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Deu pra ti anos 00 – por Rogério Koff

Mal deram seus primeiros sinais e os anos zero-zero já me deixaram um bocado confuso. Sentados lá no Ponto de Cinema, recém chegados depois de dois anos no Rio de Janeiro, olho para a comanda e vejo: 3 de janeiro de 00. Como assim, zero-zero? Não me sentia tão jovem para começar tudo novamente, depois de passar parte da infância nos anos 60, a adolescência nos 70, minha juventude nos 80 e a maturidade tardia nos 90, voltar ao zero-zero era demais.

Neste crepúsculo de 2009 ainda temos a discussão sobre o final da década de 00, embora ela só termine quando estourarem os primeiros foguetes em janeiro de 2011. Mas ando um tanto apressado e resolvi antecipar minha retrospectiva. Êta década maluca!

Tudo começa com aqueles doidos jogando aviões contra o World Trade Center e o Pentágono. Depois vieram a segunda Guerra do Golfo, a invasão do Iraque, a execução de Saddam Hussein, a interminável caça a Bin Laden nas montanhas do Afeganistão. Chegamos perto do final dos zero-zero com muito mais medo do que pode acontecer com nosso planeta, irritados com o fracasso da agenda de Copenhague e sacudidos dia após dia por uma seqüência de catástrofes naturais, respostas que o meio ambiente está oferecendo a um progresso tecnológico inconseqüente.

Querem mais? Primeiro presidente negro nos Estados Unidos, Obama ganha um Nobel antecipado, talvez em razão de que poucos acreditem de que mesmo ele possa ser o grande negociador da paz mundial. No Brasil, país de imensas injustiças, provamos que a mobilidade social é um sonho possível na eleição de um presidente com origens humildes na classe operária. Termina dois mandatos com grande popularidade, infelizmente com respingos de mensalão e o realinhamento na política pragmática de alianças questionáveis. Isto sem falar em grana guardada em pastas pretas, cuecas e meias. Antes dos anos zero-zero, Rodin era apenas o nome do escultor famoso que viveu ao lado de Camille Claudel.

Na vida cultural, sempre odiei as listas de final de ano dos “melhores disso” e “melhores daquilo”. Na música, citam Radiohead e os Strokes, que conheço pouco, e também o Coldplay, este sim mais familiar aos meus ouvidos. Concordo que o recente Viva La Vida seja um álbum respeitável, mas venho de uma época em que havia bem mais do que se falar. A fiasquenta Amy Wynehouse, por exemplo, deixou um grande álbum chamado Back to Black. Mas vou ficar com meus heróis antigos. Ninguém, na minha opinião, gravou um disco tão bom nos 00 (numerologia que expressa bem a falta de boas referências) quanto meu ex-Beatle preferido. Chãos and Creation in the Backyard  traz uma coleção de belíssimas baladas que estão à altura dos grandes trabalhos de Paul McCartney no passado. Digo o mesmo sobre o cinema. Alguém assistiu a algo melhor do que Menina de Ouro, de Clint Eastwood? Vamos, cinéfilos de plantão. E então, Beto Cassol e leitores? Na falta de qualquer outra obra mais significativa, fico com Eastwood em performance antológica ao lado de Morgan Freeman e de uma bela revelação chamada Hilary Swanke. Filmaço.

Foram anos malucos e velozes. Pessoalmente, foi a década mais feliz de minha vida, defendi tese de doutorado, publiquei três livros, assisti ao surgimento e afirmação profissional de muitos alunos e termino como Diretor reeleito no Centro de Ciências Sociais e Humanas, com mandato até 2014. Nada mal para este herdeiro confesso dos anos 1960.

Então, que venham os anos 10. Acho que agora estou mais preparado.

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2 Comentários

  1. Rogério, concordo com quase tudo. Também acho o “Menina de Ouro” um tremendo filme, mas eu ficaria com outros três do “cinemão”: “Crash – No Limite”, de Paul Haggis; “Torre de Babel”, de Alejandro González Iñárritu; “Um dia sem mexicanos”, de Sergio Arau. Teria outros (nenhum capaz de fazer sombra à “Blade Runner” ou ao primeiro “O Poderoso Chefão”, hehehe), como “Cruzada”, que também adorei, “Adeus Lênin”, engraçadíssimo, e “Ensaio Sobre a Cegueira”, perturbador ao extremo. Em resumo, acho que no cinema continuaram sendo bons anos os 00, apesar dos pesares. Abraço, Rogério, e um baita 2010 pra ti!

  2. Acabei de ler o seu artigo (por algum motivo ele não me mostrou antes de publicar como os anteriores) e concordo que os 00 representaram uma ótima década para nós, com muitas realizações. Como é natal, um grande abraço para todos e um beijão no maridão….
    Lucia Koff

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