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Sinta – por Bianca Zasso

Até o começo da década de 60, o cinema, em especial o produzido em Hollywood, era dotado de um puritanismo que soa incompreensível nos dias de hoje. O chamado Código Hays controlou as produções americanas até o começo da década de 60 e proibia, entre outras coisas, cenas de sexo e insinuações de adultério. Ou seja, o cinema não podia pegar pesado na sedução, na violência ou no chamado “desvirtuamento de valores”.

Um tipo de censura que fez com que os diretores investissem na criatividade para contar suas histórias sem sofrer com a tesoura do Código. Com o fim das regras, Hollywood se deparou com um novo mundo, onde não era preciso velar a traição de um personagem ou usar metáforas para falar de desejo. Talvez por isso os primeiros filmes com cenas mais explícitas de sexo e nudez causassem tanto burburinho entre o público.

O filme poderia até ter uma história simples ou que ia além das imagens sensuais, mas eram as cenas quentes que atraiam a maioria dos expectadores. Um novo prazer ganhava as telas. E mesmo que os estúdios americanos fossem os grandes da época, foi um dos grandes nomes do cinema oriental que levou esse prazer ao extremo.

É comum que a maioria das resenhas de O império dos sentidos, dirigido pelo japonês Nagisa Oshima classifique o filme como erótico. Suas cenas de nudez não utilizam a penumbra e o sexo entre os personagens não é apenas sugerido, e sim mostrado. O pudor também não está presente no roteiro, que cria situações que beiram o bizarro para contar a história de uma empregada que se envolve com o patrão.

O que num primeiro momento parece uma relação puramente sexual, se torna uma obsessão para ambos os envolvidos, que buscam o prazer a qualquer custo. Se valendo de brinquedos eróticos improvisados a jogos perversos, os dois protagonistas seguem os seus dias fazendo do sexo a sua válvula de escape.

Proibido em vários países, Império dos sentidos chegou ao mercado do VHS na década 80 mas nunca habitou a prateleira dos filmes pornôs nas locadoras. O motivo é simples: o filme tem muito sexo explícito, mas passa longe de ser excitante. Não é sacanagem por sacanagem. Os diálogos, por mais calientes que sejam, nos mostram duas pessoas que beiram o desespero. O sexo em O império dos sentidos é simbólico. Cada carícia trocada pelos amantes tem uma razão, esconde uma busca por algo que eles não sabem explicar o que é.

Há quem compare o filme de Oshima ao clássico O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. A principal semelhança entre as duas produções é o fato de ambas terem como protagonistas amantes com vidas conturbadas que buscam no sexo uma maneira de esquecer o que os cerca. Mas enquanto o diretor italiano cria uma atmosfera pop tipicamente francesa, o japonês prefere ser mais cruel e conduzir o espectador numa louca dança onde desejo e loucura andam agarrados.

O império dos sentidos nos faz pensar até que ponto a busca pelo prazer pode nos levar. Gozar de um sexo sem amarras, esquecer as regras impostas pela sociedade e fazer apenas o que o tesão mandar parece uma porta de entrada para uma vida muito animada. Mas será que vale a pena tirar as rédeas do instinto? Seria o sexo a única e melhor forma de se encontrar? Nagisa Oshima explorou até a última gota das possíveis respostas para essas perguntas e criou uma das obras mais sensuais e perturbadoras dos anos 70.
Para quem ficou curioso por esse império, fica o recado: esteja preparado. Mil sensações vão tomar conta de você durante uma hora e meia. Cinema tem dessas coisas. Só não vale não se render.

O império dos sentidos

Ano: 1976

Direção: Nagisa Oshima

Disponível em DVD

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