somente desta maneira seremos compreendidos e valorizados!
    Portanto estes conceitos devem estar muito bem entendidos por nós profissionais, caso contrário ainda por muito tempo teremos que aturar mau uso e banalizações a cada a cada esquina.

  6. Belo texto, que ilustra muito bem o que passa o cara que decide fazer designer. Na minha família, não só desenhar parafusos, mas desenhar máquinas também é muito comum de se ouvir. Eles nem sabem de que máquinas estão falando, mas elas fazem parte da indústria. É desenho, e é industrial, então deve ter a ver com desenhar máquinas, hehe. Daqui uns 2 semestres eles aprendem, hehe.

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