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O mito de Cassandra e a arte de silenciar a prevenção – por Rosito Zepenfeld Borges

Falha de cultura organizacional -onde o risco é conhecido, mas não é priorizado

Quando falamos em mitologia grega, todos conhecem as histórias de Troia e seus personagens como Aquiles, Heitor e a belíssima Helena. Não tão conhecido é o mito de Cassandra, considerada uma das filhas mais belas de Príamo e Hécuba, reis de Troia e irmã de Heitor e Páris. Apolo, o deus do sol e da profecia se viu perdidamente apaixonado por seus encantos. Para conquistar seu coração, deu à princesa o dom da profecia.

Ela, porém, não correspondeu ao seu afeto e, em um ato de vingança, Apolo lançou sobre ela uma maldição: mesmo sabendo o que iria acontecer, ninguém acreditaria em suas previsões. Cassandra então tornou-se uma profetisa impotente. Apesar de ter advertido sobre desastres iminentes, como a queda de Troia e a morte de Heitor, ninguém lhe deu credibilidade.

Muitas vezes os profissionais da segurança do trabalho se sentem como Cassandra. Apresentam conhecimento técnico e evidências suficientes para prever acidentes e doenças ocupacionais. Identificam riscos com antecedência – mas, frequentemente, suas contribuições não recebem a devida atenção, como as previsões de Cassandra. A indiferença à expertise da segurança do trabalho pode ser observada em diversos níveis, desde a falta de investimento nas condições de trabalho até a resistência a implementar mudanças necessárias. Mais do que falha técnica, trata-se de uma falha de cultura organizacional – onde o risco é conhecido, mas não é priorizado.

Para muitas empresas, a segurança do trabalho é apenas uma imposição legal, e suas indicações não são levadas a sério. Há uma frase comum no meio médico: o anestesiologista só é lembrado quando algo dá errado. Na segurança do trabalho é semelhante, se os acidentes não ocorrem não existe mérito por ter minimizado os riscos. Mas, se algo dá errado, a pergunta surge imediatamente: como isso não foi identificado?

Quando Troia finalmente caiu – exatamente como ela havia previsto – Cassandra foi capturada pelos gregos, tornando-se prisioneira de Agamêmnon, que a levou para Micenas. Mesmo assim a maldição continuou. Ela previu a morte de Agamêmnon nas mãos de sua esposa Clitemnestra, e também viu sua própria morte. Ela tentou avisar Agamêmnon, mas ele, como todos os outros, não deu ouvidos às suas palavras. Ambos foram assassinados por Clitemnestra, exatamente como Cassandra havia profetizado. Até o fim, ela carregou o fardo de saber o futuro sem poder mudá-lo.

Muitas vezes usamos o termo “tragédia anunciada”. Vimos isso na Boate Kiss (basta lembrar que em Buenos Aires, alguns anos antes ocorreu um incêndio de semelhanças absurdas) e também nas inundações que ocorreram em 2024. De certa forma, nos comportamos como Príamo – e, pior ainda, como Agamêmnon – que mesmo depois de tantas evidências ignora os fatos.

Os psicólogos e outros cientistas têm usado a expressão “complexo de Cassandra” como metáfora para simbolizar a falta de confiança e credibilidade entre as pessoas. Esse fenômeno se estende a todos os setores da atividade produtiva. Esse silenciamento é, inclusive, um dos grandes contribuintes dos chamados riscos psicossociais.

O mito de Cassandra nos ensina que ter conhecimento sem poder agir sobre ele é uma das formas mais cruéis de sofrimento. Também ensina que muitas vezes rejeitamos verdades inconvenientes simplesmente porque não queremos lidar com elas. Quantas vezes na vida real ignoramos avisos de pessoas que realmente sabem do que estão falando, apenas porque suas mensagens são inconvenientes, desconfortáveis ou contrariam aquilo que queremos ouvir.

(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.

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