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A onda azul chegou. E o Brasil tornou-se o centro da disputa continental – por José Renato Ferraz da Silveira

“Eleitor brasileiro definirá, em grande medida, a direção ... da América do Sul”

Se o padrão ainda não era suficientemente claro, agora ele parece cada vez mais evidente. A América do Sul vive uma nova inflexão política. Quando Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu terceiro mandato, Argentina, Colômbia, Chile, Bolívia e outros países relevantes eram governados por forças de esquerda ou centro-esquerda. Três anos depois, o mapa político mudou significativamente: vários desses países passaram a eleger governos de direita ou centro-direita, enquanto outros caminham na mesma direção.

Foi nesse contexto que Flávio Bolsonaro esteve na Argentina e afirmou que “o Brasil é a peça que falta nesse mapa”. A frase não foi apenas um slogan de campanha. Ela revela que a eleição presidencial brasileira passou a ser vista como o capítulo decisivo de um rearranjo político regional.

A chamada “onda azul” não surgiu por acaso. Ela é resultado de um conjunto de fatores que aparece, com maior ou menor intensidade, em praticamente todos os países da região: preocupação crescente com a segurança pública, desgaste provocado por escândalos de corrupção, dificuldades econômicas persistentes, pressão migratória em alguns países e forte desconfiança em relação às elites políticas tradicionais. Nesses temas, a direita conseguiu construir uma narrativa que, até o momento, dialoga com uma parcela expressiva do eleitorado.

Nada disso significa que a esquerda tenha desaparecido ou que esse movimento seja irreversível. A América Latina sempre viveu ciclos políticos. Depois da chamada “onda rosa”, veio uma primeira onda conservadora. Em seguida, vários governos de esquerda retornaram ao poder. Agora, observa-se novamente um deslocamento do eleitorado para candidatos de direita. O pêndulo da política latino-americana continua funcionando.

O que diferencia o momento atual é o peso do Brasil. Nenhum outro país possui capacidade semelhante de influenciar os rumos políticos, econômicos e diplomáticos da região. Independentemente de quem vença a eleição de outubro, seu resultado ultrapassará as fronteiras nacionais.

Por isso, a disputa brasileira interessa tanto aos governos vizinhos. Mais do que decidir quem ocupará o Palácio do Planalto, o eleitor brasileiro definirá, em grande medida, qual será a direção política da América do Sul nos próximos anos.

Talvez Flávio Bolsonaro tenha resumido essa percepção melhor do que imaginava. Ao dizer que “o Brasil é a peça que falta”, reconheceu uma realidade conhecida há décadas pela diplomacia internacional: quando o Brasil muda de rumo, o continente inteiro precisa recalcular seus próprios caminhos.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria-UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Especialista em Humanidades pela PUC-RS. Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduado em História pela Ulbra-RS.

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